Confessionalidade na cultura da diversidade

Como ser cristão confessional na cultura da diversidade?

Neste texto, “confessional” significa apegado às confissões doutrinais e, por conseguinte, éticas do Cristianismo que deflui da Reforma Protestante do século 16. Os cristãos reformados abraçam os credos ecumênicos (apostólico, niceno-constantinopolitano e atanasiano), a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster, a Primeira e Segunda Confissões Helvéticas, o Catecismo Belga, o Catecismo de Heidelberg e, mais recente, a Declaração de Cambridge. Incluo também, como “confessionais”, os que abraçam o novo calvinismo holandês preconizado por Herman Bavinck, Geerhardus Vos, Abraham Kuyper, Herman Dooyeweerd e Henderik Rookmaaker, e guardadas as devidas proporções, atualizado por Francis Schaeffer[1] e Nancy Pearcey. Tais confissões e proponentes formularam uma maneira de ler e interpretar a realidade consistente com a Bíblia e com as ciências e a cultura (com a vida prática). Minha convicção é de que, devidamente aplicado, este modo bíblico de lidar com as coisas que existem, abre espaço para a interação edificante com a diversidade.

Mas como entender diversidade?

O vocábulo “diversidade” identifica duas ênfases da cultura contemporânea: O reconhecimento do impacto das visões de mundo darwinistas, marxistas e freudianas e, em segundo lugar, as discussões e mobilizações sobre gênero (e isso inclui tanto o feminismo quanto as abordagens correntes sobre múltiplas sexualidades e formatos alternativos de família), raça, etnia e tolerância religiosa. Respeitar diversidade significa dialogar respeitosamente com estas perspectivas, não apenas evangelística ou apologeticamente, mas reconhecendo, no âmbito de uma sociedade democrática, seu direito de existir, mesmo identificando-as como contrárias à doutrina e moral — à visão de mundo confessional — do Cristianismo bíblico.

As visões de mundo darwinistas, marxistas, freudianas, bem como as discussões e mobilizações sobre gênero, raça, etnia e tolerância religiosa têm direito de existir? Colocando de modo mais claro: Será que o não cristão e até o anticristão têm direito de existir?

Cristãos respondem a estas questões de diferentes maneiras. Há os que sugerem o estabelecimento de uma sociedade cristã, purificada de todo resquício de idolatria ou impiedade. Evocando Salmos 2.9 e Apocalipse 12.5, é possível alardear que chegou o tempo de Jesus “dominar as nações com vara de ferro” e esforçar-se para “eliminar” da cultura todo e qualquer traço anticristão.[2]

Projetos semelhantes já foram implementados, mas não podemos dizer que o mundo se tornou, de fato, mais cristão (o contrário parece ser verdadeiro). Quanto mais a igreja “bateu” no mundo, mais o mundo odiou a igreja, e Cristo, a quem ela representa. Eu corro o risco de receber tomatadas e até ser rotulado como pró-cultura contemporânea anticristã. Quem me conhece sabe que eu sou pró-cultura contemporânea, mas discordo absolutamente de suas proposições anticristãs. Mesmo assim, insisto em que a história registra o fracasso ou, no melhor dos casos (por exemplo, Genebra nos tempos de Calvino), a descontinuidade e desvirtuação de longo prazo de todo projeto de sociedade cristã. Creio que devemos trabalhar para que o máximo da “Cidade de Deus” já possa ser vislumbrado o presente, mas me parece que seu estabelecimento definitivo só ocorrerá além, na parusia ou volta de Cristo.

Outra opção é a da redoma, afirmar que a cultura é não apenas doente, mas infecta aos que a tocam. Nessa moldura, evitar a infestação se torna mais importante do que agir para curar a enfermidade (ou, na pior das hipóteses, ao menos amparar os enfermos). O procedimento-padrão dos habitantes da redoma é se afastar a fim de não se contaminar, agradecendo a Deus pelo “privilégio” de não ser como “os de fora”. Esse paradigma produzir os santos eremitas, a fuga monástica e algumas denominações fundamentalistas.

Uma maneira melhor de responder às questões acima, é com ortodoxia amadurecida. “De modo geral, ortodoxia deriva de ‘orthos ‘certo’, e doxa, ‘opinião’ e significa crença correta”.[3] Uma definição mais detalhada é fornecida por McGrath:

Termo empregado com diversas acepções, dentre as quais as mais importantes são: (a) “doutrina correta”, em oposição a heresia; (b) forma de cristianismo dominante na Rússia e na Grécia; (c) corrente que surgiu no seio do protestantismo, sobretudo no final do século 16 e início do século 17, e que destacava a necessidade da definição doutrinária.[4]

A essas definições, que não são isentas de problemas, eu adiciono que “ortodoxo” equivale a “confessional”, conforme acima.[5]

Ao adjetivar a ortodoxia como “amadurecida”, eu insinuo que existe uma ortodoxia bíblica, sincera e apaixonada que, em razão e seu infantilismo e precipitação, presta um desserviço à própria ortodoxia. Na verdade, os infantis dos dois lados (cristão e não ou anticristão) são extremamente irritantes. São hábeis em espernear e rotular, mas pobres em contribuir construtivamente nos debates dos quais participam. E quando os dois lados são infantis não há sequer debate, apenas rotulagens, acusações e atualizações da Teoria do Medalhão, de Machado de Assis, ou de Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, de Schopenhauer. Lutero e Calvino, porém, eram ortodoxos amadurecidos. Venciam oponentes em um debate com ideias claras e conhecimento de causa; citavam fontes com propriedade. E faziam isso de tal modo que, no fim das discussões, atraíam pessoas para o Cristianismo bíblico reformado. O Rev. Dr. Allen Curry disse certa feita que “se queremos atrair abelhas, temos de usar mel”. Esta é a fala de um ortodoxo amadurecido.

Isso posto, ortodoxia amadurecida consiste em assumir, na prática, uma das facetas daquilo que os cristãos reformados intitulam Doutrina da Providência. De acordo com esta doutrina, o não cristão e até o anticristão têm não apenas o direito de existir, mas também, como dizia Turretini, a necessidade. Em outras palavras, o drama da história exige tanto Nabucodonosor, o opressor, quanto Ciro, o libertador; tanto Francisco de Assis, o pacifista, quanto Che Guevara, não afeito à paz. Se Pilatos reconhecesse Jesus como Senhor na manhã de sexta-feira, ou os imperadores romanos dos dois primeiros séculos da era cristã se convertessem, não haveriam a crucificação de Jesus, nem a era gloriosa dos mártires. Em suma, dos pontos de vista histórico e teológico, sem a oposição do ateísmo e paganismo, não haveria Cristianismo.

Ademais, a ortodoxia amadurecida abraça a escatologia do Novo Testamento. Por mais estranho e desconfortável que isso possa soar, os que confessam o Cristianismo bíblico entendem que as almas dos inconversos não são destruídas; eles continuarão contemplados pelo direito de existir, mesmo depois do Juízo Final.[6]

Por fim, a ortodoxia amadurecida abraça a teologia pactual. Se o novo calvinismo holandês estiver certo (e eu entendo que está), o cristão é agente (vice-gerente) de Deus na história, comprometido a se relacionar, em nome de Deus, com tudo o que existe. Daí, se as visões de mundo darwinistas, marxistas, freudianas, bem como as discussões e mobilizações sobre gênero, raça, etnia e tolerância religiosa existem, o cristão tem de interagir com elas em nome e no espírito de Cristo.

Eis alguns desdobramentos práticos disso.

Primeiro, as visões de mundo darwinistas, marxistas e freudianas (ou quaisquer outras), bem como as discussões e mobilizações sobre gênero, raça, etnia e tolerância religiosa, existem e são, de fato, abstrações propostas por entes materiais, gente de carne e osso que, no exercício de sua humanidade e cidadania, reivindicam o que consideram pertinente, dentro das possibilidades de um sistema democrático racional e legal.

Segundo, o cristão amadurecido na ortodoxia, membro consciente de uma democracia, não se escandaliza com a existência do diferente. Ele sabe que, desde Gênesis 3-4, pluralidade implica na existência de pessoas e postulados contrários ao Deus bíblico.

Terceiro, mesmo criado no judaísmo, Paulo teve contato com a cultura e literatura dos pagãos.[7] Isso o tornou apto a compreendê-los e comunicar o evangelho em categorias de linguagem e pensamento pertinentes a eles. Esse ato, de se colocar no lugar do outro a fim de ministrar ao coração, remonta ao ministério do próprio Jesus. Se isso é assim, quantos cristãos bíblicos, que discordam de Darwin, Marx e Freud, conhecem, de fato, estes autores? Quantos cristãos bíblicos, que se fecham a quaisquer discussões e mobilizações sobre gênero, raça, etnia e tolerância religiosa, conhecem, de fato, o que está sendo proposto?

Em quarto lugar, o que os cristãos poderiam recomendar, sem prejuízo à sua visão de mundo, ortodoxia e moralidade bíblicas, para gerar um consenso razoável? Certamente não se pode esperar um diálogo sempre gentil entre discordantes (isso é impossível até mesmo na convivência conjugal e familiar). A ideia de um debate sempre gentil é ilógica (pois enfrentar equivale a arrostar, bater de frente e afrontar) e desinteressante (ninguém paga ingresso para ver dois lutadores de artes marciais mistas — MMA — trocando elogios). E a proposição de embate de ideias sem risco, é historicamente desonesta; ideias que vale a pena debater não florescem nem frutificam em ambientes confortáveis. Historicamente, defendê-las implica na possibilidade de pagar determinado preço, nos termos do poema de Lutero: “Se temos de perder família, bens, prazer; se tudo se acabar e a morte enfim chegar, com ele reinaremos!” (Hino Castelo Forte). Se uma ideia não produz tal empuxo, não vale a pena ser defendida ou debatida.

Dito de outro modo, não é de estranhar que as colisões entre o Cristianismo bíblico e as visões a ele contrárias sejam deselegantes, duras e, quem sabe, até mortais; o ódio disposto a violências, existente entre determinadas torcidas de times de futebol, tem seu similar nas disputas religiosas e ideológicas. A história continuará registrando esta divisão e choque entre apoiadores de outros sistemas (Apocalipse 13) e os seguidores do Cordeiro (Apocalipse 14.1-5). Mesmo assim, cristãos de sociedades democráticas podem se esforçar mais para encaminhar um diálogo construtivo, empenhando-se pela paz possível (cf. Sl 34.14; Rm 12.17-18).

A paz possível requer, por sua vez, a capacidade de aceitar algo de que se discorda, em uma escala menor, a fim de preservar aquilo com o qual se concorda, em uma escala maior. Por exemplo, o cristão pode não concordar com determinadas doutrinas ou religiões, mas aceita que elas tenham seu espaço de atuação, pois concorda com as leis que asseguram ao cidadão liberdade religiosa. A igreja pode discordar de uma manifestação pública em defesa de crenças e valores contrários à fé cristã, mas ainda assim tolerá-la, por entender que aos cidadãos em geral, é assegurado o direito de se ajuntar, pacificamente, para manifestar-se sobre o que julgam importante. Semelhantemente, em uma escola cristã confessional, abre-se espaço para que professores e alunos expressem pontos de vista dissonantes da ortodoxia cristã, assegurando-se a liberdade para que os cristãos afirmem sua compreensão das coisas pela ótica da Bíblia.

Isso exige, em quinto lugar, a capacidade de caminhar em tensão, compreendendo esta última não apenas como normal, mas até desejável. De fato, como eu afirmo em outro lugar, uma das maneiras de entender a ortodoxia é considerá-la “responsiva”, desenvolvida como resposta aos ensinos heterodoxos.[8] Olson está correto ao afirmar que “é quase impossível apreciar o significado da ortodoxia sem entender as heresias que a forçaram a se definir. […] A fim de compreender corretamente o dogma ortodoxo da Trindade, é necessário entender os ensinos de Ário de Alexandria”.[9] Semelhantemente, a primeira lista dos livros canônicos do Novo Testamento a que temos acesso, foi escrita em resposta à proposta de cânon de Marcião. Dito de outro, a ortodoxia é fortalecida no enfrentamento de ideias.

Notas

[1] Se por um lado Francis Schaeffer deu origem à direita cristã (Estados Unidos), por outro, a direita cristã extrapolou Schaeffer em diferentes frentes, especialmente em sua ênfase anti-intelectual e indisposição em dialogar (respeitosamente) com os diferentes.

[2] Este anseio protestante, de aplicação da lei divina na sociedade civil, é denominado teonomismo. Em alguns segmentos do lslamismo, há quem deseje estabelecer a lei do Corão (charia), como reguladora da vida comum.

[3] PACKER, J. I. Ortodoxia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova,1990, p. 70. v. 3 N — Z, apud NASCIMENTO, Misael. O Valor e os Limites da Ortodoxia (VLO). In: NASCIMENTO, Misael. Somente Pela Graça. Disponível em: <>. Acesso em: 17 mar. 2017.

[4] McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 656.

[5] Uma das dificuldades deste enquadramento é o fato de que cada grupo religioso se considera ortodoxo e, ao mesmo tempo, declara que herege é o outro. Cf. NASCIMENTO, op. cit., loc. cit.

[6] Este autor considera o aniquilacionismo doutrina heterodoxa.

[7] Paulo é o equivalente à pessoa “nascida e criada” em uma igreja, que tem contato com o modo de pensamento dos não crentes, sem abrir mão de sua fé e valores bíblicos.

[8] NASCIMENTO, op. cit., loc. cit.

[9] OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 21.

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