Calvinistas_Pontuais

Calvinistas pontuais ou consistentes

O leitor Ronaldo Guedes publicou um comentário ao texto Porque Sou Cessacionista. Aproveito para agradecer a todos os que contribuíram com ótimos comentários (infelizmente deletados na atualização deste site). As questões levantadas por Guedes requerem uma resposta mais elaborada; daí eu escrever este novo post.

I Duas questões dignas de atenção

Inicio citando algumas palavras de Guedes:

O que o senhor pensa sobre teólogos reformados e continuacionistas como Wayne Grudem, que ao ser questionado sobre a relação entre teologia reformada e cessacionismo diz o seguinte:
“Eu acho que é uma espécie de aberração histórica dizer que os líderes do movimento da Reforma foram cessacionistas. Isto certamente não era verdade no século 17 entre os puritanos na Inglaterra, por exemplo, com Richard Baxter […]”.
[…]
Acabei de ler também a exposição de John Piper sobre 1Coríntios 12.1-11, uma pregação intitulada Gifts of Healings and Working of Miracles em que, pelo que pude entender, ele se posiciona claramente como um continuacionista, inclusive li que ele é considerado amplamente dessa forma nos Estados Unidos.

[…]
Esses dois teólogos são também notadamente considerados teólogos reformados, seria correto dizer que eles são reformados?

Minha posição é a mesma de Wayne Grudem, talvez tirando a questão do batismo, em que me coloco na posição do Berkhof. Neste caso, segundo Grudem, eu posso me considerar um reformado como ele?

O comentário acima permite que formulemos duas perguntas:

  1. Grudem, Baxter, os Puritanos e Piper são reformados?
  2. Alguém que crê como Grudem pode ser considerado reformado?

A resposta a estas perguntas é importante, primeiramente, pelas nuances diversificadas do termo “reformado”.

2 O significado de “reformado”

Esbarramos na dificuldade primordial; conceituar “reformado”. O que significa este vocábulo? Pergunte isso a um grupo de pastores ou líderes, e prepare-se para ouvir respostas diferentes. Reformado é todo cristão que abraça os postulados da Reforma do 16º século? Todo calvinista é reformado? Reformado é alguém com convicções e práticas puritanas? É possível ser reformado e crer em um dom contemporâneo de profecias revelatórias? Parece que não há qualquer consenso.

Diante da aparente confusão, somos quase que forçados a desistir da tarefa de conceituar. Aliás, investir tempo ruminando conceitos é tolice, pensam alguns; o importante é sermos “relevantes” dizem, como se relevância fosse possível sem substância.

Isso que chamamos de fé reformada certamente tem sua origem na Reforma Protestante do 16º século, mas não podemos afirmar que Martinho Lutero fosse um “reformado”. Com relação a este assunto, é salutar a leitura dos artigos do Rev. Dr. Alderi Souza de Matos disponíveis no web site da Universidade Mackenzie, em http://www.mackenzie.br/6925.html. O vocábulo “reformado” tem ligação com a articulação doutrinária e ministerial proveniente de Ulrico Zuínglio e João Calvino (Suíça) e John Knox (Escócia).

Esta ligação com Zuínglio, Calvino e Knox nos ajuda um pouco; no entanto, permanece uma dificuldade. Zuínglio tinha um entendimento diferente de Calvino com relação à Santa Ceia e aos elementos do culto. Calvino e Knox assumiam posições diferentes com relação às novas revelações (eu não encontrei nenhum escrito do próprio Knox sobre isso, mas li alguns textos, em livros de Grudem e Jack Deere, que sugerem que Knox era enunciava profecias preditivas). Resumindo a questão, parece que alguns puritanos se aproximaram de Zuínglio em questões litúrgicas e de Knox no que diz respeito às novas revelações. Olhando por este ângulo, eu não me admiro quando leio (em um texto escrito por Grudem) que Samuel Rutherford, George Gillespie e William Bridge, representantes da Assembleia de Westminster, bem como Richard Baxter, criam em novas revelações, mesmo sendo alinhados à chamada “fé reformada”.

Chegamos ao ponto. É possível alguém afirmar que é “reformado” postulando crenças que não são, necessariamente, consistentes com Calvino. Alguém que se diz “reformado” pode assumir uma prática litúrgica ou crença acerca de novas revelações absolutamente contrárias ao que João Calvino ensinou ou praticou. Não basta uma referência à fé reformada em um sentido geral, mas à fé reformada calvinista. É por isso que terminei o post Porque Sou Cessacionista com estas palavras: “Sendo assim, sou reformado, sou presbiteriano, sou cessacionista”. Minha tese fundamental é que a Igreja Presbiteriana do Brasil, pelo menos oficialmente (em seus padrões litúrgico-teológicos e decisões conciliares) é reformada de um modo muito particular: Ela se alinha ao ensino de João Calvino, que, por sua vez, é cessacionista (não acredita na continuidade de profecias revelatórias).

3 Calvinismo consistente ou calvinismo pontual

O termo “calvinismo” exige definição. Citando Kuyper (Calvinismo, p. 22):

Historicamente, o nome Calvinismo indica o canal pelo qual a Reforma se moveu, até onde ela não foi nem luterana, nem anabatista, nem sociniana. No sentido filosófico, entendemos por Calvinismo aquele sistema de concepções que, sob a influência da mente mestre de Calvino, levantou-se para dominar nas diversas esferas da vida. E como um nome político o Calvinismo indica aquele movimento político que tem garantido a liberdade das nações em governo constitucional; primeiro na Holanda, então na Inglaterra, e desde o final do século 18, nos Estados Unidos. No sentido científico, o nome Calvinismo é atualmente usado entre os eruditos alemães.

Neste post eu uso “calvinismo” significando simplesmente a soma dos ensinos de João Calvino. Afirmo então que o calvinismo pode ser consistente ou pontual (figura 01). No calvinismo consistente aceita-se o conjunto da formulação teológica de Calvino. No pontual a pessoa interage com tais formulações como o cliente de um bufê, servindo-se do que lhe agrada e descartando o que não lhe apetece. Nesses termos, Grudem e Piper são reformados calvinistas pontuais (ou calvinistas dos cinco pontos, referindo à TULIP). Ambos se alinham a Calvino no que diz respeito à soteriologia; no entanto, divergem dele quanto à cristologia e pneumatologia (é isso mesmo, para Calvino, o fim das novas revelações tem relação o fato de Jesus ser o Verbo e ponto alto da revelação divina).

Calvinistas consistentes

Figura 01: Calvinismo pontual ou consistente

4 O cessacionismo de João Calvino

João Calvino ensinou que as revelações cessaram após o estabelecimento da igreja. Para ele a única profecia vigente na igreja atual é o ensino e a pregação. Gostemos ou não, João Calvino era cessacionista. Destarte, qualquer pessoa que queira juntar calvinismo com a crença na continuidade de profecias revelatórias precisa admitir que está recortando e colando pedaços de teologias diferentes. E por mais que o resultado disso seja algo vivo, não passa de um “Frankenstein” doutrinário.

A convicção cessacionista de Calvino é constatada nas Institutas:

Mas, de fato, quando Cristo já não estava longe, foi apontado a Daniel o tempo “para selar a visão e a profecia” [Dn 9.24), não somente para que a autoridade do vaticínio se evidenciasse segura do que ali se trata, mas também para que os fiéis ficassem de ânimo tranquilo, sem profetas por um tempo, uma vez que estaria iminente a plenitude e conclusão de todas as revelações. Institutas, II.XV.1.

Entretanto, isto permanece estabelecido: com esta perfeição da doutrina, que Cristo trouxe, pôs-se um fim a todas as profecias, de tal sorte que violam sua autoridade quantos, não contentes com o evangelho, o remendam de algo estranho. Institutas, II.XV.2.

Por isso agora, desde que Cristo, o Sol da Justiça, brilhou, temos o perfeito fulgor da verdade divina, como costuma ser a claridade ao meio-dia, quando antes a luz era fosca. Ora, de fato, o Apóstolo não quis proclamar algo vulgar quando escreveu “haver Deus outrora falado aos pais, em muitas ocasiões e de muitos modos, pelos profetas; mas que nestes últimos dias começou a falar-nos pelo Filho dileto” [Hb 1.1, 2]; pois ele quer dizer, mais ainda, declara abertamente que doravante Deus não falará como fez até agora, intermitentemente, pelos lábios de uns e de outros, nem acrescentará profecias a profecias, ou revelações a revelações, mas que no Filho consumou de tal modo todas as partes do ensino, que este será tido como o derradeiro e eterno testemunho de sua parte. Institutas, IV.VIII.7.

Para Calvino, a capacidade de “profetizar”, sinalizada por Joel, significava nada mais do que a fé ou conhecimento salvador de Cristo; Deus iluminaria os descrentes com seu Espírito, tornando-os seus discípulos:

Notável é, acima das outras, a passagem de Joel [2.28]: “Naquele dia derramarei de meu Espírito sobre toda carne.” Pois, se bem que o Profeta parece restringir os dons do Espirito à função profética, entretanto, sob esta figura, subentende que, mercê da iluminação de seu Espírito, Deus haverá de fazer para si discípulos àqueles que foram antes carentes e destituídos da celeste doutrina. Institutas, III.I.2.

O que Deus conferiu aos Profetas antigos, exceto o poder de predizer algo porvir? Foi um presente especial e muito limitado. Tais previsões não podem ser comparadas com a sabedoria celestial dada a conhecer no evangelho. Se devidamente calculado, após a vinda de Cristo, a fé supera de longe o dom da profecia. Comentário a Joel 2.28-29.

Portanto, esta palavra “profetizarão” não significa outra coisa senão o dom raro e excelente de entendimento, como se Joel dissesse que, sob o reino de Cristo, Deus não revelará seus segredos a apenas alguns profetas, mas todos serão dotados de sabedoria espiritual […]. Como lemos em Jeremias: “Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao Senhor, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles” (Jr 31.34). Comentário a Atos 2.17, 18.

Quanto ao dom de profecia, citado na cartas aos Romanos e em 1Coríntios, para Calvino, trata-se da capacidade de compreender, expor e aplicar as Escrituras.

Portanto, na Igreja Cristã, nos tempos atuais, profecia é simplesmente o correto entendimento da Escritura e o dom particular de explicá-la, visto que todas antigas profecias e todos os oráculos divinos já foram concluídos em Cristo e seu evangelho. Comentário a Romanos 12.6.

Este versículo, pois, nos ensina que os profetas são (1) destacados intérpretes da Escritura; e (2) homens dotados com extraordinária sabedoria e aptidão para compreenderem qual é a necessidade imediata da Igreja e falarem-lhe a palavra exata de que ela carece para o seu sustento. […] Resumindo, meu ponto de vista consiste em que os profetas referidos aqui são homens habilidosos e experientes em fazer conhecida a vontade de Deus, aplicando as profecias, ameaças, promessas e todo ensino da Escritura às necessidades correntes da Igreja. Comentário a 1Coríntios 12.28.

O próprio Calvino admitiu que sua grade de interpretação cessacionista talvez não fosse aceita por seus contemporâneos.

Se porventura alguém é de outra opinião, estou disposto a reconhecer que há espaço para ela, e não provocarei qualquer disputa com ele por causa disto. Pois é difícil mudar a mente de alguém sobre os dons e os ofícios, dos quais a Igreja foi privada por muito tempo, a não ser aqueles leves traços ou sombras deles que ainda podem ser percebidos. Comentário a 1Coríntios 12.28.

Tal admissão da possibilidade de outro ponto de vista, não deve ser entendido como uma capitulação de Calvino. O mestre de Genebra tratou respeitosamente a quem pensava diferente, sem abrir mão, um milímetro sequer, de sua leitura cessacionista. Em sua carta ao Rei Francisco I, ele afirmou que a doutrina protestante (e consequentemente a igreja que a abraçava) era ridicularizada porque não era confirmada por milagres contemporâneos:

Nem ainda assim cessam de investir contra nossa doutrina e de invectivá-la e infamá-la com quantas alcunhas possam, no empenho de torná-la ou odiosa ou suspeita. Dizem ser ela doutrina nova e originada não há muito. Ridicularizam-na de ser duvidosa e incerta. Indagam de que milagres tenha sido confirmada. Carta ao Rei Francisco I, 5.

Ele respondeu dizendo que nenhum outro milagre era necessário senão os realizados por Cristo e pelos apóstolos:

Por exigirem de nós milagres, agem de má fé. Ora, não estamos a forjar algum evangelho novo; ao contrário, retemos aquele mesmo à confirmação de cuja verdade servem todos os milagres que outrora operaram assim Cristo como os apóstolos. Carta ao Rei Francisco I, 7.

E continua:

Mágicos e encantadores sempre se destacaram por seus milagres. A idolatria sempre foi nutrida por milagres de causar pasmo. Contudo, eles não legitimam nossa superstição, nem dos magos, nem dos idólatras. Ibid., loc. cit.

Calvino protestou não apenas contra o Romanismo, mas também contra os reformadores radicais — a quem ele chamava de “entusiastas” (entendemos que “entusiasmo” tem o sentido religioso de “arrebatamento espiritual”):

O que esses inflados entusiastas dirão acerca destas coisas, os quais reputam esta como sendo apenas a sublime iluminação, quando, abrindo mão despreocupadamente e dizendo adeus à divina Palavra, não menos confiantes que temerários, agarram sôfregos qualquer coisa que hajam concebido enquanto dormitam? Certamente que aos filhos de Deus lhes fica bem a sobriedade, os quais, ao mesmo tempo que, sem o Espírito de Deus, se veem privados de toda a luz da verdade, todavia não ignoram que a Palavra é o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos fiéis a iluminação de seu Espírito. Pois não conhecem outro Espírito além daquele que habitou e falou nos apóstolos, de cujos oráculos são continuamente convocados a ouvir a Palavra. Institutas, I.IX.3.

O que consta até aqui basta para demonstrar, sem sombra de dúvida, que quem afirma ser calvinista consistente não pode, ao mesmo tempo, identificar-se como um restauracionista (alguém que crê que as profecias revelatórias estão sendo restauradas hoje). Quem disser que é reformado calvinista e também crente em profecias revelatórias, deverá fazê-lo afirmando que seu calvinismo é pontual: ele aceita alguns ensinos de Calvino enquanto descarta outros.

5 A IPB é oficialmente cessacionista

Temos agora de situar a Igreja Presbiteriana do Brasil. No post Porque Sou Cessacionista eu listei quatro evidências do cessacionismo na IPB. Aqui cito e comento rapidamente as principais decisões do Supremo Concílio (SC/IPB), com a finalidade de provar que, ao longo de sua história, a IPB tem deliberado de modo consistente sobre esta matéria, sempre sustentando a posição cessacionista. Pastores que dizem que a IPB não tem pronunciamento oficial sobre o assunto faltam com a verdade, estão equivocados ou desconhecem os fatos.

Em 1978 o SC/IPB definiu “igreja pentecostal” como aquela que admite “constantes revelações contemporâneas de Deus, além daquela que nos é apresentada pelas Escrituras Sagradas” e, além disso, exige “manifestações sensíveis para que se caracterize a presença do Espírito Santo numa pessoa” (doc. SC – 1978 – DOC. XXXVI: Sínodo de São Paulo, Presbitério Belo Horizonte e Presbitério de Juquiá – consulta sobre a definição de Igreja Pentecostal e Comunidades Evangélicas).

Em 1984, a Comissão Executiva do Supremo Concílio (CE-SC) determinou que nenhum membro da IPB deveria ter vínculo com a ADHONEP – Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno, considerando a divergência entre as doutrinas abraçadas pela IPB e os “princípios doutrinários exarados nos Estatutos da ADHONEP” que, como se sabe, são consistentes com o Pentecostalismo, aberto a novas revelações (CE – 1984 – DOC. LIII: Presbitério de Goiânia – Sobre a Associação de Homens de Negócios do Evangelho Pleno).

Em 1985, na decisão mais aberta de sua história, a CE-SC estabeleceu que “é pouco prudente e muito inconveniente ordenar-se Ministro do Evangelho pessoa que anuncia ser o ‘dom de línguas’ uma experiência a que está sujeita” (CE – 1985 – DOC. XII: Presbitério de Niterói – Sobre “Dom de Línguas” – Doc. CI/IPB – Quanto ao Doc. 15 – Consulta do Presbitério de Niterói sobre a conveniência e a legitimidade de ordenar-se Pastor uma pessoa que afirma experimentar o dom de línguas).

Talvez pela falta de clareza da decisão anterior, em 1986 o SC/IPB, acertadamente, nomeou uma comissão para redigir um documento sobre a doutrina do Espírito Santo. Foi determinado ainda que os presbitérios não deveriam ordenar candidatos ao Sagrado Ministério que sustentassem: “(1) A contemporaneidade de todos os dons neotestamentários e apostólicos. (2) A experiência sobre o dom de línguas”, pelo menos “até término de trabalho da Comissão nomeada” (SC – 1986 – DOC. XLIX: Presbitério de Pernambuco e Niterói – Sobre Ordenação de Candidatos – Dom de Línguas).

Em 1990, tendo em vista que o trabalho da Comissão não estava finalizado, decidiu-se “devolver os estudos apresentados à Comissão Especial, para conclusão do assunto, determinando que sejam apresentados na próxima reunião ordinária da CE-SC/IPB” (SC – 1990 – DOC. VIII: Quanto ao Doc. 192, da Secretaria Executiva do Supremo Concílio).

Em 1991, a CE-SC encaminhou o assunto à recém-criada Junta de Educação Teológica da IPB (JET/IPB) que, com a “contribuição de especialistas que ensinam nos nossos seminários”, deveria reestudar, reelaborar e unificar os trabalhos, “procedendo as alterações que se fizerem necessárias, observando revisão linguística-filológica, com um texto orientador claro e objetivo, devendo apresentar seu relatório até a próxima reunião da CE-SC/IPB” (CE – 1991 – DOC. LXIX: Quanto ao Doc. 34, Relatório da Comissão Especial de Estudos de Doutrina do Espírito Santo e Contemporaneidade dos dons).

Em 1993 surgiu um primeiro relatório – na verdade uma lista bíblica de ações do Espírito Santo –, sem qualquer conotação continuacionista, que foi aprovado como “orientador inicial”. Nomeou-se uma Comissão Permanente para dar continuidade ao trabalho, “visto a complexidade da matéria” (CE – 1993 – DOC. LXXI: Quanto ao Doc. 137, Relatório da Junta de Educação Teológica, sobre a ‘Doutrina do Espírito Santo’).

Em 1994 o SC/IPB aprovou o documento de vinte proposições denominado “Doutrina do Espírito Santo” produzido pela Comissão integrada “pelos Irmãos: Rev. Héber Carlos de Campos, Rev. Onézio Figueiredo e Rev. Odayr Olivetti”. Decidiu-se ainda publicá-lo para divulgação junto às igrejas e seminários e “manter a mesma Comissão com os seguintes membros: Rev. Héber Carlos de Campos, Rev. Onézio Figueiredo, Rev. Odayr Olivetti, Rev. Elias Dantas Filho, Rev. Antônio Carlos Barro, Rev. Antônio José do Nascimento Filho, Rev. Augustus Nicodemus Lopes” (SC – 1994 – DOC. XXVII: Quanto ao Doc. 100 – Relatório da Comissão Permanente de Doutrina Designada pela CE-SC/IPB – 093).

Em 1998 o SC/IPB decidiu “adotar como padrão doutrinário do SC/IPB acerca da doutrina do Batismo com Espírito Santo e sua evidência a carta pastoral denominada O Espírito Santo Hoje: Dons de Línguas e Profecia. Ademais, a doutrina do batismo com o Espírito Santo evidenciado pelo dom de línguas não deveria ser ensinada em nossas igrejas (SC – 1998 – DOC. CXIX: Quanto ao Doc. N.º 175 – Proposta do Presbitério Serrano Espiritossantense referente à doutrina do Batismo com Espírito Santo e sua evidência).

Ainda em 1998, o SC/IPB determinou que “qualquer prática de profecia que não corresponda ao ensino bíblico e reformado seja banido do culto público e da vida de nossa igreja”. Estabeleceu-se, ademais, “que não seja admitido em hipótese alguma a suposta manifestação de ‘profecias’ no seu caráter revelatório” (SC – 1998 – DOC. CXXI: Quanto ao Doc. 173 – Proposta acerca do padrão doutrinário do SC-IPB referente à doutrina e Dom de Profecia).

Em 2002, deliberando sobre as “profecias contemporâneas” proferidas pelo Dr. Samuel Doctorian, o SC/IPB entendeu que a crença do Dr. Doctorian “em revelações extrabíblicas” é “de todo contrário à sã doutrina”, assemelhada “ao montanismo”, contrária “e prejudicial à suficiência das Escrituras, negando o lema da Reforma ‘Sola Scriptura’ e, portanto, herética. Por fim, os que “professarem ou divulgarem o conteúdo dos mesmos, por não estarem em conformidade com os ensinos da Sagrada Escritura, são passíveis de disciplina, a teor do disposto no Código de Disciplina, art. 4.º” (SC – 2002 – DOC. XV: Quanto aos docs. 28, da CE-SC-2002, encaminhamento do seu doc. XCIX, para pronunciamento do SC-IPB quanto aos ensinamentos e revelações do Sr. Doctorian).

Em 2003, a CE-SC, ainda tratando da questão Doctorian, determinou nova publicação da Pastoral sobre o Espírito Santo.

Em 2005, a CE-SC determinou que os ministros da IPB deveriam abandonar práticas de cura interior norteadas por premissas neopentecostais – a ideia de “opressão demoníaca” de crentes, decorrente de “ganchos” em seu passado (CE – 2005 – DOC. XX: Quanto ao Documento 78 – Consulta do Sínodo Centro América, quanto ao Movimento de “Cura Interior” – REVER – Restaurando Vidas, Equipando Restauradores).

Observe-se que, na carta pastoral denominada O Espirito Santo Hoje: Dons de Línguas e Profecia, citada nas resoluções de 1998 e 2003 a IPB assume o seguinte: (1) O dom de línguas corresponde à capacidade de falar idiomas humanos; (2) que o dom de profecia como predição “cumpriu sua finalidade através dos antigos profetas e apóstolos […]. Assim, como veículo de revelação divina, ela cessou com os apóstolos e profetas, os quais lançaram os fundamentos da Igreja de Cristo”.

Destaque-se, em todo esse apanhado que não houve sequer uma decisão do Supremo Concílio da IPB favorável ao continuacionismo, muito menos revogação da carta pastoral que é notadamente cessacionista.

Se alguém lhe disser que a IPB, por meio de seu Supremo Concílio, não tem uma posição contrária a novas revelações e contemporaneidade de todos os dons do Espírito, saiba que isso não corresponde aos fatos. A IPB é oficialmente cessacionista.

Nesse sentido, a IPB é igreja reformada consistente com o ensino de João Calvino. Esta consistência tem sido reafirmada por meio de seu sistema conciliar (figura 02). Ao longo dos anos, Deus, em sua providência, tem guiado a igreja a compreender os dons e ministérios sob uma ótica bíblica calvinista cessacionista.

Calvinistas consistentes conciliares

Calvinistas consistentes conciliares

6 Um reformado calvinista consistente conciliarista não crê em novas profecias revelatórias

Agora sim é possível responder às questões do irmão Ronaldo Guedes:

Grudem, Baxter, os Puritanos e Piper são reformados? Como eu disse acima, tanto Grudem quanto Baxter, alguns puritanos e Piper são reformados calvinistas pontuais.

Alguém que crê como Grudem pode ser considerado reformado? Sim, certamente um reformado calvinista pontual, mas não um reformado calvinista consistente.

Como cristãos reformados calvinistas consistentes, entendemos que toda verdade vem de Deus. Nesses termos, somos beneficiados pelos ensinos verdadeiramente bíblicos de John MacArthur Júnior (apesar de este assumir-se como dispensacionalista), Wayne Grudem (apesar de este crer na continuidade de profecias revelatórias), John Piper (apesar de Piper ser tanto dispensacionalista, quanto um crente na contemporaneidade de profecias revelatórias) e Mark Driscoll (apesar de Driscoll tomar decisões ministeriais baseado em “sonhos proféticos”, cf. Confissões de Um Pastor da Reformissão, p. 78 et. seq.). Todos eles são reformados e calvinistas pontuais e foram levantados por Deus para abençoar sua igreja nesta geração.

O ponto a considerar é: Como cristão presbiteriano, qual é a posição da IPB quanto ao cessacionismo? Parece-me muito mais cristão e humilde acolher a leitura das Escrituras e a sistematização doutrinária assumida pela IPB. Quem faz isso ajuda a “ajuntar”, nesta época de fortes “ventos de doutrina”.

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6 Responses to Calvinistas pontuais ou consistentes

  1. davi ferreira 10 de agosto de 2013 at 8:24 #

    Rev se nao me engano o Hernandes Dias Lopes tb nao e cessacionista ne?

    • Misael 21 de agosto de 2013 at 17:24 #

      Prezado Davi. Eu realmente não sei. Para responder-lhe com segurança eu precisaria acompanhar mais de perto o ministério do Rev. Hernandes (homem de Deus a quem eu respeito muito). Confesso que nunca li nada dele referente a este assunto.

  2. Francisco Moraes 16 de julho de 2012 at 21:20 #

    Caro colega Misael,
    respeito o post estabelecendo a diferença entre Calvinistas consistentes e pontuais,( eu me incluo entre um grande números de ministros presbiterianos que servem a IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL, COMO SENDO UM REFORMADO PONTUAL.)

    • Misael 15 de setembro de 2012 at 16:34 #

      Prezado Rev. Francisco Moraes.

      Ok. Fique na paz, mas saiba que você está servindo à Igreja Presbiteriana do Brasil sendo desobediente ao seu Supremo Concílio.

      Grande abraço.

  3. Junio Cezar 7 de maio de 2012 at 9:39 #

    O Rev. Misael apresenta uma separação importante, em seu texto, entre calvinistas consistentes e conciliaristas e calvinistas pontuais. Tal separação é esclarecedora e não excludente, pois não quer dizer que os calvinistas pontuais vivam a “marginalia” quanto a contribuições relevantes. A apartação elaborada tem finalidade de não-confusão e de colocar as noções com suas cargas contextuais nos devidos espaços. Minha gratidão ao Rev. Misael pelo seu trabalho de escrita que tem orientado e esclarecido seus leitores. Um grande abraço.

    • Misael 7 de maio de 2012 at 18:03 #

      Prezado Junio Cezar;
      Mais uma vez, é um prazer tê-lo por aqui. Infelizmente, por uma falha de desenvolvimento, apaguei meus posts anteriores, alguns dos quais você havia comentado sempre com elegância e inteligência. É bom tê-lo como amigo e leitor.
      Fique na paz do Senhor.

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