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O fundamento da vida na luz

[14] Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, [15] de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, [16] para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; [17] e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, [18] a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade [19] e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.
[20] Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, [21] a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém! Efésios 3.14–21.

Sermão pregado no Encontro da Fé Reformada (Rio Preto) 2012, em 08/11/2012, às 20h30.

Introdução

Um indivíduo que combate o mal estando nas trevas. Não luz que brilha nas trevas, mas alguém que luta contra as trevas estando imerso nelas. Alguém que busca fazer o bem sendo ele mesmo o Cavaleiro das Trevas. Esse é o tema central ou núcleo de argumentação da trilogia Batman: O Cavaleiro das Trevas. Tal enredo exerce grande fascínio e atraiu, ao longo dos anos, milhões de pessoas para os cinemas do mundo inteiro, todas desejosas de saber de que modo seria executada a história originalmente publicada em quadrinhos.[1] É intrigante esta nota: Alguém que faz o bem mergulhado nas trevas; alguém que luta contra as trevas não como luz, mas cooptado por elas.

Parece-me que esta é a situação atual de alguns líderes e pastores. Gente de Deus que em determinado momento de sua vida sentiu-se chamado para assumir um cargo na igreja, ou trabalhar como evangelista em um campo missionário, ou como pastor em uma igreja local ou denominação. Gente empenhada na máquina e corpo militante da religião, aconselhando casais em crises, auxiliando viciados, dirigindo adoração, esclarecendo pontos doutrinários, motivando desanimados, aplicando disciplina ou trabalhando em administração da igreja. Gente que, enfim, entende que contribui com a luta contra o mal, mas cujo coração está sendo gradativamente engolido pelas trevas. Líderes esgotados, que não têm prazer na presença de Deus e que são corroídos pela vileza interior — que sabem que lá, “debaixo do tapete”, existe sujeira acumulada de anos. Gente que não se sente à vontade no “dia”, porque a alma foi cooptada pela “noite”.

É sobre isso que estamos aprendendo nesta semana. Eu gostaria de contribuir com tais meditações apontando para dois trechos da carta de Paulo aos Efésios. Se nosso Senhor permitir, eu fornecerei leituras simples seguidas de algumas aplicações que considero úteis. Eu convido você a participar destas leituras.

O primeiro texto é Efésios 3.14-21. Aqui encontramos uma oração do apóstolo Paulo em favor dos efésios. Alguns estudiosos entendem que as palavras dos v. 14-15 completam o v. 1.[2] Para outros, esta oração é semelhante à prece anterior, registrada no primeiro capítulo.[3] Eu chamo sua atenção para o conteúdo desta oração.

Antes de olharmos para este galho de árvore específica — Efésios 3.14-21 — temos de nos afastar um pouco a fim de obter uma visão da floresta inteira. Se queremos compreender este tema da caminhada na luz, é útil olharmos rapidamente para a criação.

Qual é a primeira palavra de Deus registrada na Bíblia? “Haja luz; e houve luz” (Gn 1.3).[4] O Criador “viu” que a luz era boa e bela (Gn 1.4).[5] Deus cria coisas boas e belas porque, em essência, ele é bom. Deus ainda separou a luz das trevas (Gn 1.4). Isso foi feito no “primeiro dia”, (Gn 1.5). A luz foi criada como elemento fundamental para o florescimento de toda a vida posterior e início de todo o processo organizativo de Deus (tabela 01).

Luz no contexto da criação
Para toda a criação; fundamental para o florescimento e manutenção da vida

Tabela 01. A luz como fundamento da vida

E não apenas isso. Notemos a ideia geral da Bíblia sobre caminhar na luz a partir da queda. Os autores bíblicos meditaram nas “diferenças fenomenológicas entre o dia e a noite e a natureza reveladora do dia/luz comparado à natureza da noite/trevas, que é oculta e induz ao terror”.[6] A partir de então a realidade marcada pelos sinais da depravação passou a ser descrita como carente de luz e identificada com as trevas.

Em Jó 24.13, lemos que “os perversos são inimigos da luz, não conhecem os seus caminhos, nem permanecem nas suas veredas”. A luz é desprezada por correlacionar-se ao próprio Deus. Não conhecer os caminhos da luz significa não conhecer os caminhos de Deus; não permanecer nas veredas da luz significa não permanecer nas veredas de Deus.

Uma evidência de que algo muito ruim aconteceu — de que a queda provocou grande estrago no cumprimento dos mandatos da criação — encontra-se na constatação de Jó: “a luz,[7] dizem, está perto das trevas” (Jó 17.12). Resumindo, após a queda, a “luz” está ausente ou obscurecida; os homens maus a rejeitam e preferem as trevas (tabela 02).

Luz no contexto da queda
A luz é ausente ou obscurecida; as trevas aparentemente dominam

Tabela 02. A luz inexistente e o pretenso domínio das trevas

Daí, caminhar na luz pode ser entendida sob a ótica da redenção. Em Jó 18.5, “luz” é usada como sinônimo da vida em si.

Davi primeiro descreve “luz” como equivalente ao brilho ou glória de Deus, em cuja comunhão ocorre o conhecimento do bem: “Há muitos que dizem: Quem nos dará a conhecer o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz do teu rosto” (Sl 4.6). Em Salmos 18.28 — um Salmo cujas ideias repercutem em diversas partes da carta de Paulo aos Efésios — o mesmo Davi descreve sua libertação do poder dos adversários como um derramamento de luz:[8] “Tu, Senhor, és a minha lâmpada; o Senhor derrama luz nas minhas trevas”.

As ideias acerca da luz do AT imbricam cada vez mais na expectativa messiânica. Isaías profetizou ao povo angustiado de seu tempo:

[1] Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas, nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. [2] O povo que andava em trevas viu grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz (Is 9.1–2).

Todas essas expectativas foram cumpridas na pessoa e obra de Cristo. Mateus relaciona a mudança de Jesus para Cafarnaum com o cumprimento da profecia de Isaías 9 (cf. Mt 4.12-16). Revelações importantes são fornecidas por João: “A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo 1.4). O Redentor traz luz que vence as trevas: “A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1.5). Em plena celebração da festa das cabanas — na qual toda uma liturgia centrada na ideia da luz era celebrada — nosso Senhor afirmou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8.12).

Na primeira criação a luz surgiu pela palavra divina. Na nova criação não é diferente: “Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2Co 4.6). Em Cristo nós somos “luz do mundo” (Mt 5.14-16) e nos diferenciamos daqueles que amam as trevas ao nos comprometermos com a prática da verdade (Jo 3.19–21).

A partir de sua herança judaica, eis como Paulo provavelmente entendia luz e trevas:

A luz origina-se de Deus e está associada a ele, enquanto as trevas estão associadas ao inimigo, Satanás. O mundo está nas trevas até que a luz do evangelho penetre e os que estão “em Cristo” se transformem de filhos das trevas em filhos da luz e vivam no “dia”, não na “noite”.[9]

Resumindo, os inconversos estão em trevas; o povo de Deus comunga com ele que é luz, por meio de Cristo, que é luz. O brilho da luz de Deus nos crentes os livra do poder do pecado e de Satanás e os torna luz do mundo (tabela 03).

Luz no contexto da redenção
Deus é luz. Luz é vida. Andar na luz é andar em comunhão com Deus que santifica. Luz derramada: Livramento do poder dos adversários.
Temos comunhão com Deus, que é luz, por meio de Cristo, luz do mundo. Deus resplandece em nossos corações e livra-nos do poder do pecado e de Satanás. Somos feitos luz do mundo.

Tabela 03. A luz no contexto da redenção

Agora olhamos para a carta de Paulo aos Efésios. O trecho que lemos situa-se em sua primeira grande divisão, que trata da criação de uma nova humanidade.[10] Somente esta nova humanidade pode caminhar na luz. Por quê? O que opera no novo homem, capacitando-o a caminhar na luz? O que nos mantém firmes na luz? Nós somos estabelecidos e mantidos no caminho da luz a partir de nossa percepção e participação em duas coisas:

I Nós caminhamos na luz graças à obra do Espírito

[14] Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, [15] de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, [16] para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; [17] e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, [18] a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade [19] e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.

Paulo orou para que os crentes de Éfeso fossem “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior” (v. 16). Isso indica que nós caminhamos na luz graças à obra poderosa do Espírito. O modo como Paulo fez isso é digno de nota. De acordo com Martin, “ajoelhar-se para orar, era sinal de grande urgência e angústia”.[11] Outro estudioso coloca a questão do seguinte modo:

Aqui vemos Paulo se prostrando diante de Deus, de joelhos até a cabeça encurvada até o chão, como alguém que presta reverência e leva uma questão de extrema importância a um rei poderoso (a posição mais comum para a oração era em pé).[12]

Acerca do andar do cristão na luz, Paulo está nos indicando que sua origem é o “Pai” (v. 14) e que só podemos andar na luz por pura graça: “segundo a riqueza da sua glória, vos conceda” (v. 16).[13] O efeito desta obra no cristão é o fortalecimento interior poderoso (v. 16), de modo que sejamos “tomados de toda a plenitude de Deus” (v. 19). A palavra traduzida por plenitude é πλήρωμα, plērōma, e denota completude. Este vocábulo é usado por Paulo aqui e na carta aos Colossenses. Nas palavras de Ridderbos, a igreja é:

[…] (a área ou domínio) enchida por ele. […] Enquanto, por um lado, é dito sobre Cristo que ele enche todas as coisas (com sua poderosa presença) (Ef 1.23; 4.10), ainda assim a igreja pode ser chamada de seu pleroma num sentido específico, como o domínio que foi cheio e a ser preenchido cada vez mais por ele (Ef 1.23; 3.19; 4.13; Cl 2.10).[14]

O agente desta obra é o Espírito Santo: “mediante o seu Espírito” (v. 16). O Espírito é o executivo da Trindade. Ele procede do Pai e do Filho. Ele torna as promessas do evangelho experienciais para nós. Comentando este v. 16, João Crisóstomo afirmou que se trata de um fortalecimento “contra as tentações”[15] e prosseguiu: “Efetivamente, não há outro recursos de nos fortificarmos senão através do Espírito e das provações”.[16] Então ele concluiu: “Por conseguinte, são necessárias grandes forças”.[17]

Sendo assim, respondamos: Qual tem sido a nossa fonte de energia para o enfrentamento dos embates diários? Paulo está orando; ponto. E ele está orando fervorosamente, ao Pai, pelo Espírito. Algo deve tornar-se concreto na história: Fortalecimento interior. Os crentes precisam estar prontos para a luta descrita no capítulo 6. Obra do Espírito; poder do Espírito agindo de dentro para fora nos eleitos de Deus. Sem o Espírito Santo os crentes fracassam porque, em primeira instância, sem o Espírito Santo não haveria sequer crentes, quanto mais, crentes andando na luz.

Então você é um líder espiritual, um evangelista, missionário ou pastor. E você lida com crises conjugais, vícios cimentados, indisposição para a adoração, confusão mental diante da Bíblia, desânimo, racionalização, vitimização, pecados enraizados e nós administrativos. Mal; trevas que se espalham sorrateiramente alcançando mentes e corações do povo querido ao qual você foi chamado a servir. É alta madrugada e você coloca a cabeça no travesseiro; o coração traspassado de preocupação porque parece que Cristo não está sendo formado nos crentes (cf. Gl 4.19). E daí, você pensa em seu cônjuge e seus filhos que tiveram tão pouco de você naquele dia. Será que eles continuarão amando ao Senhor e à igreja? Você angustia-se, chora, ora e dorme pouco.

Um dia de 24 horas não é suficiente. Você acorda de madrugada porque tem de orar, ler, estudar e meditar. Daí você enfrenta três expedientes. Pronto pela manhã. Em meio a duros embates sob o calor da tarde. Lidando com questões de vida ou morte à noite. Segundo após segundo sendo alvo de conspiração — seu nome sendo citado nos corredores da igreja e nas regiões celestiais.

David Brainerd recomendou a seu irmão missionário que cuidasse de sua saúde, que não se desgastasse exageradamente no trabalho. Mas o próprio Brainerd se desgastou e, como afirma seu biógrafo:

Ele era excessivo em seus labores, não levando em conta a devida proporção entre a sua própria fadiga e as suas forças. De fato, os aparentes chamados da Providência, eram, por muitas vezes, extremamente difíceis, levando-o a labutar acima de suas forças.[18]

Como cuidar de si mesmo? Como lidar com todas essas demandas? A questão levantada por Paulo em 2Coríntios 2.16 se encaixa com perfeição aqui: “Quem, porém, é — ἱκανός, hikanos, “intenso”, “adequado” ou — suficiente para estas coisas?”. E a resposta é: Você não é suficiente meu caro. Na verdade, há muitas coisas em nós que seriam verdadeiros empecilhos, se a obra dependesse exclusivamente de nós:

Esta é a palavra do Senhor a Zorobabel [e também ao Misael e ao Jaime Marcelino e a todos os líderes aqui presentes]: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos (Zc 4.6).

Uma benesse divina; a concessão do Espírito; a obra do Espírito; o poder do Espírito. Fortalecimento do homem interior; mover-se pelo poder da ressurreição; servir no poder de Deus.

Eis o primeiro ponto. Nós caminhamos na luz graças à obra do Espírito. Mas não apenas isso. O que Paulo diz é apenas a outra faceta de uma verdade por demais sublime.[19] Em segundo lugar…

II Nós caminhamos na luz desfrutando do evangelho

[14] Por esta causa, me ponho de joelhos diante do Pai, [15] de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, [16] para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; [17] e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, [18] a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade [19] e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.

Paulo orou para que os crentes efésios desfrutassem de Cristo. Isso indica que nós caminhamos na luz desfrutando do evangelho. A principal obra do Espírito no pacto da redenção é o desvendamento e a aplicação, no coração dos eleitos, do amor de Cristo nos termos do evangelho.

Acerca do andar do cristão na luz, seu fundamento é Cristo habitando em nós, “pela fé”; nós enraizados e alicerçados em amor (v. 17); “conhecer” e continuar conhecendo; desfrutar e continuar desfrutando do “amor de Cristo, que excede todo entendimento” (v. 19).

Os termos do v. 18 — “largura”, “comprimento”, “altura” e “profundidade” — não devem gerar especulações vãs. Crisóstomo mais uma vez nos socorre explicando o seguinte:

[…] conhecer de modo apurado o mistério dispensado em nosso favor. A este fato dá o nome de largura e comprimento, profundidade e altura, isto é, o conhecimento da intensidade do amor de Deus, que se estende por todos os lugares.[20]

Isso reforça o ponto anterior. Alguém já disse que “o Senhor que em nós habita é a certeza da força moral do crente (Fp 4.13)”.[21]

Olhemos mais de perto para os resultados enunciados pelo apóstolo:[22] Os crentes são arraigados — eles se tornam como plantas devidamente estabelecidas. Eles são “fundados (do verbo themelioō; cf. o substantivo grego themelios, que significa fundamento, em 2.20)”. Este vocábulo “é emprestado da linguagem arquitetural, e refere-se a uma base firme, sobre que repousa e se levanta uma superestrutura”. Eles são fundados no amor, “isto é, o amor de Deus pela igreja […] é tanto o solo em que a planta se agarra quanto a base firme em que se levanta o edifício”. Ridderbos resume muito bem o ensino paulino: “Pela mediação do Espírito, o amor de Deus, que foi evidenciado pela morte de Cristo, opera no coração dos seus”.[23]

Sendo assim, temos de responder a uma pergunta. Nós, que assumimos lideranças e ministério, nascemos de novo, fomos convertidos, dissemos não ao “fútil procedimento” de outrora (1Pe 1.18)? Temos Deus não apenas como o Deus, mas como meu Deus? Consideramos Cristo não apenas como o Senhor e o Salvador, mas como meu Senhor e Salvador? Dizemos do Espírito Santo não apenas que ele é a Terceira Pessoa da Trindade, mas que ele é o nosso Consolador? Esta é a primeira e principal questão para a caminhada na luz: Nascer da água e do Espírito.

Eis como Paulo expressou isso em Filipenses 3.8-11:

[8] Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo [9] e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; [10] para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; [11] para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos.

Por que a conversão é fundamental para andarmos na luz? Porque só a conversão torna Cristo não apenas digerível, mas delicioso e desejável a nós. Só a obra regeneradora de Deus implanta a lei divina em nossa alma; fazendo-nos cantar: “Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração; o mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos” (Sl 19.8).

Me deixe mostrar como é isso na prática, transcrevendo um registro do dia 28/11/1740, do diário de David Brainerd:

Na minha devoção noturna, apreciei preciosas descobertas sobre Deus e fui indizivelmente confortado pela passagem de Hebreus 12.22-24. Minha alma desejava alçar voo até ao paraíso de Deus; anelei conformar-me com Deus em todas as coisas. Um dia ou dois depois, muito me alegrei com a luz da face de Deus, na maior parte daquele dia; e minha alma descansou em Deus.[24]

Você consegue entender o que se passou ali? A experiência de um homem convertido. Prazer imensurável no desfrute do conhecimento do “amor de Cristo, que excede todo entendimento” (v. 19).

Então nós temos estas duas coisas — ou duas facetas de uma coisa só — pedidas pelo apóstolo Paulo nesta oração de Efésios 3.14-19. A operação do Espírito com poder no homem interior aplicando o evangelho é o fundamento de nossa caminhada na luz. Dito isto podemos concluir.

Concluindo…

A partir desta oração de Paulo em Efésios 3.14-19, eu proponho quatro afirmações simples e úteis:

Primeira, o fundamento da vida na luz é o evangelho.

Segunda, caminhamos na luz somente pela graça e no poder do Santo Espírito.

Terceira, caminhar na luz é desfrutar mais e mais do amor de Cristo. Usando a terminologia de Ridderbos isso equivale a, como habitação de Cristo, “sermos preenchidos cada vez mais por ele”.[25] Se quisermos expressar isso assumindo a linguagem do poeta:

Mais, mais de Cristo!
Mais, mais de Cristo!
Mais do seu puro e santo amor,
mais do bondoso Salvador.[26]

Quarta, o líder é gente que se esgota e precisa do evangelho. Não apenas na conversão. Todos os dias. O líder precisa voltar a beber da água limpa das Sagradas Escrituras; ele precisa de revitalização contínua. De tempos em tempos, o líder carece de visitações da graça bendita, confirmando-o no amor de Deus.

A igreja precisa entender isso e dar ao líder tempo e um contexto de graciosa mutualidade que lhe permita desfrutar dos meios de graça objetivos — a Palavra e os sacramentos — e subjetivos — a oração e a comunhão dos santos. Mais do que isso: O próprio líder precisa reconhecer essa necessidade. Como ouvimos nas mensagens sobre as bem-aventuranças, o líder precisa ser humilde e chorar diante de Deus, até ser restabelecido em pureza de coração. Ele tem de buscar ajuda todas as vezes que perceber, e seu coração, esmaecida a chama do evangelho.

Não é possível fazer o bem como Cavaleiro das Trevas. Muito mais do que um cinto de utilidades, nós precisamos de conversão e do poder do Espírito Santo. Caminhar na Luz Hoje é um chamado a uma aproximação; andar com o Senhor, amá-lo e servi-lo sincera e fervorosamente. Líderes espirituais não apenas indicam o caminho da luz; eles o trilham. Eles lideram pelo exemplo convocando as pessoas a seguirem a Cristo assim como eles mesmos já o seguem (1Pe 5.3; cf. 1Co 11.1).

Jesus liderou exemplificando, praticando, fazendo: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.15). Eis o padrão bíblico: Cristo liberta o líder, converte o líder e lhe dá o exemplo. O líder convertido segue a Cristo e a obra de Deus é realizada por este líder — os crentes caminham orientados por líderes que andam na luz (tabela 04).

Liderança espiritual
Cristo salva e dá o exemplo. O líder convertido segue a Cristo. A igreja é conduzida pelo líder que segue a Cristo.

Tabela 04. O modelo bíblico de liderança

E o líder, fortalecido no Senhor e tomado pela plenitude de seu poder, prorrompe em louvor sincero:

[20] Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, [21] a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

Notas

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[1] No filme Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, um herói decadente retoma seu lugar de combate ao crime em uma Gotham City também deteriorada. Apesar da tragédia envolvendo as vítimas de um assassino em Colorado, EUA, não houve queda de vendas de ingressos, favorecendo uma bilheteria recorde para esta obra que finaliza a trilogia do homem-morcego.

[2] MARTIN, Ralph P. Efésios. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, JUERP, 1985, p. 187. v. 11.

[3] Para João Crisóstomo, esta oração de Paulo é semelhante à de 1.17-19. Cf. CRISÓSTOMO, João. 1: Homilias Sobre a Carta aos Romanos; Comentário Sobre a Carta aos Gálatas; Homilias Sobre a Carta aos Efésios. São Paulo: Paulus, 2010, p. 730. (Coleção Patrística; 27/1). Cf. TURNER, Max. Efésios. In: CARSON, D. A. et al. (Ed.). Comentário Bíblico Vida Nova. São Paulo: 2009, p. 1856: “Paulo agora retoma e completa a frase interrompida no v. 1, e conduz à parte final do seu relato de oração que ele começou em 1.17. O tema aqui complementa o que foi dito até agora”.

[4] “Luz” é a tradução de אוֹר, ʾwr, um vocábulo que denota alvorada ou luz do dia. Na Bíblia Almeida Revista e Atualizada (ARA), “luz” também traduz יָלַד, yalad, “suportar”, “trazer”, na maioria das ocorrências, “dar à luz”, e.g., Gênesis 31.43; 34.1, passim.

[5] “Boa” traduz o vocábulo hebraico טוֹב, tob, que torna possível afirmamos o seguinte. O uso de טוֹב indica que este item da criação — a luz — possui as qualidades adequadas à sua natureza ou função. Cf. WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1987, p. 80: “Para ouvidos hebraicos a aprovação da parte do Criador soava também como se tivesse dito: ‘Deus viu que isso era belo’. As obras divinas estão revestidas de formosura”.

[6] BORCHERT, G. L. Luz e Trevas. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola, 2008, p. 809.

[7] Em todas estas passagens do AT, onde não é citada outra palavra, “luz” traduz אוֹר, de Gênesis 1.3-4.

[8] O termo נָגַהּ, nagah, transmite a ideia de “brilhar sobre” ou “iluminar”.

[9] BORCHERT, op. cit., loc. cit.

[10] Eis uma proposta de estrutura da carta aos Efésios: Introdução (1.1-2); a divina criação de uma nova humanidade (1.3—3.21); a vida terrena da nova humanidade (4.1—6.20); encerramento da carta (6.21-24).

[11] MARTIN, op. cit., p. 188.

[12] TURNER, op. cit., loc. cit.

[13] De acordo com Calvino, a piedade “não procede da capacidade do próprio homem. Pois assim como o princípio de todo bem procede do Espírito de Deus, assim também o desenvolvimento”. CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura: Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998, p. 100. Grifo nosso.

[14] RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: A Obra Definitiva Sobre o Pensamento do Apóstolo dos Gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 433.

[15] CRISÓSTOMO, op. cit., 730.

[16] Ibid., loc. cit.

[17] Ibid., loc. cit.

[18] EDWARDS, Jonathan. A Vida de David Brainerd. Reimp. 2012. São José dos Campos: Editora Fiel, 1993, p. 7. Grifos do autor.

[19] Martin entende que a prece possui um conteúdo duplo, pedindo pelo poder do Espírito Santo e invocando a habitação de Cristo. Estes dois conteúdos podem ser considerados como uma só graça “encarada de outro prisma”. Cf. MARTIN, op. cit., loc. cit.

[20] CRISÓSTOMO, op. cit., p. 730.

[21] MARTIN, op. cit., loc. cit.

[22] Esses detalhes são adaptados de MARTIN, op. cit., loc. cit.

[23] RIDDERBOS, op. cit., p. 250.

[24] EDWARDS, op. cit., p. 24. Grifos nossos.

[25] Cf. nota 14.

[26] HEWITT; E. E.; WRIGHT, H. M. Hino 135, “Mais de Cristo”. In: MARRA, Cláudio. (Ed.). Novo Cântico. 15ed. Reimp. 2007. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 121.

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Referências bibliográficas

BORCHERT, G. L. Luz e Trevas. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola, 2008.

CALVINO, João. Comentário à Sagrada Escritura: Efésios. São Paulo: Edições Paracletos, 1998.

CRISÓSTOMO, João. 1: Homilias sobre a carta aos Romanos; comentário sobre a carta aos Gálatas; homilias sobre a carta aos Efésios. São Paulo: Paulus, 2010. (Coleção Patrística; 27/1).

EDWARDS, Jonathan. A vida de David Brainerd. Reimp. 2012. São José dos Campos: Editora Fiel, 1993.

HEWITT; E. E.; WRIGHT, H. M. Hino 135, “Mais de Cristo”. In: MARRA, Cláudio. (Ed.). Novo cântico. 15ed. Reimp. 2007. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.

MARTIN, Ralph P. Efésios. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, JUERP, 1985. v. 11.

RIDDERBOS, Herman. A teologia do apóstolo Paulo: A obra definitiva sobre o pensamento do apóstolo dos gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

TURNER, Max. Efésios. In: CARSON, D. A. et al. (Ed.). Comentário bíblico Vida Nova. São Paulo: 2009.

WESTERMANN, Claus. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1987.

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2 Responses to O fundamento da vida na luz

  1. Ricardo Santana 19 de novembro de 2012 at 21:11 #

    Olá Misael,

    Reafirmo que foi muito bom os dias em Rio Preto.
    De fato, é um desafio andarmos na luz do Senhor em nossos dias, não somente por conta das afrontas das obras das trevas, mas por contas daquelas coisas que “se disfarçam como luz”.
    Que o Senhor nos guie a cada dia neste desafio e nos encomende em sua graça para que nos tornemos irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no mundo (Fp. 2.15).
    Pois somos filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas (1 Te. 5.5).

    Abraços a Mirian e Bruna!

    Fique na paz de Cristo,

    Ricardo Santana

    • Misael 27 de novembro de 2012 at 14:00 #

      Prezado Ricardo; quem bom que você foi edificado nestes dias. Eu também louvo a Deus pela oportunidade de tê-lo visto novamente. Um grande abraço.

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