Como Preparar Estudos Bíblicos a Partir de Livros

Como preparar estudos bíblicos a partir de livros [2017]

Esta oficina focaliza em como preparar estudos bíblicos a partir de livros. Analisa alguns paralelos e diferenças entre a preparação de um estudo a partir de uma revista para a Escola Dominical ou grupos pequenos e de um livro cristão. Sugere uma filosofia e método de trabalho para elaboração de aulas interessantes, biblicamente consistentes e transformadoras.

1. Pressupostos desta oficina

Iniciamos admitindo três pressupostos.

1.1. Perseguimos a velha (e boa) meta da educação cristã

A meta final do ensino cristão é o discipulado de Jesus Cristo (Mt 28.18-20). Nesses termos, o ensino cristão é informativo e formativo; a instância de ensino cristão (o culto público, a escola dominical ou o grupo de estudo bíblico) deve capacitar o crente a ser, saber e fazer. E o professor, assim como Jesus (cf. At 1.1), deve tanto fazer (gr. poiein; “executar”; “praticar”) quanto ensinar (gr. didaskein, “prover instrução”) a verdade de Deus.

Graham Butt afirma que “a aprendizagem de conceitos das diferentes áreas do conhecimento, vazios de sentido e aplicabilidade, tem pouco valor em face das demandas da sociedade contemporânea. Daí a preocupação com a formação de indivíduos que aprendam não só conceitos (SABER), mas, também, procedimentos (SABER FAZER) e atitudes (SABER SER).[1]

Este trinômio (saber — saber fazer — saber ser) é implementado pelo Espírito Santo iluminando o entendimento e aplicando a Palavra de Deus ao coração (Fp 2.13; cf. Jo 14.26; 16.7-15; At 16.14; Rm 10.17; 1Co 2.14; 2Co 4.6).[2] Destarte, no uso de literatura extrabíblica, o professor pretende conectar o aluno ao conteúdo transformador da Bíblia.

Livro Cristão ⥤ Bíblia ⥤ Transformação

Isso é assim porque a Bíblia é meio de graça divinamente designado para a educação cristã, nos termos da declaração apostólica:

Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e de que foste inteirado, sabendo de quem o aprendeste e que, desde a infância, sabes as sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3.14-17).

O mestre cristão ensina para transformar (converter, santificar e consolar), não negligenciando a teoria (a transmissão fiel das verdades da Palavra de Deus) e a prática (o desafio aos alunos para que andem com Deus no mundo de Deus).

Isso nos conduz ao segundo pressuposto.

1.2. Ensinamos a doutrina sadia

Assume-se que o livro a ser estudado seja do conhecimento do pastor da igreja e possua conteúdo fiel à Bíblia, sem qualquer prejuízo à confessionalidade e sistema de governo da igreja. Livros heterodoxos podem até ser utilizados como exemplos de erros a serem evitados, mas isso somente em classes muito amadurecidas, sob a condução de um professor capaz e alinhado à ortodoxia (e nunca é demais repetir, com o consentimento do pastor titular da igreja).[3]

Os construtos transmitidos em uma Escola Dominical, grupo pequeno ou qualquer outra instância, devem fortalecer os crentes na doutrina bíblica sadia. O educador cristão se esforça para glorificar a Deus motivando os alunos para a devoção, cumprimento da missão, voluntariado alegre e colaboração com a unidade e edificação da igreja.

1.3. Somos agentes do Espírito Santo

Como Executivo da Trindade, o Espírito Santo nos chama e capacitada para sermos professores: “Tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: […] o que ensina esmere-se no fazê-lo (Rm 12.6-7), ou como lemos na NVI, “se o seu dom é […] ensinar, ensine” (cf. 1Co 12.28).

O Senhor Jesus ensinou com autoridade como “Cristo” ou “ungido” de Deus (Mt 3.16; 4.23; 7.28–29). Semelhantemente, o discipulador leciona revestido pelo Espírito Santo (At 1.8). Ademais, uma vez que, diferente de outros tópicos da vida comum, a verdade de Deus só é compreendida espiritualmente, o professor-discipulador sente “dores de parto” e derrama “lágrimas” enquanto ora para que Deus “forme Cristo” em seus alunos (Sl 126.5-6; At 20.31; Rm 10.1-2; Gl 4.19; Ef 1.16-23). Antes e acima de qualquer metodologia pedagógica, o professor necessita de sustento e capacitação sobrenatural.

Eis o que temos até aqui: Um professor dedicado ao ensino formador-transformador, alicerçado na doutrina pura da Bíblia, completamente dependente de Deus e cheio do Espírito Santo. A partir deste ponto, podemos falar sobre metodologias pedagógicas.

2. A oportunidade-problema

No tempo espremido entre o culto matutino e a divisão de classes, o Superintendente da Escola Dominical anuncia, animadíssimo:

— No próximo trimestre, a classe “Sabidos de Sião” estudará o Livro Os Primeiros Passos do Discípulo, de nossa Editora Cultura Cristã. Aproveitem o prazo (até domingo que vem) para matricular-se!

Algumas pessoas recebem a notícia com um sorriso amarelo. Vale a pena matricular-se na classe “Sabidos de Sião”? Um trimestre inteiro de estudos baseados em um livro cristão? Uns até entendem que, na Escola Dominical, só devem ser usadas a Bíblia e a revista da denominação. Considerando experiências anteriores, de professores lendo em tom monótono linha por linha de capítulos de livros, em alguns corações, surge “temor e tremor”.

Ensinar não é fácil em nenhuma ocasião, mas tanto professores quanto alunos sabem do que eu estou falando. Ensinar a partir de um livro é desafiador de diversos modos.

2.1. Ensinar a partir de um livro é desafiador para o bolso

Na maioria dos casos, um livro é mais caro do que uma revista.

Cada aluno deve comprar o seu exemplar ou uma versão gospel do “Capitão Jack Sparrow”[4] vai “compartilhar” cópias (ilegais) do livro para os alunos?

Nestes tempos de acesso a conteúdos digitais e aperto financeiro, as editoras são premidas a encontrar maneiras de tornar os livros mais acessíveis. Por outro lado, temos de ajudar os cristãos a compreender que é importante investir em bons livros. Assim como é legítimo adquirir livros escolares, vale a pena pagar pelo livro cristão (esse investimento motiva os autores a escrever mais, e garante o lugar das boas editoras no mercado editorial).

2.2. Ensinar a partir de um livro é trabalhoso

Usar livros no ensino cristão é ordinariamente mais trabalhoso do que usar revistas, porque estas últimas são formatadas didaticamente para uso na Escola Dominical e grupos de estudo.

Uma revista é intencionalmente produzida para leitura facilitada. O tema de cada unidade é sublinhado. O assunto é escrito com clareza e separado por seções e subseções. O autor de um texto didático se esforça para multiplicar as aplicações e, em alguns casos, acrescenta exercícios de fixação. É claro que, mesmo tratando-se de uma revista, o professor lerá e estudará a lição até dominar o conteúdo e o método, mas acontece algo diferente no caso de um livro.

Todo bom escritor se esmera para ser minimamente didático, mas nem todo livro é redigido pensando-se em seu uso em uma classe de estudos. Isso impõe ao professor sete tarefas ou passos:

  1. Ler e entender o livro.
  2. Verificar como o autor organizou seu conteúdo e esboçá-lo didaticamente.
  3. Comprometer-se com a exposição deste conteúdo.
  4. Ligar o livro com as Escrituras e a realidade-necessidades dos alunos.
  5. Elaborar aplicações e atividades de aprendizado.
  6. Empacotar isso em uma apresentação interessante.
  7. Dar a melhor aula de sua vida.

Esses sete passos constituem o cerne desta oficina.

2.3. Vale a pena ensinar a partir de um livro

Apesar dos desafios mencionados, vale a pena ensinar a partir de um livro, por duas razões.

Em primeiro lugar, ao dar os sete passos mencionados nesta oficina, o próprio professor cresce em conhecimento e espiritualidade. Ao estender seu saber literário-teológico, e ao treinar sua mente e coração na preparação de uma boa aula utilizando um livro, ele se torna um professor melhor e mais frutífero no discipulado.

Além disso, como segundo benefício, dar boas aulas utilizando livros ajuda os cristãos a compreenderem que bons livros cristãos são úteis para o amadurecimento e prática da fé. O brasileiro, de modo geral, investe pouco em livros e lê pouco (não consideramos caro pagar R$ 30,00 em uma picanha maturada com fritas, em nosso restaurante predileto, mas achamos muito pagar R$ 30,00 em um livro). Ademais, precisamos ajudar os alunos a compreender que somos herdeiros da Reforma Protestante do Século 16, um movimento que, desde o berço, expandiu-se por meio da distribuição de boa literatura cristã.

Dito isto, retornemos aos sete passos para a elaboração de estudos bíblicos a partir de livros.

Passo 1: Ler e entender o livro

Antes de ensinar utilizando um livro, o professor deve ler e entender seu conteúdo (é claro que isso se aplica também ao uso de uma revista).

Muito simples. O professor deve poder afirmar: “De acordo com este autor…” e o que segue realmente constituir o ensino do referido autor. É isso mesmo que o autor diz?

Isso parece óbvio, mas já assisti aulas em que o professor afirmou que o autor dizia uma coisa quando, no texto utilizado como base da aula, constava exatamente o contrário. Em determinadas ocasiões, nossa compreensão do autor pode ser turvada por nossa predileção doutrinária ou cultura eclesiástica. E há casos em que, simplesmente, não passamos da leitura elementar (deixamos de responder à pergunta básica: “O que diz a frase?”; figura 01).[5]

Para evitar a má interpretação do pensamento do autor, é necessário realizar a leitura “inspecional” ou “pré-leitura” (que responde às perguntas “o livro é sobre o quê?” e “qual a estrutura deste livro ou capítulo?”) e, se possível, prosseguir para a “leitura analítica” (abordar o texto com tempo e calma, fazendo diferentes perguntas, ao ponto de dialogar com o autor).[6] Em suma, ler bem, até compreender o que o autor realmente diz.

Níveis de leitura

Figura 01. Níveis de leitura.

Isso nos conduz à pergunta: Eu, professor ou discipulador, tenho alguma dificuldade de leitura? Aqui nós somos ajudados por Bauer:

Antes de ler o trecho a seguir, dê uma olhada no seu relógio e anote a hora que ele indicar:

Os livros que lemos pela primeira vez em lugares estranhos sempre guardam seu charme, não importa se os lemos até o fim ou os deixamos de lado. Foi assim que Hazlitt sempre se lembrou de que foi em 10 de abril de 1798 que ele “se sentou para ler Nova Heloísa na pousada de Llangollen com uma garrafa de xerez e um prato de frango”. Da mesma forma, eu me lembro do professor Longfellow, da faculdade, recomendando-nos que lêssemos o Peau de Chagrin [A Pele de Onagro], de Balzac, para desenvolvermos bem o nosso francês; mas foi apenas mais de uma década depois que eu encontrei o livro em um hotel-fazenda, numa viagem literária, e fiquei acordado metade da noite para lê-lo. Mas é possível, por outro lado, que encontros acidentais como esse com livros se deem em circunstâncias irremediavelmente desfavoráveis, como quando eu me deparei com o Leaves of Grass [Folhas de Relva] pela primeira vez em minha primeira viagem em uma barca açoriana. E, naquela tarde, ele me causou um leve sentimento de náusea, que talvez também possa causar em terra firme […].

Olhe novamente para seu relógio. Quanto tempo você levou para ler esse trecho? Conte as palavras desconhecidas. Quantas você achou? Se você não sabe o que é xerez, será que pode descobrir o que é pelo contexto? Qual é o ponto de vista de Higginson, o autor dessa passagem?

Se você levou um minuto ou menos, já estar é lendo em velocidade apropriada para uma leitura profunda de prosa. Se você achou até dez palavras desconhecidas nesse trecho, seu vocabulário já estará acima do chamado “analfabetismo funcional”, o que quer dizer que você é tecnicamente capaz de ler qualquer coisa que tenha sido escrito para um leigo inteligente. Se você adivinhou que xerez é uma espécie de bebida, sabe como coletar pistas para o sentido de palavras desconhecidas a partir do seu contexto. E se você conseguiu descobrir (apesar dos nomes próprios desconhecidos) que Higginson pensa que as condições sob as quais você lê um livro pela primeira vez provavelmente afetarão a forma como você se lembrará dele daí em diante, saberá então como captar a ideia central de um parágrafo.

Se você levou mais de um minuto para ler essa breve passagem e encontrou mais de dez palavras desconhecidas, é recomendável que você examine suas habilidades mecânicas de leitura […].[7]

Se você tem interesse nos aspectos técnicos da leitura, interpretação e extração do conteúdo do livro, recomendo as obras de Adler e Van Doren e Bauer, mencionadas na bibliografia. Adler e Van Doren nos ajudam a compreender as dimensões da leitura (para entretenimento, para informação e para entendimento) e os quatro níveis da leitura inteligente (mencionados na figura 01). Em seguida eles nos conduzem na leitura de diferentes gêneros literários (como ler livros práticos, como ler literatura imaginativa, como ler narrativas, peças e poemas, como ler livros de história, como ler livros de ciências e de matemática, como ler livros de filosofia e como ler livros de ciências sociais). Por fim, eles abordam os “fins últimos da leitura). Bauer fornece dicas úteis sobre leitura, apresenta a educação clássica (o triviumgramática, lógica e oratória dos gregos) e nos ajuda a entrar na “grande conversação” com autores de romances, autobiografias e memórias, narrativas de historiadores, teatro e poemas. Só estas obras dariam uma oficina.

Passo 2: Esboçar o conteúdo didaticamente

Dado o primeiro passo, estamos aptos a esboçar as ideias do autor. Há casos em que isso é fácil, pois alguns autores dividem seu assunto em seções e subseções. Outros, porém, despejam suas ideias em jorros tumultuosos:

Esboço 1. Capítulo de livro do autor Genialis Complicatus.
Capítulo 02. Os dons espirituais em 1Coríntios 12
Ideia 1: O Deus Trino concede dons para edificação.
Ideia 2: Desequilíbrio no uso dos dons.
Ideia 3: Os dons são dados por Deus.
Ideia 4: Temos de valorizar os dons espirituais.
Ideia 5: Minha experiência com o uso dos dons em Moçambique (esse ponto tem ligação com as ideias 1, 4 e 8).
Ideia 6: O Espírito Santo nos leva a afirmar que “Jesus é o Senhor”.
Ideia 7: O lugar do ensino da lista de dons.
Ideia 8: O corpo de Cristo deve ser edificado.

No capítulo acima as ideias vêm e vão; temas são propostos em um ponto e retomados em outro. Os alunos serão ajudados se o professor organizar as ideias do autor em tópicos, quem sabe:

Esboço 2, elaborado pelo professor Erivaldo Perseverantus, do capítulo do livro do autor Genialis Complicatus.
Tema da aula: Os dons espirituais em 1Coríntios 12
I. A fonte e os beneficiários dos dons.
1. Os dons provêm do Deus Trino.
2. Os dons são concedidos aos crentes (os que declaram que “Jesus é o Senhor”).
II. Os dons presentes da Igreja de Corinto.
1. Uma lista de dons.
2. Uma possibilidade de organização da lista de dons.
III. O uso correto dos dons.
1. O contexto do corpo de Cristo.
2. Dons para edificação.

O segundo esboço favorece a aprendizagem. Quanto mais organizada e simples a apresentação do conteúdo, melhor para os alunos.

Passo 3: Expor o conteúdo do livro

Como vimos no primeiro passo, pode acontecer de o professor não compreender o conteúdo do livro corretamente (e isso é corrigido com a leitura correta do texto). Mas não apenas isso. Ocorre outro problema, qual seja, alguns professores simplesmente desconsideram o conteúdo programado. Recebem o livro, assumem ou são escalados para a aula sobre tal capítulo, mas lecionam uma matéria desconectada do texto adotado.

Isso não é bom, por quatro razões:

  1. Porque desvaloriza o trabalho das pessoas que investiram tempo pesquisando e deliberando sobre o material a ser utilizado no grupo de estudo.
  2. Sinaliza que o professor não se importa com a boa mordomia dos recursos da igreja e dos alunos (no caso da igreja pagar pelo exemplar do professor, ou dos alunos comprarem o livro recomendado).
  3. O aluno pode frustrar-se por ler previamente o capítulo para uma aula e o professor não o abordar devidamente.
  4. Eu já presenciei situações em que a exposição do professor, desconectada do conteúdo do livro, empobreceu o ensino. Conceitos e percepções bíblicas e doutrinárias preciosas do livro foram simplesmente deixadas de lado, enquanto o professor dedicou o tempo da aula a definições, aplicações e compartilhamento de experiências nem sempre condizentes com o projeto pedagógico.

O professor deve se comprometer a seguir a proposta pedagógica aprovada, expondo com honestidade o pensamento do autor do capítulo ou livro escolhido para o ensino. Isso não equivale a lecionar mecanicamente, nem alheio ao contexto e necessidades reais da igreja ou dos alunos. Sendo assim, prossigamos para o passo 4.

Passo 4: Tornar o conteúdo relevante

O conteúdo estudado possui valor em si mesmo. Quem torna o conteúdo relevante é o professor. Entendamos isso melhor.

Com raras exceções, desde minha adolescência, eu ouço a reclamação de que o conteúdo escolhido para a Escola Dominical não atende às “necessidades reais” da igreja. Convivi com irmãos da Convenção Batista Brasileira e ouvi deles a mesma reclamação: As revistas da denominação nem sempre pareciam relevantes. Se o conteúdo é produzido por uma Junta Nacional, reclama-se de que autores da região Sudeste não conhecem as realidades dos crentes da região Norte. Um presbitério criou uma estrutura editorial independente, a fim de atender as demandas de seu contexto regional. Mesmo assim, surgiu reclamação: O autor de determinadas lições, pastor de uma igreja de porte maior, não conhece as realidades de uma igreja de porte menor, do mesmo presbitério. E já ouvi professores e alunos reclamando da falta de relevância dos conteúdos produzidos pela equipe de educação cristã da própria igreja local. Se isso não bastasse, já testemunhei protestos sobre as pessoas que escolhem o conteúdo, ou sobre os critérios de escolha do conteúdo. Isso com relação a revistas, livros cristãos e até quando se adota a Bíblia como livro-texto (“por que estudaremos Sofonias”? “O que a Epístola de Tiago tem a ver com meus problemas conjugais”?).

O fato é que não existe currículo que se encaixe perfeitamente em todos os contextos e necessidades pessoais. Repetindo, quem o torna relevante é o professor. Pensemos no professor de matemática que usa um livro adotado por sua escola. Ele não participa diretamente da escolha do livro (quem sabe a escola receba livros do Governo, ou integre uma rede de ensino que utiliza material didático apostilado).

Eis o professor diante do livro. O tema da próxima aula é “equação do segundo grau” e o primeiro parágrafo da matéria começa assim:

Denomina-se equação do segundo grau, qualquer sentença matemática que possa ser reduzida à forma ax2 + bx + c = 0, onde “x” é a incógnita e “a”, “b” e “c” são números reais, com a ≠ 0; “a”, “b” e “c” são coeficientes da equação. Observe que o maior índice da incógnita na equação é igual a dois e é isto que a define como sendo uma equação do segundo grau.[8]

Qual a relevância disso para o “Joãozinho”, que sofre com a prisão de seu pai? O responsável por tornar esta aula relevante é o professor. Vocês sabem do que eu estou falando; um bom professor torna matemática interessante e relevante. Um professor ineficaz aniquila o interesse dos alunos pela matemática. Repetindo, o agente da relevância da aula é o professor. Falando de educação em âmbito geral, Butt afirma:

O conteúdo [é] determinado em parte pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), é mediado por diferentes normas em vários níveis, regionais e escolares. O importante quanto a isso é que o modo de desenvolvimento desse conteúdo é uma escolha […] do professor.[9]

A Palavra de Deus, em si mesma, possui valor e eficácia. Ele jamais retorna “vazia” (Is 55.10-11). No entanto, é possível pregar um sermão com excelente conteúdo e nenhuma relevância. E o pior é quando dizem “este sermão pareceu uma aula”, dando a entender que “aula” equivale a recebimento de informação sem impacto nos afetos e na vontade — teoria que não convoca para a mudança do ser, do saber e do fazer. Biblicamente, como lemos em 2Timóteo 3.14-17, todo ensino é dado para que sejamos feitos — pela aplicação, pelo Espírito Santo, da Palavra em nosso coração — cristãos “inteiros” e “habilitados” para o serviço divino. E o modo como o conteúdo é repassado pelo professor faz diferença.

O que Butt afirma sobre a prática pedagógica em geral, aplica-se ao ensino cristão:

Para observador leigo, a boa prática de ensino parece algo extremamente simples. A impressão, pelo menos para o observador não treinado, pode ser a de que o professor só precisa voltar-se para a classe e “transmitir” algum conteúdo para que os alunos sob sua responsabilidade aprendam. A classe é organizada, os materiais de ensino estão facilmente à mão, os alunos reagem adequadamente às questões ou orientações apresentadas pelo professor e a atmosfera de aprendizagem resultante é marcada pelo apoio. O professor é confiante e seguro e o ato de ensinar parece desenvolver-se quase sem esforço. As transições entre as atividades de aprendizagem — que parecem, todas elas, de interesse dos alunos — são suaves e eficazes. As perguntas apresentadas pelo professor são levadas a sério pelos alunos, que estão ávidos por responder. Estes são, por sua vez, devidamente elogiados pelas respostas que dão. Há poucas perturbações ou disputas, todos parecem compreender seu papel no processo de aprendizagem e todos se engajam no trabalho com um sentido positivo de propósito. O que poderia ser mais simples?[10]

Não é bem assim. Para que ocorra o aprendizado, a transmissão do conteúdo deve considerar o contexto e as necessidades dos alunos. Daí o valor do professor como um discipulador, pois uma das facetas do discipulado é a amizade: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer” (Jo 15.15). Griggs nos informa que “professores amigos” são lembrados por conectar-se a coisas que os alunos também acham interessantes.[11] Sendo assim, a igreja necessita de “professores que escutem, que conheçam tanto o mundo da igreja quanto o mundo do aluno”.[12]

Usando uma analogia da informática, um professor cristão funciona como um cabo (hub) que conecta o livro adotado à Bíblia e, a partir de então, aos alunos de carne e osso.[13] Usando uma analogia geométrica, a conexão exige que o professor atente para o triângulo da relevância — há um ângulo bíblico, um ângulo humano, histórico e cultural e, por fim, um ângulo pessoal.

Triângulo da relevância

Figura 02. O triângulo da relevância.

Nós olhamos para cada ângulo fazendo perguntas pertinentes.

O ângulo bíblico

  1. O que o autor diz aqui é bíblico?[14]
  2. De que modo este conteúdo relaciona-se com a Bíblia?

O ângulo humano, histórico e cultural

  1. Quais necessidades gerais, compartilhadas por toda a humanidade, incluindo quem não é crente, são sublinhadas no livro inteiro, ou neste trecho do livro?
  2. Quais necessidades dos cristãos, de todos os tempos e culturas, são abordadas neste capítulo ou trecho deste livro?
  3. Que aspecto da realidade ou cultura de meus alunos é retratado (ou confrontado) por este texto? Aqui cabe relacionar a aula com acontecimentos recentes e de conhecimento geral.

O ângulo pessoal

  1. Enquanto eu preparo esta aula, quais “rostos” de alunos eu “enxergo”? Como eles estão e do que precisam?
  2. De que modo este conteúdo pode ajudar o “Joãozinho”?

Aqui eu retorno ao que disse no início, sobre oração e dependência de Deus. Nenhum professor sabe tudo sobre seus alunos, mas Deus sabe. Ele nos conduz, fazendo-nos abordar questões que tocam as vidas dos alunos de maneiras que não planejamos. Trocando em miúdos, “andar com Deus” nos ajuda a dar aulas mais relevantes.

Último detalhe: O professor cristão busca atender necessidades *espirituais reais*, a fim de não cair no erro apontado por Doriani, quando avalia sermões contemporâneos que não passam de “conversa repetitiva e antropocêntrica, que busca a aprovação dos desejos caídos e ignora todo o conselho de Deus”.[15]

Isso nos conduz ao passo seguinte.

Passo 5: Elaborar aplicações e atividades de fixação

Ao longo da história, os mestres cristãos entenderam que aplicar a Palavra de Deus ao coração é uma tarefa do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, Deus usa o professor para comunicar sua Palavra convocando os alunos à conversão, santificação e serviço. Deus faz uso do mestre para alimentar e consolar os crentes com a doutrina e as promessas da Escritura. O professor aplica o ensino, a fim de “levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2Co 10.5), como dissemos desde o início, plenamente consciente de que quem torna seu esforço eficaz é o Espírito Santo (cf. Ez 37.4,9,12,14).

Dito de modo mais teológico, o Espírito aplica eficazmente (chamado interno); o professor cristão aplica fielmente (chamado externo; cf. 1Co 4.1-2). Aplicações podem ser feitas ao longo de toda a aula, ou, como preferem alguns, podem ser colocadas na parte final. O importante é que não sejam negligenciadas.

Aplicações podem ser feitas ao longo de toda a aula, ou, como preferem alguns, podem ser colocadas na parte final. O importante é que não sejam negligenciadas.

Quando se estuda um texto bíblico, é sempre possível desfrutar das sete fontes de aplicações, apontadas por Doriani:[16]

  1. Os chamados à obediência (regras).[17]
  2. Os princípios gerais de comportamento, tais como “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39) (ideais).[18]
  3. As verdades cardeais da fé (doutrina).[19]
  4. Acontecimentos e seus significados teológicos (atos redentores na narrativa).[20]
  5. Lições morais (atos exemplares da narrativa).[21]
  6. Especialmente nos livros proféticos, as ações simbólicas, tais como o casamento de Oseias com uma prostituta, ou Isaías tendo de andar “três anos despido e descalço” (Is 20) (imagens ou símbolos bíblicos).[22]
  7. O aprendizado da devoção (cânticos e orações).[23]

Doriani nos informa ainda que cada fonte pode conectar-se a quatro aspectos: Dever, caráter, objetivo e discernimento.[24] Por exemplo, a partir desta doutrina, o que eu devo fazer (dever)? Quem eu devo ser (caráter)? Para onde devo ir (objetivo)? Como distinguir a verdade do erro (discernimento)?[25]

Um livro cristão pode conter algumas destas “fontes” de aplicações, ou apontar para uma parte da Bíblia que as contém. O importante na aplicação é que o aluno perceba que o conteúdo estudado não é mera abstração, e sim, algo vital.

Por fim, é muito bom quando o professor formula atividades que ajudam a fixar isso na mente e coração do aluno.

Entenda-se como “atividades de fixação”:

  • Perguntas feitas à classe, no transcurso da aula.
  • Questionários (perguntas objetivas e subjetivas, testes de múltipla escolha, falso ou verdadeiro e ligações entre colunas “a” e “b”).
  • Jogos pedagógicos (caça-palavras, nuvem de marcadores ou completar frases).
  • Tarefas (um resumo do capítulo; uma apresentação em grupo de determinada parte do conteúdo etc.).[26]

Nem sempre as aulas em igrejas contemplam exercícios. No Departamento Infantil, professores dividem a aula em tempo para exposição (o momento da “história”) e tempo para atividades. A partir das classes de adolescentes, corremos o risco de focar apenas na exposição. Uma pessoa me disse, preocupada, que se adotássemos o projeto pedagógico proposto para as classes de jovens e adultos, estas se pareceriam com “salas de aula”. Eu respondi que “a Escola Dominical” é uma escola; por conseguinte, as classes são, de fato, “salas de aula”, daí não haver problema em preparar aulas bíblicas, mesmo para jovens e adultos, com exposição e atividades pedagógicas.

Estas atividades devem ser adequadas a cada contexto (pode ser que sua classe seja composta por alunos semialfabetizados, ou muito idosos; em tais situações, você criará atividades pertinentes à sua classe). O fato é que estas atividades podem ser agradáveis e proveitosas.

Terminada a elaboração das aplicações e atividades, estamos prontos para o sexto passo.

Passo 6: Preparar uma aula interessante

Mesmo quando um professor é chamado de última hora e fala “de improviso”, na maioria dos casos isso dá certo quando ele tem experiência na preparação de boas aulas. As pessoas olham para ele e pensam: “Uau, ele está improvisando e dando uma aula excelente!”, mas o professor sabe que estudou muito aquele assunto e o tinha fixado em sua mente e coração. Pelo menos ordinariamente, o Espírito Santo nos ajuda a “lembrar” aquilo que já conhecemos (Jo 14.26). Como diz Butt:

A aprendizagem não acontece por acaso. É, portanto, muito raro (embora, talvez, não impossível) que uma “boa aula” resulte da entrada de um professor despreparado na sala de aula, sem que qualquer procedimento para a aula tenha sido planejado de antemão. Há, sem dúvida, evidências substanciais que sugerem ser o contrário o mais comum — que a prática de ensino ineficaz esteja relacionada a um planejamento de aulas inadequado.[27]

A aula interessante demanda um plano. “O propósito do plano de aula é oferecer um guia prático e utilizável para as atividades de ensino-aprendizagem que ocorrerão dentro de uma aula específica”.[28] Butt nos ajuda a compreender que um plano de aula:

  • Deve “caber” na sequência de ensino mais ampla e ser escrito de tal forma que fique claro para outro professor (ou observador) aquilo que se pretende na aula planejada”.[29]
  • Não é um script a ser lido (embora possa conter anotações sobre o conteúdo a ser desenvolvido na aula) e não deve ser seguido a todo custo se os eventos dentro da sala de aula indicarem que uma mudança de direção para você e seus alunos é aconselhável e justificável do ponto de vista educacional”.[30]
  • Pode ter diferentes formatos. “A forma exata do plano de aula que você adota é, em grande parte, uma escolha pessoal”.[31]

O que deve constar em um plano de aula? Fundamentalmente o objetivo ou propósito geral da aula, os objetivos de aprendizagem, o conteúdo a ser ensinado, as atividades de aprendizagem, os recursos e a duração da aula. É possível incluir ainda a avaliação (dos alunos e da aula).[32]

Para um professor cristão, o propósito geral de uma aula baseada em um livro é consolidar os alunos no aprendizado do referido livro. Normalmente isso tem ligação com as intenções educacionais do pastor ou da Superintendência ou Coordenação da Escola Dominical. Para os interessados neste assunto, recomendo a participação na oficina oferecida pelo Dr. Cláudio Marra, Os Objetivos da Aula.

É muito recomendável que o professor cristão articule com clareza os objetivos de aprendizagem.

Objetivos de aprendizagem — objetivos específicos ou propósitos a serem atingidos; metas para a aprendizagem dos alunos nesta sala. […] Os objetivos são […] pautados naquilo que os alunos deverão aprender […].
Esses objetivos podem contemplar a aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes, que devem ser alcançáveis dado o contexto real de ensino. […] Ao expressá-los, utilize frases claras e concisas, que possam ser compreendidas pelos alunos, como “Os alunos conhecerão…”; “Os alunos serão capazes de…”. Também é importante pensar como os resultados desses objetivos poderiam ser mensurados. Uma avaliação do desempenho dos alunos ou de sua aula permitirá perceber se seus objetivos de aprendizagem foram atingidos.[33]

Além de objetivos de aprendizagem claros, o plano atenta para as atividades de aprendizagem.

Atividades de aprendizagem — uma sequência de “passos para a aprendizagem” na aula, do começo ao fim. As definições de atividades de aprendizagem implicam a escolha das formas, a seu ver, mais produtivas para a aprendizagem dos alunos, projetadas para atingir os objetivos de aprendizagem previamente estabelecidos.< br/>
As atividades de aprendizagem podem tanto se “centrar no aluno” como “no professor”, mas devem ser desenvolvidas primordialmente para engajar e motivar os alunos, além de proporcionar desafios e estabelecer um dado ritmo. Pode-se empregar uma variedade de estratégias de apoio relacionadas a essas atividades: para introduzir a aula, “fisgar” os alunos, incentivar uma atmosfera de trabalho, concluir atividades e resolver problemas. As atividades devem ser diferenciadas de acordo com o nível dos alunos do grupo […]. É preciso lembrar que para cada atividade de aprendizagem o professor precisará introduzir a tarefa, certificar-se de que todos os alunos a compreendem e dão conta daquilo que têm de fazer, explicar os recursos a serem utilizados e apresentar o vocabulário novo.[34]

Outra questão importante são os recursos.

Recursos — podem ser tanto gerais (como os materiais previamente preparados e mantidos à disposição de todos os membros da escola), físicos (folhas de tarefa, livros didáticos, equipamentos audiovisuais, computadores etc. […]) como pessoais. Recursos pessoais são aqueles que você cria para ensinar uma turma específica, com a devida consideração às necessidades particulares.[35]

Por fim, o professor eficaz se preocupa com a duração da aula.

Duração — todos os planos de aula devem detalhar claramente o momento em que as diferentes atividades devem ocorrer na aula. Chegar a uma previsão bastante precisa do tempo de duração de diferentes atividades e, como resultado, sentir-se seguro com relação aos momentos em que ocorrerão mudanças de atividades ou o encerramento da aula é algo muito importante.[36]

Isso nos conduz a uma situação frequente em igrejas que realizam o culto matutino, antes da divisão de classes da Escola Dominical. Pode acontecer de o culto extrapolar o tempo previsto, estrangulando o tempo previsto para a aula. Se o professor entende que isso acontece com frequência, ao invés de desgastar-se reclamando ad infinitum da má gestão do tempo do culto, o melhor é incluir a possibilidade de atraso no plano de aula. Sendo assim, planeja-se uma aula curta (para o caso de haver atraso) e uma aula longa (para o caso de não ocorrer atraso).

Eis uma sugestão de um plano de aula.[37]

Classe: Sabidos de Sião.
Aula: Os dons em 1Coríntios 12.
Objetivo geral: Aprendizado do livro adotado — que os alunos compreendam como o Espírito Santo capacita os crentes para o serviço.
Objetivos de aprendizagem:
• Os alunos poderão dizer o que é e para que serve um dom espiritual.
• Os alunos saberão quais são os dons espirituais mencionados em 1Coríntios 12.
• Os alunos entenderão como cada dom (de 1Coríntios 12) foi ou continua sendo usado na igreja cristã.
Recursos: Livro, slides (Data Show), vídeo, folha de atividades.
Métodos e procedimentos (duração):
• Introdução com vídeo (10min).
• Exposição (20min).
• Perguntas e respostas (10 min).
• Folha de atividades (10min)
Tarefa para casa: Resumo do capítulo.
Avaliação: Da aula, pelo professor.

Uma palavra final sobre o uso de recursos.

  • Aprenda a utilizar bem o recurso. Pesquise por cursos e leia livros que o ajudem a compreendê-lo e dominá-lo. Aos que desejam usar Data Show, recomendo os livros Apresentação Zen: Ideias Simples de Como Criar e Executar Apresentações Vencedoras, de Garr Reynolds e Slide:ology: A Arte e a Ciência Para Criar Apresentações Que Impressionam, de Nancy Duarte. É importante também dominar a ferramenta (o aplicativo) que você utilizará para criar e apresentar seus slides (PowerPoint, Keynote etc.). Vale a pena participar da oficina que está sendo oferecida neste Congresso, com o Dr. Daniel Santos, O Uso Eficiente do Data Show.
  • Prepare e teste tudo; ensaie a apresentação fora da sala de aula e in loco, com antecedência.
  • Leve diferentes mídias para a apresentação: Pelo menos dois pendrives com o arquivo; diferentes formatos de arquivo (uma versão em PDF é sempre útil, para o caso de o computador disponível não conseguir ler seus arquivos nativos) e uma versão impressa da aula (para o caso de tudo o mais falhar).
  • Chegue cedo na classe e deixe tudo pronto. Fazendo assim, você não perde tempo antes da aula conectando cabos e verificando áudio.

Eis o que temos até aqui: O professor leu e compreendeu bem o capítulo do livro e o esboçou didaticamente; comprometeu-se com sua exposição e tornou o conteúdo relevante (ligando-o à Bíblia e aos alunos de carne e osso); elaborou aplicações e atividades de fixação e planejou a aula mais interessante possível.

Está quase tudo pronto. Só falta o sétimo passo.

Passo 7: Dar a melhor aula de sua vida

O que o professor e os alunos esperam de um estudo baseado em um livro?

O professor dorme cedo na noite de sábado e acorda cedo na manhã de domingo. Em casa ele ora pela lição e pelos alunos e se esforça para chegar à igreja entre quarenta e trinta minutos antes do horário. Ele organiza a sala, liga e testa todos os equipamentos e ora novamente. Agora ele deve lecionar a melhor aula de sua vida. Simples assim. Isso tem de ser levado a sério, especialmente quando consideramos cinco enquadramentos possíveis:

  1. A situação mais comum é a do professor que se sente desafiado a instruir sua classe, mas a expectativa da classe é baixa.
  2. Outra situação, também frequente, é a do professor com expectativa baixa, tendo de falar a uma classe com expectativa alta.
  3. Tristemente comum: Professores e alunos com expectativas baixas. Nesse caso, há acomodação com aulas ruins (tradição baixa).
  4. É possível também que tanto o professor quanto os alunos tenham expectativas medianas. “Vou à Escola Dominial” e vai ser “bom”. Parece melhor, mas trata-se de acomodação com aulas medíocres, cuja preparação está aquém do que foi colocado acima.
  5. A situação ideal é esta: Professores e alunos se encontram a cada domingo com expectativas altas.

As situações 1 a 4 podem acontecer por diferentes razões. O problema pode decorrer de má doutrinação (uma compreensão deficiente da doutrina dos meios de graça). Nesse caso, o professor ou o aluno não compreendem que uma aula da Escola Dominical — mesmo baseada em um capítulo de um livro cristão — por conter conexão viva com a Bíblia, é meio de graça.

Outra coisa que pode gerar os enquadramentos 1 a 4 é a oposição espiritual. Todo ensino cristão ocorre em um contexto de enfrentamento do mundo, da carne e de Satanás (cf. Mc 4.1–20). Sendo assim, tanto o professor quanto os alunos devem orar para que Deus abençoe as aulas, de modo que a “semente” frutifique “a trinta, a sessenta e a cem por um” (Mc 4.8,20).

Por fim, os primeiros quatro enquadramentos podem acontecer por esgotamento (o professor precisa ser revitalizado espiritualmente), acomodação (repetimos o que sempre fizemos, sem preocupação com o discipulado ou com o aperfeiçoamento de nossa prática de ensino) ou preguiça (a triste e esdrúxula situação do professor que não gosta de estudar).

Eis o quadro: Nós criticamos igrejas que atraem frequentadores com falsas promessas (“compareça a nossas reuniões e obtenha tais e tais benefícios!”), ao mesmo tempo em que assumimos uma agenda subcristã, deixando de acreditar que nossos ajuntamentos regulares produzam benefícios reais. Alguns professores não acreditam no que ensinam. Não saem de casa, no domingo de manhã, com expectativa de que Deus dispensará graça por meio de seu ensino. Os alunos, por sua vez, arrastam-se como zumbis, a fim de registrar suas presenças na Escola Dominical. Isso contrasta com nossos documentos confessionais. As perguntas 115-121 e 159-160, do Catecismo Maior de Westminster, orientam tanto os que ministram, quanto os que recebem a Palavra, a preparar-se com santa expectativa para o Dia do Senhor e atividades dominicais.

Na semana que vem, tanto os professores quanto os alunos, deveriam ir à Escola Dominical para participar da melhor aula de suas vidas. E mesmo quando o professor constatar que a aula foi falha, Deus derramará graça, verificando que o professor busca fazer a obra divina com excelência. E após a avaliação da aula da semana anterior, o professor se dedicará à aula da semana seguinte. E ele se esforçará ao máximo, para que a próxima aula seja a melhor aula de sua vida.

Minha oração é que esta oficina seja útil aos irmãos e irmãs que, toda semana, labutam no ministério glorioso do ensino da Palavra de Deus. Vamos orar.

Este conteúdo é parte de uma oficina ministrada no 4º Congresso Nacional de Educação Cristã da IPB: Educação Que Transforma, realizado de 21 a 24/04/2016, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e no Congresso Regional de Educação Cristã, realizado de 26 a 27/05/2017, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, no Rio de Janeiro.

PDF da apostila e slides

Notas

[1] BUTT, Graham. O Planejamento de Aulas Bem Sucedidas. São Paulo: SBS Special Book Services Livraria, 2006, p. 15. (Série Expansão).

[2] Deus Pai nos abençoa “com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3). Estas bênçãos são comunicadas a nós pelo Espírito Santo, cumprindo a promessa de Ezequiel: “Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis” (Ez 36.27; cf. 2Co 3.3; Jo 14.16-17; Rm 5.5; 8.14; 1Co 2.10-13; Gl 5.5, 18).

[3] Packer afirma que “ortodoxia é “o equivalente em português da palavra grega orthodoxia (de orthos ‘certo’, e doxa, ‘opinião’), o que significa crença correta” (PACKER, J. I. Ortodoxia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova,1990, p. 70. v. 3 N — Z, apud NASCIMENTO, Misael. O Valor e os Limites da Ortodoxia. In: Somente Pela Graça. Disponível em: <http://www.misaelbn.com/o-valor-e-os-limites-da-ortodoxia/>. Acesso em: 22 mai. 2017.

[4] O protagonista vivido por Johnny Depp, da série de filmes Piratas do Caribe.

[5] ADLER; VAN DOREN. Como Ler Livros: O Guia Clássico Para Leitura Inteligente. São Paulo: Realizações editora Ltda., 2011, p. 37. (Coleção Educação Clássica).

[6] ADLER; VAN DOREN, op. cit., p. 38-40.

[7] BAUER, Susan Wise. Como Educar Sua Mente: O Guia Para Ler e Entender Os Grandes Autores. São Paulo: É Realizações, 2015, p. 35-36. (Educação Clássica). Bauer cita HIGGINSON, Thomas Wentworth. Books Unread, in Atlantic Monthly (1904).

[8] MATEMÁTICA DIDÁTICA. Equação do Segundo Grau. Disponível em: <http://www.matematicadidatica.com.br/EquacaoSegundoGrau.aspx>. Acesso em: 20 Abr. 2016.

[9] BUTT, op. cit., p. 43. Grifo nosso.

[10] Ibid., p. 15.

[11] GRIGGS, Donald L. Manual do Professor Eficaz. 5. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 7.

[12] GRIGGS, op. cit., p. 8.

[13] Cf. AUSUBEL, David. Educational Psychology: A Cognitive View. Canada: Holt, Rinehart & Winston of Canada Ltd., 1968. O Dr. Florêncio explica que “a ideia central da teoria de Ausubel é o que ele descreve como aprendizagem significativa […]. Para Ausubel, a essência do processo de aprendizagem significativa é que novas ideias, conceitos e proposições simbolicamente expressas sejam relacionadas de maneira não arbitrária e substantiva (não literal) ao que o aprendiz já conhece, isto é, a algum aspecto relevante existente na sua estrutura de conhecimento”; cf. FLORÊNCIO JÚNIOR, José. Planejamento de Ensino. Brasília: Faculdade Teológica Batista de Brasília, 1997, p. 6. Apostila não publicada. Daí a ideia do professor como um hub que conecta o conteúdo à realidade e pessoa do aluno.

[14] Mesmo quando o autor não menciona a Bíblia explicitamente, o professor deve “cavar” a biblicidade do conceito ou proposta de ação existente no texto (entendamos que, via de regra, a verificação de biblicidade do livro adotado é feita pelo pastor, superintendente ou coordenação de educação da igreja).

[15] DORIANI, Dan. A Verdade na Prática. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 13.

[16] DORIANI, op. cit., p. 97-113.

[17] Ibid., p. 99-100.

[18] Ibid., p. 100-101.

[19] Ibid., p. 101-103.

[20] Ibid., p. 103-104.

[21] Ibid., p. 104-106.

[22] Ibid., p. 106-108.

[23] Ibid., p. 108-109.

[24] Ibid., p. 113-141.

[25] Ibid., p. 143-183.

[26] Sobre estes exercícios e avaliações, cf. MORALES, Pedro. Avaliação Escolar: O Que É, Como se Faz. São Paulo: Edições Loyola, 2003; JACOBS, George M.; GOH, Christine C. M. O Aprendizado Cooperativo na Sala de Aula. São Paulo: SBS Special Book Services Livraria, 2008. (Portfolio SBS: Reflexões Sobre o Ensino de Idiomas; 14). Uma ferramenta online útil e gratuita para elaboração de atividades pedagógicas pode ser acessada em DISCOVERY EDUCATION. Free Puzzlemaker. Disponível em: <http://www.discoveryeducation.com/free-puzzlemaker/>. Acesso em: 20 Abr. 2016. Eu sou muito grato à irmã e dedicada educadora, Maria Aparecida da Silva, que me apresentou este site em 2001.

[27] BUTT, op. cit., p. 15–16.

[28] Ibid., p. 31.

[29] Ibid., p. 34.

[30] Ibid., loc. cit.

[31] Ibid., p. 35.

[32] Ibid., p. 35–48.

[33] Ibid., p. 42. Grifo nosso.

[34] Ibid., p. 44.

[35] Ibid., p. 45–46.

[36] Ibid., p. 46.

[37]BUTT, ibid., p. 36–41 fornece seis modelos de planos de aula.

Leituras recomendadas

ADLER; VAN DOREN. Como ler livros: O guia clássico para leitura inteligente. São Paulo: Realizações editora Ltda., 2011. (Coleção Educação Clássica).

AUSUBEL, David. Educational psychology: A cognitive view. Canada: Holt, Rinehart & Winston of Canada Ltd., 1968.

BAUER, Susan Wise. Como educar sua mente: O guia para ler e entender os grandes autores. São Paulo: É Realizações, 2015. (Educação Clássica).

BUTT, Graham. O planejamento de aulas bem-sucedidas. São Paulo: SBS Special Book Services Livraria, 2006. (Série Expansão).

DISCOVERY EDUCATION. Free puzzlemaker. Disponível em: <http://www.discoveryeducation.com/free-puzzlemaker/>. Acesso em: 20 Abr. 2016.

DORIANI, Dan. A verdade na prática. São Paulo: Cultura Cristã, 2007.

DUARTE, Nancy. Slide:ology: A arte e a ciência para criar apresentações que impressionam. São Paulo: Universo dos Livros, 2010.

FLORÊNCIO JÚNIOR, José. Planejamento de ensino. Brasília: Faculdade Teológica Batista de Brasília, 1997, p. 6. Apostila não publicada.

GRIGGS, Donald L. Manual do professor eficaz. 5. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

HATTIE, John. Aprendizagem visível para professores: Como maximizar o impacto da aprendizagem. Porto Alegre: Penso, 2017.

JACOBS, George M.; GOH, Christine C. M. O aprendizado cooperativo na sala de aula. São Paulo: SBS Special Book Services Livraria, 2008. (Portfolio SBS: Reflexões Sobre o Ensino de Idiomas; 14).

LEMOV, Doug. Aula nota 10: 49 técnicas para ser um professor campeão de audiência. São Paulo: Da Boa Prosa: Fundação Lemann, 2011.

MATEMÁTICA DIDÁTICA. Equação do Segundo Grau. Disponível em: <http://www.matematicadidatica.com.br/EquacaoSegundoGrau.aspx>. Acesso em: 20 Abr. 2016.

MORALES, Pedro. Avaliação escolar: O que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

REYNOLDS, Garr. Apresentação zen: Ideias simples de como criar e executar apresentações vencedoras. 2. ed. revisada. Rio de Janeiro: Alta Books, 2010.

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One Response to Como preparar estudos bíblicos a partir de livros [2017]

  1. Lucas Tarrasco 24 de janeiro de 2017 at 2:46 #

    Que excelente aula, pastor. Estou no aguardo do áudio. Abraços.

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