A importância e o arranjo pactual da adoração

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Adoração é a atividade baseada nas excelências inexauríveis do Deus eterno, e às necessidades infindáveis da humanidade mortal. É o relacionamento entre Deus e os homens, uma contínua relação de autorrevelação e reação correspondente. É a atividade normal – o relacionamento normal – da vida cristã e é expressa em conversa com Deus, a doação completa do ser a Deus e a transformação do adorador à semelhança de Deus, em toda a sua pessoa: corpo, mente, emoções e vontade. Donald Hustad.[1]

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Este post tem por objetivo responder a duas perguntas:

  1. Qual é o lugar da adoração na vida cristã?
  2. De que maneira a adoração se encaixa nos pactos da criação e da redenção?

Respostas adequadas a tais questões enriquecem nossa compreensão da adoração bíblica.

A importância da adoração

A adoração é a essência ou centro da vida cristã. Mais do que um evento isolado, abarca tudo o que somos, possuímos e fazemos. É a finalidade ou propósito principal de nossa existência. Fomos criados para cultuar ao Deus vivo, e isso de tal forma que, desviados deste objetivo, definhamos. Como orou Agostinho:

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“Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e a tua sabedoria não tem limite”. E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado e com o testemunho de que resiste aos soberbos; e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti.[2]

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O Breve Catecismo ensina a mesma verdade utilizando outros termos:

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Qual é o fim principal do homem? O fim principal do homem é glorificar a Deus e alegrar-se nele para sempre (Rm 11.36; 1Co 10.31; Is 43.7; Ef 1.5-6; Sl 73.24-26; Rm 14.7,8; Is 61.3).[3]

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Porque a adoração é central, dedicamos tempo para compreendê-la. Queremos cultuar de modo agradável a Deus. Cultuar porque o conhecemos e conhecê-lo enquanto o cultuamos.

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Quero te ver como tu és, não como imagino, mas como tu és
Quero ouvir tua palavra, não como imagino, mas o que ela diz
Meu amor, meu amor![4]

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A seguir aprenderemos sobre a estrutura geral da adoração, conforme apresentada pela Bíblia.

O arranjo pactual da adoração

A adoração é melhor compreendida no contexto dos pactos da criação e redenção. Os termos ברית, berîth (hebraico – AT) e διαθήκη, diathēkē (grego – NT) transmitem os sentidos de pacto, aliança ou testamento.[5] Na Escritura Sagrada, toda relação de amor é explicada em termos de aliança.[6] Alguém ama e é correspondido; a resposta do amor é sua declaração em palavras e atos (Sl 18.1; 26.8; 116.1; cf. Sl 91.14).

Quais são os atos do amor? Autodoação e cultivo cuidadoso da relação – o que chamamos de devoção. Sob este prisma, não é sem razão que o vínculo do casamento é usado como analogia para a comunhão entre o Senhor e a igreja (Is 54.5; Jr 3.1, 20; Os 2.16-23; Ef 5.31-32).

A Bíblia revela sete momentos da adoração, da criação até a consumação, todos eles desenrolando-se no contexto dos pactos da criação e redenção (figura 01).

Sete momentos da adoração bíblica

Figura 01. As sete etapas da adoração

O universo foi criado por Deus para sua glória (Rm 11.36; Hb 11.3; Ap 4.11). Ele firmou um pacto com sua criação: todo o cosmos será revestido com o esplendor de sua bondade e beleza (o vocábulo hebraico טוב, ṭôbh, traduzido como “boa” ou “bom”, em Gênesis 1.4, 10, 12, 18, 21, 25, 31, tem o sentido de bom e, ao mesmo tempo, belo). Na consumação, Deus será “tudo em todos” (1Co 15.28).

Na criação recebemos mandatos ligados ao culto. Naquela conjuntura, cultuar correspondia a cumpri-los. Por causa da queda, Deus constituiu o pacto da redenção (Gn 3.15). O dever de cumprir os mandatos permanece, só que agora, lidamos externamente com as oposições do mundo e do diabo (há uma “inimizade” entre duas linhagens, como veremos na aula 4). Ademais, lutamos contra nossa própria depravação. Isso significa que para cultuar a Deus necessitamos de mediação – da obra do Redentor anunciada em Gênesis 3.15. Dito de outro modo, a história que conhecemos é marcada por sinais da queda, e, ao mesmo tempo, pelo desfrute inicial da redenção. Enquanto caminhamos com o Senhor cultuamos, aguardando a consumação da redenção.

Entre os dois polos – criação e consumação – há sete momentos de adoração: o culto antes da queda; o culto de Caim e Abel até os patriarcas; o culto no tabernáculo (a partir de Moisés); o culto no templo de Jerusalém (a partir de Davi e Salomão); o culto na sinagoga (a partir do período da dispersão judaica); o culto cristão (a partir do Senhor Jesus e da igreja primitiva) e, por fim, o culto da nova criação glorificada.

O modo como a humanidade em geral responde a Deus em adoração é demarcado pelas duas linhagens, de falsos e verdadeiros adoradores. O oferecimento do culto autêntico tem ligação com a revelação divina. Nos primórdios desta revelação, o homem adorou no Éden e especialmente com oferendas em altares, até o tempo dos patriarcas. Com a revelação dada por meio de Moisés e Davi, desenvolveu-se o culto no tabernáculo, no templo e nas sinagogas. A culminação da revelação canônica que chegou por meio de Cristo e os apóstolos permitiu a prática do culto sem a roupagem dos tipos e sombras do AT. No reino consumado receberemos a derradeira revelação, conheceremos como somos conhecidos, seremos semelhantes ao Senhor e adoraremos cheios de júbilo, nas “bodas do Cordeiro” (1Co 2.9; 13.12; 1Jo 3.2; Ap 19.6-8).

Por fim, a obediência imperfeita dará lugar à obediência completa – o culto aperfeiçoado. Experimentaremos a plenitude dos pactos da criação e redenção. Comungaremos com Deus como vice-gerentes redimidos (Dn 7.9; Mt 19.27-30; 1Co 6.2-3; Ap 20.4).

Conclusão

A adoração é central; ordinariamente, a falha no culto prenuncia um distanciamento de Deus. Somos convocados pela Escritura a adorar ao Senhor, como resposta aos pactos da criação e redenção.

[notice]Este conteúdo é o primeiro capítulo do livro Adoração Bíblica e é ministrado na disciplina de mesmo nome, do Curso Teológico Presbiteriano (CTP).[/notice] [clear]


Notas

[1] HUSTAD, Donald. Jubilate! A Música na Igreja. São Paulo: Vida Nova, 1986, p. 84.

[2] AGOSTINHO. Confissões. 20. ed. Reimp. 2008. São Paulo: Paulus, 1984, I.I, p. 15.

[3] ASSEMBLEIA DE WESTMINSTER. O Breve Catecismo de Westminster, doravante denominado BCW, pergunta 1. In: BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 2. ed. revisada e ampliada. Barueri; São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil e Cultura Cristã, 2009, p. 1828.

[4] ALMEIDA, Marcos. Imagino. In: PALAVRANTIGA. Esperar é Caminhar. Produção independente, 2010. 1 CD.

[5] VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 38-42.

[6] O pacto pode ser entendido como o “vínculo de vida e amor que Deus estabeleceu entre si mesmo e Adão e Eva” (VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e Consumação. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 90. v. 1 – grifo nosso).

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  Ver também

Comentários

  1. Thiago Almeida  novembro 14, 2012

    Olá Pr. Misael! Tudo bem?

    Há previsão para lançamento do livro “Adoração Bíblica”?

    O senhor tem sugestão de algum livro que trate da adoração conforme a Teologia do Pacto?

    Fique na Paz!

    responder
    • Misael  novembro 17, 2012

      Oi Thiago;
      Espero em Deus que ele esteja disponível em julho de 2013.
      Grande abraço.

      responder

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