[1] Aproximando-se os dias da morte de Davi, deu ele ordens a Salomão, seu filho, dizendo: [2] Eu vou pelo caminho de todos os mortais. Coragem, pois, e sê homem! (1Reis 2.1-2).
Eu não poderia iniciar esta meditação sem mencionar a figura de João Batista do Nascimento, carpinteiro naval nascido em 1902, crente chamado à presença de Deus no mês em que completaria 97 anos de idade. Homem cuja vida foi exemplo do poder restaurador da graça divina. Louvo a Deus por aquela pessoa simples que me ensinou sobre humanidade, política, cultura geral, pescaria, simplicidade, humildade, arrependimento, fé, cultura bíblica, oração, vida familiar e, sobretudo, sobre amor — meu pai, que espero encontrar na glória celestial.
Davi chamou Salomão a fim de transmitir-lhe as instruções finais, antes de morrer. Ele sabia que seu filho não era, pelo menos até aquele momento, do tipo que se impunha (o capítulo 1 de 1Reis mostra que o irmão de Salomão, Adonias, parecia ser muito mais “proativo” do que seu irmão mais novo). Salomão seria o novo rei e teria de tomar decisões difíceis e assumir responsabilidades pesadas. A ele caberia executar diversas sentenças de Davi e empreender a construção do templo — consolidando a vida religiosa da nação — e a expansão do reino.
Naquele contexto Davi recomendou ao herdeiro do trono: “Coragem, pois, e sê homem!” Tais palavras, ditas àquele que seria o líder da nação de Israel, são perfeitamente aplicáveis aos pais de modo geral. Ser pai não é tarefa simples, daí a pertinência destas duas instruções:
[...] Coragem, pois, e sê homem!
A palavra traduzida como “coragem” tem o sentido de exercer força. Por isso a Nova Versão Internacional traz “seja forte”. A cultura contemporânea nos empurra a ideia do homem como sexo frágil. Uma das razões para isso, creio eu, é o próprio perfil da atual geração adulta. Muitos dos atuais adultos são filhos de pais separados. Os meninos cresceram, na maioria das vezes, criados apenas pelas mães e, portanto, não tiveram, em casa, modelos bíblicos de masculinidade. Algumas destas mães, verdadeiras lutadoras, tiveram de ser “pães” — pais e mães ao mesmo tempo. Mesmo sem querer, ajudaram a estabelecer, na mente de seus filhos homens, um padrão de dependência das mulheres. Tais filhos cresceram sendo em tudo protegidos e supridos por suas mães, e não aprenderam a ser homens corajosos e fortes.
Aliados a este novo perfil da família ocidental, temos a distorção do conceito de força. Lemos sobre o legado de sangue deixado pelos ditadores e assistimos nos noticiários os relatos sobre o abuso da força: maus tratos, assédio moral e violação física e psicológica. Daí passamos a considerar todo o uso de força como errado. Nos esquecemos, por exemplo, de que nosso Deus é forte:
Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água (Sl 63.1).
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz (Is 9.6).
Sendo assim, não há oposição necessária entre força e gentileza. Como firmou Ralph W. Sockman:
Nada é tão forte como a gentileza, e nada é tão gentil como a verdadeira força.
A manutenção do bem-estar da família requer isso. Ontem fomos lembrados do papel do marido e vimos que ele provê, protege e assegura sua esposa e filhos no amor. Para cuidar dos seus, os pais enfrentam estresse fortíssimo, “engolem sapos”, abrem mão da satisfação de seus próprios desejos e interesses e, como Cristo, entregam suas vidas. Não é sem razão que, como nos informam as estatísticas, no geral, homens morrem mais cedo do que mulheres. A carga é pesada e exige ombros fortes. Os desafios são assustadores, por isso temos de acatar esta palavra dita por Davi: “Coragem [...]!”.
[...] Coragem, pois, e sê homem!
A recomendação de Davi prossegue com “sê homem!”. O texto não fala de humanidade de forma ampla, algo como “Salomão, seja um rei humano”. O foco é a macheza ou virilidade. Os nordestinos leriam isso assim: “sê cabra macho!”. Sei que isso ressoa estranho nos ouvidos atuais, acostumados à feminilização do homem. Há homens que temem deixar um porta-retratos 10 cm fora do lugar. Suas esposas simplesmente despejarão ondas de fúria caso o esposo quebre uma pequena regra de organização doméstica. Ai de tais maridos se tiverem de dizer à mulher que os gastos deverão ser reduzidos em 20% nos próximos três meses, considerando a necessidade de pagar os compromissos do período. Alguns serão manipulados e forçados a ceder aos caprichos de suas “amadas”. Tais esposos são muito mais semelhantes a cães domesticados do que a verdadeiros homens. Outros tremem só de pensar em dizer “não” ou em corrigir um filho. Tais indivíduos confundem amor incondicional e provedor com trato meloso e frouxo. Ao invés de educarem filhos “na disciplina e na admoestação do Senhor” (Ef 6.4), formam uma descendência indulgente e petulante.
Louvo a Deus pela vida do Presb. Gandolfi que, ontem, nos ensinou que “Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave” (Ef 5.2). Fomos lembrados que o marido, como Cristo, deve entregar-se primeiramente a Deus, em favor da família. Isso implica em liderar a família fazendo o que Deus quer. Como aprendemos ontem, borboletas precisam de companheiros fortes. A atual geração de maridos-borboletas precisa tornar-se maridos-búfalos, ainda que gentis, nos termos de Ralph W. Sockman.
Isso exige o revestimento do Espírito Santo. O exemplo maior é o Senhor Jesus Cristo, que equilibrava “Espírito de conselho e de fortaleza” (Is 11.2), ou seja, a capacidade de tomar sábias decisões e a força para implementá-las. Nós, pais, temos de ser, como nosso Redentor, cheios do Espírito de Deus.
Nós, pais, devemos suplicar a Deus que nos faça corajosos e espiritualmente másculos. Sejamos homens conforme o coração divino. Caminhemos com nossa esposas e filhos nos termos da Palavra de Deus. Nós podemos louvá-lo porque ele nos ajuda nisso. Como afirma a Sagrada Escritura, “Deus é a minha fortaleza e a minha força e ele perfeitamente desembaraça o meu caminho” (2Sm 22.33). Deus, que é a nossa fortaleza, nos ajuda a sermos fortes ao ponto de a ele servirmos como melhores pais e esposos. Amém.
Devocional na IPB Rio Preto em 08/08/2010 (Dia dos Pais), às 9h.

A maior parte do trabalho pastoral diz respeito ao trato com as ovelhas — os eleitos agregados ao rebanho de Cristo (Provérbios 27.23). Nosso Senhor investiu tempo em pessoas, ministrando a graça e o amor a todos que, sinceramente, buscavam a Deus. Ele orientou os apóstolos a procurarem os perdidos e exemplificou sua própria missão como a tarefa de resgatar a ovelha extraviada (Mateus 4.23-25, 10.6; Lucas 15.3-7).
É preciso salientar que o Senhor Jesus qualificou as ovelhas: As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço, e elas me seguem (João 10.27). Em suma, ovelhas sabem ouvir e seguir. O rebanho de Cristo é composto de indivíduos que, em virtude de terem sido incluídos no pacto da salvação alcançcados (esse é o sentido do verbo conhecer) escutam a fala de Jesus e o seguem. Vejamos ainda Provérbios 4.18: Mas a vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Uma ovelha de Cristo tem ouvidos, é obediente e trilha um caminho de aperfeiçoamento contínuo — de aumento cotidiano da luz. Muito simples.
Prolifera, porém, nas igrejas, uma nova classe de membros, que podemos chamar de bodelhas. Uma bodelha é muito semelhante a uma ovelha — para dizer a verdade, externamente, pelo menos na primeira fase de convívio eclesiástico, não há diferença perceptível. Somente com o passar do tempo é que podem ser notadas as dissonâncias no procedimento, no balido, nas atitudes e no fruto espiritual.
De acordo com o Dicionário Aurélio Século XXI, frugalidade é a qualidade de quem ou do que é frugal. Entenda-se frugal como algo ou alguém “sóbrio, simples, modesto” e frugalidade como uma certa qualidade de leveza existencial, tal como mencionada no primoroso texto de Trindade Coelho: “arrancha-se à sombra das árvores comendo a frugal refeição” ou como a belíssima letra de Cuitelinho, (folclore recolhido por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó; para quem não sabe, cuitelinho é sinônimo de colibri ou beija-flor):
Cheguei na beira do porto, onde as “onda” se “espaia”
As garças dá meia “vorta” e “senta” na beira da praia
Meu cuitelinho não gosta que o botão de rosa caia
Ai, quando eu vim da minha terra, despedi da “parentaia”
Eu entrei no Mato Grosso, dei em terras “paraguaia”
Lá tinha revolução, enfrentei forte “bataia”
A tua saudade corta como aço de “navaia”
O coração fica aflito
bate uma, a outra “faia”
os “óio” se enche d’água
que até a vista se “atrapaia”
A propósito, morreu no início desta semana, aos 70 anos, de infarto, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, um dos integrantes da dupla Pena Branca e Xavantinho, que interpretava Cuitelinho. O vídeo sobre a morte do cantor e a música podem ser vistos e ouvidos no fim deste post.
A vida carece de frugalidade. Mesmo urbanóides como nós, que vivemos lutando pela sobrevivência, imersos no estresse do mundo globalizado e tecnológico, precisamos ser frugais — simples, sóbrios, leves e abertos aos sentimentos e à beleza das coisas criadas, à medida em que caminhamos confiantes na Providência Divina.
A vida seria insuportável sem o silêncio. O coração tumultuado precisa experimentar a tranquilidade proveniente da ausência de perturbações. Esse estado de pleno descanso é a base para diversos benefícios espirituais, afetivos e físicos.
Vivemos numa cultura de consumo, sendo escravos do tempo e presas da ansiedade. Não raro eu me descubro, em determinados instantes, lidando com dezenas de pensamentos simultâneos. O cérebro em atividade frenética, processando imagens e dados, tecendo análises, alinhavando argumentos e adiantando projetos. O coração a mil: correria; confusão; ausência de silêncio.
Isso me faz concluir que o silêncio não é apenas físico. Eu posso estar em plena tormenta, esmagado pelo tumulto, mesmo quando meus ouvidos não estão sendo incomodados com uma quantidade exagerada de decibéis. Existe um silêncio emocional e espiritual, que eu preciso aprender a cultivar: “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Habacuque 2.20).