A subestimação e a superestimação do pastor

Escrevi isso na manhã do dia 10/11. Parece útil para o momento. Há dois erros comuns em nosso modo de enxergar o trabalho de um pastor efetivo ou titular (que os norte-americanos intitulam senior pastor), mas o que direi se aplica também, guardadas as devidas proporções, aos pastores auxiliares. O primeiro erro é subestimar o ministério; o segundo é superestimá-lo.

Pensemos na subestimação.

Deus mesmo estabelece o ministério para honra dele e para encaminhamento de seu decreto providencial. Deus tem coisas planejadas a serem realizadas na e pela igreja — e ele as fará usando seus pastores (Jr 3.15; Zc 11.4-17). Nesses termos, o leme da igreja é o Conselho ou núcleo de oficiais executivos, dependendo da denominação (At 14.23; 15.6; 20.17,28-32). Mas o pastor titular ou efetivo é quem move o leme, sob o comando de Cristo e na dependência do Espírito Santo.

O pastor titular ou efetivo é o agente do Espírito Santo para conduzir pessoas, processos e operações. Aqui aplica-se Hebreus 13.17. Os “guias” devem ser obedecidos porque sobre eles repousa o múnus do cuidado das almas; eles prestarão contas a Deus pelas almas. Creio que quem prestará contas — quem responderá pela igreja como um todo — são estes “guias” e, entendo eu, isso não se aplica, pensando no sistema presbiteriano, aos presbíteros regentes de modo geral, mas unicamente aos docentes, responsabilizados de maneira diferenciada em função de sua posição como “pastores-mestres” (Ef 4.11). De acordo com o Estatuto da Igreja Local da Igreja Presbiteriana do Brasil (art. 3, § único), presbíteros regentes possuem autoridade para conduzir os negócios da igreja juntamente com o presbítero docente. Quando surge um problema judicial, porém, o docente é o responsável.

Eu discordo parcialmente da interpretação de Hebreus 13.17 de João Calvino, que entende que os “guias” citados em Hebreus 13.17 são não apenas os pastores, mas também os “outros líderes da igreja”.[1] Eu discordo parcialmente também de Kistemaker: “O escritor não está interessado na posição desses líderes — ele não dá qualquer ideia se eram presbíteros, bispos, pregadores ou professores. Antes, ele pede ao leitor que obedeça a eles”.[2]

A discordância é parcial porque eu creio que, ainda que a passagem possa ser aplicada a todos os líderes da igreja, em uma igreja saudável, todos os líderes devem reportar-se ao guia principal, Cristo, que governa pela Palavra usando o pastor efetivo ou titular. Há situações em que os líderes da igreja precisam ser, eles mesmos, conduzidos. Na caminhada histórica de uma igreja local, há circunstâncias que exigem que o pastor titular ou efetivo dê a palavra de comando e corrija as imaturidades ou discernimentos obtusos dos pastores auxiliares e presbíteros regentes. É claro que ele também deve ser pastoreado (e até mesmo corrigido) pelos auxiliares e regentes. No entanto, na dinâmica destas interações, nunca deve ser esquecido que só há “um cajado”, o de Cristo, e que seu agente histórico é o pastor titular. Se o próprio pastor titular ou efetivo é imaturo ou obtuso, ou se não é digno de confiança como líder “efetivo” da uma equipe ministerial e do Conselho, ele deve ser imediatamente substituído, sob pena da igreja ter de girar em círculos por anos, sem uma condução bíblica e clara de ministério.

O pastor titular ou efetivo é o discipulador dos pastores auxiliares e dos presbíteros regentes. Ele não é um “empregado” do Conselho, mas seu condutor sob a Palavra de Deus (cf. At 20.24-27,31; 2Tm 2.1-2). Quanto a isto, Calvino escreveu acertadamente:

Eis aí o poder eclesiástico claramente exposto, poder outorgado aos pastores da igreja, qualquer que seja o nome pelo qual são chamados. O que se requer deles é que, pela Palavra de Deus, pela qual são constituídos administradores, corajosamente ousem enfrentar todas as coisas e constranjam toda glória, altivez e poder deste mundo a obedecer e a sucumbir à majestade divina; que pela mesma Palavra eles tenham o comando sobre todo o mundo, edifiquem a casa de Cristo e destruam o reino de Satanás; que apascentem as ovelhas e matem os lobos; que conduzam os dóceis mediante ensinamentos e exortações; que se imponham aos rebeldes e obstinados e os corrijam; que liguem e desliguem, tosquiem e fulminem; mas tudo baseados na Palavra de Deus.[3]

Em suma, pastores titulares e efetivos — e o ministério pastoral de modo geral — não podem ser subestimados. Acertadamente, a Constituição Interna da Igreja Presbiteriana do Brasil (cap. IV, art. 32) afirma que “o cargo e exercício do ministro são os primeiros na igreja”.

Isso deve estar consolidado tanto no coração do pastor, quanto nos dos demais oficiais e líderes. O pastor é importante. Ele é “dado” por Deus para que a igreja seja capacitada para o serviço firmado na doutrina sadia (Ef 4.7-16). O apóstolo Paulo foi instrumento de Deus para, sentido “dores de parto”, tornar os crentes inteiros (“aperfeiçoados”) em Cristo (Gl. 4.19; Cl 1.28-29). O ministério não pode ser subestimado porque o pastor tem lugar destacado nesse processo.

Dito de outro modo, se você, pastor, se sente diminuído ou sem valor, você está subestimando seu papel e lugar. A igreja está sob sua autoridade e comando. Você detém o “cajado” ministerial. Você é o agente de Deus para fazer diferença na vida desta igreja, neste momento. Nós não podemos cometer o pecado de subestimar o ministério.

Agora pensemos na superestimação.

Trata-se do oposto. Ocorre quando o pastor entende que ele é mais do que, de fato, ele é (Rm 12.3). Uma faceta desta falha aparece quando o pastor começa a pensar que as “coisas boas” na vida da igreja só acontecem quando ele está presente, ou se ele tiver pleno conhecimento delas, ou pleno controle sobre elas. “Se eu, pastor, não estiver envolvido neste processo, não haverá bom resultado”.

Há algo interessante (quem sabe, bom) aqui: Uma noção de responsabilidade; um reflexo do dito popular: “O olho do dono é que engorda o gado”. E confesso que me parece melhor um pastor interessado em estar presente e atuante na vida da igreja, do que um pastor distante e irresponsável. No entanto, se o pastor começa a entender que ele não pode sequer fazer uma viagem, ou cuidar da saúde (por outro ângulo, ele acha que não pode adoecer), ou desfrutar de um passatempo ou lazer, ou dar mais tempo à família… Se o pastor acha que precisa estar o tempo todo acompanhando tudo da igreja, especialmente quando seu senso de valor e autoimagem se tornam cada vez mais dependentes disso… Se o pastor se remói por dentro quando alguém o critica por não estar presente “naquela reunião” ou “atividade”… Quando o pastor começa a achar que tudo depende dele, ele peca por se colocar no lugar de Deus. Superestimação do ministério.

Prezado pastor, você não é Deus. Você é somente um homem. A igreja pode proceder como os moradores de Listra, que disseram acerca de Paulo e Barnabé: “Os deuses, em forma de homens, baixaram até nós” (At 14.11). Ele disseram que Barnabé era Júpiter, e Paulo, Mercúrio (At 14.12-13). Paulo e Barnabé se esforçaram para demonstrar a eles a verdade óbvia: “Senhores, por que fazeis isto? Nós também somos homens como vós, sujeitos aos mesmos sentimentos, e vos anunciamos o evangelho […]” (At 14.15). Pastores são servos de Deus, trabalhando entre outros servos de Deus. E assim como nenhum servo de Deus consegue fazer parte de tudo, saber de tudo e controlar tudo, os pastores também não. Pastores não são onipresentes nem onipotentes. Tampouco são incansáveis (Sl 121.3-4; Is 40.28).

Prezado pastor, você é ministro de Jesus, mas você não é Jesus. Alguns pastores parecem crer que somente a “presença” deles em um lugar santifica tudo, e que, se uma pessoa “tocar na orla de seu manto”, dele sairá poder. Há pastores que se consideram o “suprassumo da unção”. Esse não é o modelo bíblico de pastorado. Ao se considerar o motor, o poder movente da igreja, o pastor se coloca no lugar do Espírito Santo. Superestimação.

Isso se manifesta também de modo bastante inverso, quando tanto pastores quanto os crentes em geral, acham que os erros de um pastor marcam uma igreja “para sempre”. O pastor cogita “eu sou tão importante, que o meu pecado vai marcar a igreja para sempre; essa igreja será devastada se eu errar”. Graças a Deus não é assim. Eu tenho visto situações em que um pastor peca e às vezes até escandaliza ou gera grande comoção na igreja. Ele é substituído por outro e, pouco depois, a igreja está bem novamente. O registro anterior fica, mas não como ferida incurável. Passado determinado tempo, o nome de um pastor será apenas um entre outros, na lista dos pastores, ou, dependendo da igreja, sua foto será uma entre as de outros pastores, em uma galeria de imagens. Com raras exceções. Nada mais do que isso.

Pastores, nós passamos. E passamos como um risquinho na história. O importante é o registro de nossa história perante Deus.

Às vezes, pastores fazem trabalhos muito bons, implementam processos úteis e mudam para melhor o perfil ou configuração de uma igreja. Dois ou três anos depois de eles saírem, tudo o que construíram é pulverizado. Estruturas, encaminhamentos, visões de ministério… Outro pastor vem e muda tudo. Sendo assim pastores, temos de compreender que nós estamos aqui para sermos úteis hoje.

Que legado deixaremos? Esta pergunta parece espiritual, mas pode conter perigo e pecado, porque é como se nós quiséssemos deixar algo nosso. Se quisermos deixar ao povo de Deus algo que provém de nós mesmos nós pecamos, porque o grande objetivo do ministério é deixar algo de Cristo. O que deixamos de Cristo, isso sim, permanece no coração das ovelhas. Os crentes se lembram daquela intervenção, oração ou palavra que tocou seus corações. Somente isso — e graças a Deus se isso acontecer!

Concluindo, há necessidade de sermos guardados da baixa imagem do ministério, e também da imagem do ministério irreal, alta demais. Subestimação e superestimação não correspondem ao padrão equilibrado das Escrituras.

Notas

[1] CALVINO, João. Hebreus. São Paulo: Paracletos, 1997, p. 395. (Comentário à Sagrada Escritura).

[2] KISTEMAKER, Simon. Hebreus. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 596. (Comentário do Novo Testamento).

[3] CALVINO, João. As Institutas: Edição Especial Com Notas Para Estudo e Pesquisa [Tradução da Edição Francesa]. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, IV.XV.14.

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