Obscurantismo de esquerda e estado laico

Rutherford 2019

Alguns links me conduziram ao site Obvious, e daí, a um texto intitulado Obscurantismo Medieval e Estado Laico, publicado por João Carlos Figueiredo.[1] O primeiro parágrafo (ou olho) do post pontua aquilo que é desenvolvido a seguir:

As primeiras manifestações ideológicas do “novo governo”, materializadas nas nomeações para os Ministérios, apontam para um radicalismo extremo e fascista, que privilegia religiões retrógradas e pensamento medieval, declaradamente preconceituoso, machista, militarista e subdesenvolvido. Conquistas democráticas são ameaçadas por falsos filósofos do absurdo, que pretendem trocar os polos do extremismo de esquerda pela ultradireita conservadora.

Elizabeth Castro acerta quando diz que “a World Wide Web é a prensa de Gutenberg de nosso tempo”.[2] As tecnologias web que, como dizem alguns analistas, favoreceram a eleição do governo Jair Bolsonaro, propiciam também a publicação de informação e opiniões contrárias a ele. De fato, é melhor que seja assim: que possamos expressar o que pensamos, abrindo espaço para sermos lidos e, por conseguinte, criticados.

O texto de Figueiredo chama atenção, do ponto de vista do estilo, pela quantidade de adjetivos do primeiro parágrafo: “ideológico”; “extremo”; “fascista”; “retrógradas”; “medieval”; “preconceituoso”; “machista”; “militarista”; “subdesenvolvido” e “falsos”. Logo de início, a sobrecarga de rótulos asfixia o leitor.

Notemos que, para o autor, as nomeações para os Ministérios do governo Jair Bolsonaro materializam “manifestações ideológicas”. Ora, temos de perguntar se, em algum tempo ou lugar, qualquer que fosse o presidente eleito, isso poderia ser diferente. Todo gestor nomeia norteado por determinado modo de perceber o mundo (cosmovisão) e isso implica ideologia. Aliás, cada adjetivo escolhido pelo próprio Figueiredo destila ideologia — de esquerda e precariamente articulada. Uma das evidências da articulação aventureira é o uso anacrônico de “fascista” para identificar quem se assume como conservador. Conservadores lamentam e respiram fundo, diante de tal infantilidade.

Outro ponto digno de nota é a menção de “radicalismo extremo” e “polos do extremismo de esquerda” e “ultradireita conservadora”. A opção a isso seria um pensamento de centro, conciliador, mas Figueiredo assume, do modo mais rubro possível, seu radicalismo de esquerda. Trocando em miúdos, tudo estaria bem se a esquerda, em sua forma mais extrema, vencesse as eleições e desse continuidade a diversos programas (ideológicos) em andamento, mas uma vez que a vitória coube a um candidato de viés conservador, eis que estamos prestes a sofrer sob “radicalismo extremo”. Em suma, radicalismos de esquerda — sugere Figueiredo — nos conduzem a uma era venturosa, de “conquistas democráticas”. O radicalismo de direita é deletério. Não seria a própria possibilidade de eleger candidatos — sejam eles de esquerda ou de direita — uma “conquista democrática”? Não seria estar sob um governo eleito — mesmo que não se tenha votado no governante atual — uma “conquista democrática”? E não seria a contingência de conviver com o diferente — tão pleiteada pelas ditas minorias — uma “conquista democrática”?

Para piorar, Figueiredo sugere que o governo Jair Bolsonaro “privilegia religiões retrógradas e pensamento medieval”. Em primeiro lugar, o que, para Figueiredo, é uma “religião retrógrada”? Se tomamos “retrógrado” como “o que anda para trás”; ou “o que é contrário ao progresso, ao que é novo”, ou como sinônimo de “conservador” ou “reacionário” (Dicionário Aurélio), o que, para Figueiredo, é uma “religião avançada” ou “contemporânea”? Como ele entende “religião”?

O fato é que estamos diante de um problema de grande monta, considerando que muito do que afirmamos como Estado de Direito e ideal democrático foi acrisolado no cadinho da religião. Eu não estou dizendo que, em algum tempo, desde a queda, em qualquer sociedade humana, houve um estado de coisas perfeito, ou uma religião implementada pelo homem perfeita. Muito menos estou isentando o Cristianismo de seus erros históricos. Apenas afirmo que, tratando-se da Cultura Ocidental, é impossível pensar em Estado Democrático de Direito, sem mencionar protagonistas cristãos. A Carta Magna norte-americana, por exemplo, deflui do ideal constitucionalista do presbiterianismo escocês, capitaneado pelo Rev. Samuel Rutherford (cujo retrato ilustra este post). Para Rutherford, nenhum rei está acima da lei, portanto, é necessária uma lei maior, magna. A autoridade de qualquer governante só é legítima, dizia Rutherford, se o próprio governante submeter-se à lei; daí, Lex Rex (a Lei é o Rei).[3] Por fim, deve se admitir que o Marxismo e quase todos os “ismos”, que surgiram a partir do séc. 18, surgiram como reações ao Cristianismo.

Por outro lado, parte considerável da pauta liberal, inclusive política, não passa, grosso modo, de uma revitalização de crenças e comportamentos pagãos, pré-cristãos, e, nesses termos, também religiosos. A esquerda contrapõe ao teísmo cristão o monismo pagão. Mesmo fazendo uso de vocabulário secular, a esquerda promete senso de identidade e significado, propõe uma nova “velha” ética e tem até seu próprio messianismo e escatologia.

Outro problema fica por conta daquilo que Figueiredo quer dizer com “pensamento medieval”. Será que ele não percebe que foi exatamente ali, na era medieval, que vicejaram ideias que deram forma ao mundo contemporâneo, inclusive aos ideais tanto da direita quanto da esquerda, conservadores e liberais? A escola e o hospital públicos? A universidade? O estudo dos textos aristotélicos? Décadas atrás rotulava-se o período medieval como “era das trevas”. Atualmente, admite-se que há muito, no pensamento medieval, que precisa ser tanto conhecido quanto aproveitado. E tudo aquilo que possuía corpo no pensamento medieval, mas que não coaduna com a boa ciência e não cabe no Estado Democrático de Direito, simplesmente não encontra lugar para ser.

Além de “medieval”, Figueiredo considera o pensamento do governo Jair Bolsonaro “preconceituoso, machista, militarista e subdesenvolvido”, mas esta perspectiva — de Figueiredo — é maniqueísta, pretenciosa e reducionista. A esquerda é boa; a direita é péssima. A esquerda jamais é preconceituosa e seu feminismo é o melhor para as mulheres. Quanto ao militarismo, não se leva em conta que o governo Bolsonaro será exercido em um país com instituições democráticas razoavelmente consolidadas. Ademais, Figueiredo deixa de considerar que existem mais pessoas do que Jair Bolsonaro no governo Bolsonaro e pode haver muito mais diversidade do que se imagina, dentro dos diferentes escalões do referido governo; diversidade esta com potencial para contribuir para a efetividade de um bom governo, a contragosto da oposição.

Uma última observação diz respeito ao título do post de Figueiredo: Obscurantismo Medieval e Estado Laico. É plausível sugerir que, ao denominar o período medieval de obscuro, o autor se aproxima do obscurantismo. Além disso, não se pode confundir Estado laico com Estado materialista. O Estado laico não assume nenhuma religião como oficial, mas não é certo afirmar que, por ser o Estado laico, não se pode declarar fé em Deus, nem mencionar Deus na esfera pública. E ninguém pode ser taxado de obscurantista, simplesmente porque acredita em Deus. Obscurantista é todo aquele que se nega a analisar melhor os fatos e a conhecer e aceitar evidências de uma verdade.

Entendam. Não escrevo como apoiador incondicional do presidente Jair Bolsonaro. Como Figueiredo, também questiono algumas de suas nomeações para Ministérios. Também não me alinho, doutrinariamente, a todos os religiosos que o circundam. Mesmo assim, entendo que o tempo dirá se ele fez um bom governo ou não. Em 2022 voltaremos às urnas para reelegê-lo ou retirá-lo do poder. Até lá, temos de exercitar cidadania, que implica aprender a conviver com um presidente que diz acreditar em Deus, que pratica oração, que se cerca de pensadores e religiosos que se dizem cristãos, que é não apenas político, mas também militar de carreira e que propõe uma pauta conservadora nos costumes e liberal na economia.

Notas

[1] FIGUEIREDO, João Carlos. Obscurantismo Medieval e Estado Laico. In: Obvious. Disponível em: <http://lounge.obviousmag.org/artefacto_artefoto/2018/11/obscurantismo-medieval-e-estado-laico.html>. Acesso em: 07 jan. 2019.
[2] CASTRO, Elizabeth. HTML for the World Wide Web. 5. ed. Berkeley, CA: Peachpit Press, 2003, p. 13. (Visual Quickstart Guide). Tradução nossa.
[3] Cf. KOPEL, David. Contributor, The Volokh Conspiracy. Origins of the Declaration of Independence: Samuel Rutherford’s ‘Lex, Rex’. In: The Washington Post. Disponível em: <https://www.washingtonpost.com/news/volokh-conspiracy/wp/2016/07/02/origins-of-the-declaration-of-independence-samuel-rutherfords-lex-rex/?noredirect=on&utm_term=.3a17094c9f28>. Acesso em: 7 jan. 2019.

As eleições de Deus e dos homens

Eleições 2018

No último post eu falei sobre uma reunião de líderes cristãos, realizada no séc. 17, na cidade de Dort (Holanda), conhecida como Sínodo de Dort. Destaquei este assunto porque neste ano as igrejas reformadas celebram os 400 anos daquela reunião. Informei que aquele concílio publicou um documento intitulado Cânones de Dort, que organizou a doutrina bíblica da salvação. Mencionei o artigo 1 (do cap. 1) do documento, que explica a depravação total e afirma que “toda a humanidade é condenável perante Deus”. Daí aplicamos isso ao momento eleitoral atual.

Os artigos 6-18 (do cap. 1) dos Cânones abordam a doutrina da eleição. Não é meu propósito explicá-la aqui (interessados podem conferir um curso completo sobre o assunto, escrito por mim e pela educadora cristã Ivonete Porto). Aqui basta compreender que, apesar de todas as pessoas se afastarem de Deus por causa do pecado (depravação total), Deus escolheu algumas para serem salvas. O critério para esta escolha é graça pura (eleição incondicional). Deus elege para salvação pessoas que não merecem ser salvas. Sua escolha não é baseada em nossa fé, santidade ou competência, mas unicamente em seu amor livre e intencional (Jo 5.21; 15.16; Ef 1.3-14; 2.8).

O assunto aqui é “capacidade de escolha”. E notemos, quanto à escolha humana, que Dort expõe dois entendimentos — ambos verdadeiros e complementares. O primeiro é o de que o ser humano só consegue “escolher” a salvação se, antes de tudo, ele próprio for escolhido por Deus para ser salvo (Jo 6.44).

O segundo entendimento é o de que, mesmo decaídas, as pessoas podem e devem escolher representantes para tomar decisões e governar por elas. No sistema presbiteriano é assim que um sínodo funciona: as igrejas elegem “delegados”, pessoas a quem delegam o poder para lidar com questões pertinentes à doutrina e gestão da igreja. Se a eleição de Deus para a salvação é incondicional, a eleição para cargos de governo (seres humanos elegendo outros seres humanos como seus representantes) considera caráter e competência (At 6.3; 1Tm 3.1-13; Tt 1.5-9). Em suma, por causa da queda, nós já nascemos “mortos em delitos” (Ef 2.1-3). Não temos livre-arbítrio como disposição e possibilidade de escolher Deus. Por outro lado, podemos e devemos fazer escolhas morais e administrativas (possuímos livre agência).

Deus sempre escolhe corretamente. Sua vontade é “boa, agradável e perfeita” (Rm 12.2). Nós, porém, somos limitados em nosso conhecimento, discernimento e escolhas. Pedimos sabedoria a Deus (Tg 1.5-8), mas às vezes nossa tolice é tão grande, que nos arrependemos até de decisões tomadas depois de muita oração.

No dia 07 de outubro faremos escolhas administrativas importantes. Votaremos para eleger Presidente da República, Governador, Senadores (2), Deputado federal e Deputado estadual. Escolhamos representantes para o bem do Brasil e a glória de Deus.

400 anos de Dort e as eleições

Sínodo de Dort

Reflitamos sobre o sínodo realizado na cidade de Dort (Holanda), de 13 de novembro de 1618 a 9 de maio de 1619. O sínodo reuniu 102 pensadores e líderes e produziu um documento importante intitulado Cânones de Dort.[1] Se em 2017 os protestantes celebraram os 500 anos da Reforma, agora agradecem ao Senhor pelos 400 anos do Sínodo de Dort.

Ao organizar a doutrina bíblica da salvação, os Cânones fornecem ensino digno de atenção para o momento presente da campanha eleitoral em nosso país. O primeiro artigo explica o ensino sobre depravação total e afirma, com base em Romanos 3.19, 23; 6.23, que “toda a humanidade é condenável perante Deus”. Um desdobramento disso é que, por causa da queda, mesmo as pessoas mais louváveis são pecadoras que podem ser corrompidas. Notemos que esta doutrina veda qualquer ilusão de justiça própria ou perfeição política. O único homem incorruptível que pisou nesta terra foi Jesus Cristo. Os que abraçam este artigo assumem que não é a política que corrompe as pessoas e sim o pecado em cada pessoa que corrompe a política. Mesmo o “melhor candidato” abriga desonestidade ou, na melhor das hipóteses, fragilidade.

A própria reunião de Dort nos ensina sobre política. Uma questão bíblica foi estudada por quase seis meses, por mais de uma centena de cristãos. Não foi o “maioral dos sabichões” que bateu o martelo, afirmando conhecer infalivelmente a verdade absoluta. Os pontos foram discutidos e votados. A ideia por detrás de um sistema conciliar é que nenhum ser humano se basta. Porque somos inclinados ao engano, precisamos aprender tanto a falar, quanto a ouvir o outro. Na “multidão de conselheiros” há maior probabilidade de encontrar “sabedoria” (Pv 11.14).

Consideremos que a segunda geração de reformados optou por um sistema de governo da igreja representativo. Se todo ser humano é pecador, politicamente, estamos diante de duas opções: (1) conviver com uma pluralidade de pecadores, com estruturas e instrumentos adequados para que um deles seja eleito e monitorado pelos demais (governo de estado de direito e diálogo), ou (2) ser conduzidos por um único pecador com superpoderes, sob risco de tirania (governo de imposição). Para os irmãos de Dort, o primeiro ponto da doutrina da salvação esclarecia as coisas para o discipulado e outras áreas da vida, inclusive a política. Puritanos alentaram ideais democráticos, defenderam sistemas representativos, liberdade de consciência e o princípio da Lex Rex, “a Lei é o Rei”, ou seja, todo governo (monárquico ou republicano) deve funcionar sob uma Lei Geral, Carta Magna ou Constituição.

Desde o séc. 18, atos de tomada de poder foram articulados por radicais de esquerda e de direita. E o discurso é sempre o mesmo: “É preciso moralizar o que está aí”. Creio que todos concordamos com isso. “Temos de renovar, de modo absoluto, as instâncias de poder”. O problema aqui está no adjetivo “absoluto”. Daí a fala piora: “Nós somos a única esperança; tomemos o poder sem hesitação”. O poder vigente, corrompido, é substituído por outro, que se promove como incorruptível, mas depois se revela tão ou mais corrupto do que o anterior. E o que conduz a isso? A depravação total, meu caro, diriam os teólogos de Dort.

Sou presbiteriano porque sei que não passo de pó e maldade. Se eu não caminhar regulado por meus irmãos; se eu for livre para implementar tudo o que consta em meu coração, mesmo aquelas coisas aparentemente bíblicas e boas, sem prestar contas a ninguém, correrei risco de me orgulhar, de me considerar centro do universo e de pecar horrivelmente contra Deus e o próximo. O coração humano — mesmo de um cristão regenerado — ainda é fonte de engano. Eu sou lapidado pelo Senhor funcionando em diálogo às vezes difícil com os outros; lidando com diferenças e discordâncias, tendo de esperar anos para ver uma ideia implementada. O convívio plural é melhor do que a solidão despótica.

Se isso é assim, nesta eleição, qual o melhor candidato? Tem de ser alguém comprometido em governar sobre todos os grupos do Brasil, dialogando e respeitando a Constituição e o Estado Democrático de Direito. Menos do que isso não faz jus ao legado abençoador do Sínodo de Dort.

Nota

[1] Você pode conferir a íntegra desses Cânones na Bíblia de Estudo de Genebra (2. ed., p. 1774) ou na Bíblia de Estudo Herança Reformada (p. 1975).

Por que Olavo de Carvalho não é evangélico

Por que Olavo de Carvalho não é evangélico

Desde a leitura de O Jardim das Aflições e O Imbecil Coletivo I, adquiro e recomendo as obras de Olavo de Carvalho para alunos e membros de minha igreja. Carvalho é um erudito que escreve bons textos, especialmente sublinhando as fragilidades e falácias do viés ideológico de esquerda. Ele é um forte proponente do pensamento conservador e de direita, sempre acerta mais do que erra e eu o considero um aliado naquilo que denomino “pauta cristã” da cultura.

Alguém me perguntou o que eu achei do texto Por Que Não Sou “Evangélico”, publicado por Carvalho em 03/09/2018. Simples: a resposta dele é consistente com suas convicções, como católico apostólico romano. Em quatro pontos ele argumenta que os evangélicos distorceram o ensino de Jesus sobre a salvação. Carvalho sugere que Jesus Cristo ensina que a salvação “só vem por um único meio: comer o Seu Corpo e beber o Seu sangue” — quer dizer, participar da Eucaristia nos termos do entendimento católico romano —, mas Lutero, Calvino [e o protestantismo em geral] instituíram “o biblismo, o culto do texto bíblico, fazendo deste, em vez da Eucaristia, o centro da revelação cristã, reduzindo portanto o cristianismo a uma ‘religião do livro’ (ahl-al-kitab) tal como a entendem os muçulmanos”. Ele conclui afirmando que “é meu direito e meu dever considerar isso uma heresia, um escárnio e um escândalo, temendo pelo destino eterno de todos os que se deixaram enganar por tão grosseira patifaria”.

A postagem foi comentada e todos os que opinaram contrariamente a Carvalho foram devidamente enxovalhados pelos “olavistas” de plantão.

Como cristão conservador eu me identifico com Carvalho em alguns pontos, mas, quanto ao post em questão, a coisa em que ele mais acertou foi ao declarar “não sou autoridade nenhuma em matéria de Teologia”. Não é mesmo. E ele vai longe demais ao rotular Lutero, Calvino e os evangélicos de hereges, escarnecedores e patifes, pelas seguintes razões:

Primeiro Olavo de Carvalho informa que, mesmo não sendo teólogo, é capaz de ler adequadamente: “mas uma coisa que sei fazer é ler. Ler e compreender”. E ele diz fazer isso “não só em português e em outras línguas modernas, mas em algumas antigas”. Daí, afirma ler razoavelmente o texto grego do Novo Testamento e propõe que “em parte nenhuma do Evangelho Nosso Senhor diz que ler a Bíblia ou mesmo acreditar nela vai nos salvar. Não há ali sequer uma frase, um trechinho, uma palavra, em que Ele nos recomende a leitura do grande livro”.

Qualquer leitor perceberá o raciocínio circular: Carvalho diz que protestantes erram por instituir o biblismo, mas, no cerne, seu argumento é o seguinte: “Eu proponho uma interpretação correta da Bíblia; eis o ensino correto da Bíblia sobre Eucaristia; percebam que não consta na Bíblia qualquer dito de Jesus recomendando a leitura das Escrituras”. Em suma, ele usa a Bíblia para dizer que a própria Bíblia não é recomendada por Jesus; ele usa a Bíblia para sugerir que o entendimento protestante dos Sacramentos é herético. Ele não difere dos protestantes neste ponto: Busca extrair a base para suas crenças e práticas dos Evangelhos, ou seja, argumenta como “evangélico” contra os Evangélicos. Mais biblista do que isso, impossível.

É plausível questionar a própria “boa leitura” dos Evangelhos, por parte de Carvalho. Repetindo, ele assevera que “em parte nenhuma do Evangelho Nosso Senhor diz que ler a Bíblia ou mesmo acreditar nela vai nos salvar. Não há ali sequer uma frase, um trechinho, uma palavra, em que Ele nos recomende a leitura do grande livro”. Será que isso corresponde ao que, de fato, consta no texto do Novo Testamento? Eis o que eu encontro — e aqui cito a tradução do Novo Testamento de Frederico Lourenço, que pode ser considerada “neutra” (nem “católica”, nem “evangélica”).

  1. Em Mateus 22.29, Jesus repreendeu aqueles que não conheciam as Escrituras: “Jesus, respondendo, disse-lhes: Equivocai-vos por não conhecerdes as Escrituras nem o poder de Deus”. Ora, repreender quem não conhece a Bíblia equivale a recomendar que a Bíblia seja lida e conhecida.
  2. Em João 5.39-40, Jesus afirma que a Bíblia dá testemunho sobre ele: “Investigai as Escrituras, visto que julgais ter nelas a vida eterna: também elas testemunham sobre mim. E vós não quereis vir a mim, para terdes a vida”. Nosso Senhor diz ainda que a “vida” (salvação) é desfrutada quando cremos no testemunho da Bíblia e nos dirigimos até ele (até o próprio Jesus). Um bom leitor enxergará, neste texto, uma recomendação de Jesus para que encontremos o testemunho dele na Escritura.
  3. De fato, para Jesus, se alguém quer encontrá-lo, deve fazê-lo nas Escrituras. Isso quer dizer que recorrer à Bíblia para aprender sobre Jesus não corresponde a “culto do texto bíblico”, como apregoa Carvalho, e sim, a obedecer ao próprio Redentor.
    1. Jesus ensinou que os parentes do homem “rico” — na parábola de Lucas 16 — encontrariam salvação lendo e ouvindo “Moisés e os profetas” (Lucas 16.29). Esta designação — Moisés e os Profetas” — constitui o modo judaico de apontar para o Antigo Testamento. Dito de outro modo, para Jesus, a salvação exige que se dê ouvidos ao que está revelado na Bíblia. Isso não seria uma recomendação do próprio Jesus, para que leiamos e conheçamos as Escrituras?
    2. Jesus usou a Bíblia para provar que ele é o Messias prometido pelos profetas:
      1. Em Mateus 21.42, ao ser rejeitado pelos judeus, ele citou Salmos 118 (117): “Jesus disse-lhes: Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram transformou-se em pedra angular; isso é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?”. Em suma, os adversários de Jesus deviam ler e compreender corretamente os  Salmos.
      2. Em Lucas 24.26-27, Jesus explicou seu próprio ministério de salvação expondo o ensino do Antigo Testamento: “Não tinha o Cristo de sofrer essas coisas para entrar na sua glória? E, começando desde Moisés e de todos os profetas, interpretou-lhes, em todas as Escrituras, as coisas que lhe diziam respeito”. Trocando em miúdos, para Jesus, um bom método de evangelização é consultar na Bíblia onde constam ensinos sobre sua vida e ministério. Apesar de não haver aqui nenhuma ordem para ler a Bíblia, não é a consulta à Escritura implicitamente recomendada?
  4. Em João 5.24, Jesus relaciona a salvação não à Eucaristia e sim à fé em sua Palavra e em Deus Pai: “Amém amém vos digo que quem ouve a minha palavra e crê n’Aquele que me enviou tem a vida eterna e não vai a julgamento, mas passou da morte para a vida”.
  5. Ao ensinar que, para Jesus, “o ingresso na vida eterna, só vem por um único meio: comer o Seu Corpo e beber o Seu sangue”, Carvalho relaciona as palavras de instituição da Eucaristia, em Lucas 22.19 e 1Coríntios 11.24-26, com João 6.54-56.
    1. De fato, em João 6.54-56 Jesus afirma que a salvação exige que comamos e bebamos dele: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu ressuscita-lo-ei no dia derradeiro. Pois a minha carne é o alimento verdadeiro e o meu sangue é a bebida verdadeira. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”.
    2. O ponto de debate entre os intérpretes é se João 6 pode ser equiparado aos textos de instituição da Eucaristia dos Evangelhos Sinóticos ou de 1Coríntios. Eu entendo que não. Em minha exposição do Evangelho de João, defendi que a doutrina central do cap. 6 é “Deus nos dá pão” e “pão” deve ser entendido de três modos:
      1. Primeiro, Deus nos dá o sustento material. Jesus demonstra isso em João 6.1-15, multiplicando pães e peixes para milhares de pessoas.
      2. Segundo, Deus nos sustenta em nossa peregrinação. Jesus é superior a Moisés. Se durante o Êxodo Deus sustentou cotidianamente os crentes com o “maná”, que era o “pão do céu” dado durante o ministério de Moisés, agora Deus sustenta os que creem por meio de Jesus, verdadeiro “Pão da Vida” (Jo 6.30-35).
      3. Terceiro, Deus nos salva e sustenta pela Palavra de Jesus, uma vez que Jesus é tanto “Pão da Vida” quanto “Verbo de Deus” que concede vida (Jo 1.1-5; 6.41-65). Se isso é assim — e creio que uma boa leitura do texto permite tal conclusão — “comer” e “beber” de Jesus, em João 6, equivale a crer nele, acolhendo sua Palavra. Saber que é unicamente nele que devemos depositar nossa confiança. Não há base em João 6 para qualquer sacramentalismo e sim, para a fé em Jesus, em cuja Palavra encontramos a segurança da salvação.
  6. De fato, para os cristãos protestantes e evangélicos (especialmente os de linha reformada calvinista), o desfrute da salvação exige duas coisas: que a igreja pregue e ensine o evangelho; e que este seja acolhido no coração por obra do Espírito Santo. É por isso que a igreja se empenha em fazer discípulos de Jesus batizando e ensinando, como lemos em Mateus 28.18-20: “E Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: “Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Indo, pois, tornai discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a cumprir todas as coisas que vos mandei [e estas coisas estão registradas na Bíblia]. E eis que estou convosco, todos os dias, até a completude do tempo”.
  7. Por fim, o argumento de Carvalho sobre a expressão grega τοῦτο ποιεῖτε, “fazei isto”, em Lucas e 1Coríntios, coloca peso em apenas parte da sentença, desconsiderando o importante complemento εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν; “em memória de mim”. Ao dizer no início de seu post que é bom leitor do idioma grego e ponderar como se o sentido destas palavras fosse cristalino, Carvalho engana o leitor, pois neste ponto ele não fornece sua interpretação informada do texto grego, apenas replica a leitura majoritária da Igreja Católica Apostólica Romana. Ao mesmo tempo ele desinforma ao dar a entender que Lutero, Calvino e demais protestantes pensavam a mesma coisa sobre a Eucaristia. De fato, Carvalho deixa de mencionar (a meu ver, intencionalmente) todo o intenso e profundo estudo e debate sobre o assunto (que ele provavelmente conhece muito bem). Ele não explica porque Lutero afirmou que, à luz das Escrituras, a Eucaristia nos termos da Missa Católica é blasfema. Nem os embates entre Lutero e Zuínglio sobre transubstanciação e consubstanciação. Nem a posição conciliadora de Calvino sobre a questão. E ele dá a entender que os evangélicos não consideram a Eucaristia como Sacramento e Meio de Graça (o que os reformados calvinistas consideram). Em suma, ele, pensador profundo em outras ocasiões, produz um texto raso sobre algo que exige mais cuidado e acuidade teológica.

No frigir dos ovos, a impressão que fica é que, em Por Que Eu Não Sou “Evangélico”, Olavo de Carvalho explica que ele não é evangélico simplesmente porque já é católico romano. Seu entendimento da religião e hermenêutica das Escrituras se dão com os óculos do romanismo. Ele decide considerar correta a interpretação romanista de João 6 e dos textos que falam sobre a Eucaristia. E escolhe definir como herética a interpretação protestante e evangélica dessas passagens. Rotula os evangélicos de biblistas, ao mesmo tempo em que tenta provar seu ponto argumentando a partir da Bíblia (ou seja, fazendo uso de uma metodologia biblista).

Seu post não retira dele nenhum mérito, mas confesso que achei decepcionante. Continuo respeitando-o como pensador com quem me identifico em alguns pontos. E certamente continuarei comprando e divulgando seus bons livros. Para ser sincero, louvo a Deus pelo texto de Carvalho, no sentido de que Deus nos ajuda a não acolher nenhum ídolo. Ao tratar tão rasteiramente com as sublimes verdades do evangelho, o respeitável autor de O Jardim das Aflições revela que todos nós, seres humanos que vivemos sobre esta terra, não passamos de pecadores que precisam ser salvos pela graça.