O que é liderança cristã?

A Bíblia não nos fornece um conceito de liderança. A literatura atual sobre liderança revela duas vertentes. Uma delas afirma que “uma definição explícita [de liderança] não é necessária”.[1] Outra reúne dezenas de autores, cada um sugerindo seu próprio significado. Um autor respeitado sugere, por exemplo, que liderança é o “processo pelo qual um indivíduo influencia um grupo de indivíduos a atingirem um objetivo comum”.[2]. Para Blanchard et al: Liderança “é a capacidade de influenciar outros a liberar seu poder e potencial de forma a impactar o bem maior”.[3] Esta consideração diferencia-se das demais por sua ênfase na liberação do “poder e potencial” dos liderados e pela incorporação da ideia de “bem maior” que abrange não apenas os resultados da organização, mas “aquilo que é o melhor para todos os envolvidos”.[4] Distancia-se da noção ultrapassada de uso das pessoas para alcançar objetivos meramente institucionais e financeiros e abre um espaço para a realização do pleno potencial humano. O ponto a questionar é se tal conceito é, de fato, bíblico e, por conseguinte, cristão.

Primeiro, o que vem a ser o “bem maior”? Os cristãos podem responder afirmando que o “bem maior” é o próprio Deus. Essa identificação do “bem maior” com Deus seria bonita, mas inadequada à presente frase, pois significaria que liderança seria “influenciar outros a liberar seu poder e potencial de forma a impactar” Deus. Isso não coaduna com a perspectiva ortodoxa. O melhor é compreender o “bem maior” como o propósito de Deus. Deus tem uma deliberação bíblica para a sua igreja, de modo que liderança seria “a capacidade de influenciar outros a liberar seu poder e potencial de forma a impactar” ou alcançar ou realizar este propósito.

Surge, porém, um segundo problema, agora relacionado aos termos “poder” e “potencial”. Do ponto de vista da Escritura, por causa da queda, o “poder” e “potencial” do homem nem sempre são construtivos. Temos uma capacidade inata de deformar, deteriorar e piorar as coisas. Deixados às nossas próprias inclinações, produzimos dano (cf. as “obras da carne” em Gl 5.19-21). Sendo assim, o mais recomendado é pensar em “poder” e “potencial” como aquilo que podemos realizar pela graça de Deus — o que Deus permite e até exige que os cristãos regenerados façam antes da glorificação.

Temos ainda de compreender melhor em que sentido a liderança cristã é capaz de “influenciar”. Biblicamente, “Deus é quem opera em nós tanto o querer quanto o realizar” (Fp 2.13). Do ponto de vista secular, homens e mulheres se destacam por sua capacidade inata de influenciar, logicamente sob a égide da providência e da graça comum. O ponto a destacar é que a Bíblia nos informa de que a origem de todo bom fruto cristão é Deus. É o Espírito Santo quem motiva, revitaliza e concede impulso duradouro que prossegue até a glorificação. É Deus mesmo quem concede influência ao líder, como lemos em Salmos 144.1-2: “Bendito seja o Senhor […] quem me submete o meu povo” (Sl 144.1,2 — grifo nosso). Não há líder cristão que consiga isso, pelo menos não produzindo fruto espiritual duradouro (cf. Jo 15.16). A obra é de Deus, as iniciativas são dele e é ele quem produz na igreja tanto o despertamento quanto o entorpecimento (Is 51.17, 22).

Então, o quem ver a ser liderança bíblica ou espiritual?

Observemos os exemplos da Escritura: Nós temos um líder que não tem nada de carismático, Moisés (Êx 3.11); um menino, Jeremias, que admite que não passa de “uma criança” (Jr 1.6); um Isaías que sabe ser um homem impuro, desqualificado para sequer permanecer diante do Senhor dos Exércitos (Is 6.5). Esses são modelos bíblicos — e outros poderiam ser citados.

Deus escolhe pessoas que se sentem inadequadas, ele chama aos humildes e aparentemente incapazes. Sendo assim, o modelo bíblico de liderança parece divergir do modelo secular. A diferença não está, como temos ouvido nas últimas décadas, na ideia cristã de serviço (cf. Mc 10.42-45). Atualmente, o modelo do líder que serve é apresentado em qualquer seminário empresarial. O ponto em que a liderança cristã diverge radicalmente da secular é na insistência da primeira em afirmar que é impossível produzir resultados à parte da intervenção divina; é impossível liderar biblicamente com base na carne; a igreja é conduzida pelo Espírito. Se eu influenciar um membro da igreja a ser santo, pobre homem! Buscará a santidade a partir da influência de Misael, outro miserável pecador; se o Conselho influenciar a igreja a abraçar uma visão ou declaração de missão, isso não será diferente de um Estado motivar seus cidadãos a abraçar determinada ideologia. Almejamos ser instrumentos em uma obra divina, oramos por um avivamento autêntico e desejamos que graça celestial transborde a partir de nossa liderança. Quando isso não ocorre é o fim — ou talvez, a evidência de que até o começo foi comprometido.

Isso deve nos fazer pensar se, em nossos ideais de liderança, não estamos assumindo definições influenciadas pela cultura circundante. Nosso Senhor nos convoca a pensar a liderança biblicamente: “Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim” (Mc 10.42-43a; grifo nosso).

Um conceito bíblico de liderança

Eis minha proposta de conceito bíblico de liderança:

Liderança cristã é a capacidade de caminhar com as pessoas fazendo o que Deus quer e, no poder do Espírito, segundo o mistério da providência, auxiliá-las e guiá-las a amadurecer espiritualmente, a cumprir os mandatos da criação e a servir ao Senhor com os seus dons.

Tal conceito exige do líder o atendimento de pelo menos cinco requisitos.

Gostar de gente

Se “liderança cristã é a capacidade de CAMINHAR COM AS PESSOAS”, o líder deve gostar de gente. Jesus nos deixou um exemplo; ele dedicou tempo e atenção às pessoas (Mc 10.21, 46-52; Jo 1.14;). O líder cristão tem de interessar-se e demonstrar compaixão por gente de carne e osso (Mt 14.14-16; cf. Mc 6.34; Ef 5.2).

Isso implica, necessariamente, em amar a igreja assim como Cristo a ama (1Co 13.1-3; Ef 5.25-27; 2Co 11.28). Líderes amargurados ou cínicos, que falam mal da igreja, não seguem o padrão de liderança de Jesus.

Andar com Deus

Se “liderança cristã é a capacidade de caminhar com as pessoas FAZENDO O QUE DEUS QUER”, o líder deve andar com Deus (Gn 5.24; 6.9; 17.1; cf. 7.5; 12.4).

O Senhor Jesus cavava tempo em sua agenda para dedicar-se à oração (Mc 1.32-39; Lc 6.12). Ele chamou seus apóstolos não apenas para fazer — pregar e exorcizar —, mas antes de tudo, para comparecer e ser — virem para “junto dele” e “estarem com ele” (Mc 3.13-15).

O discernimento da vontade de Deus para o trabalho exige comunhão com ele (Is 30.21; Jr 33.3). Moisés, Josué, Filipe e o apóstolo Paulo são exemplos disso. Moisés entendeu que tinha de voltar ao Egito e libertar o povo de Israel (Êx 3.10, 16-18). Josué foi animado e guiado pelo Senhor para conquistar Canaã (Js 1.1-9). Deus orientou Filipe na evangelização (At 8.26). Paulo, por sua vez, não começou a pregar imediatamente após a sua conversão, como pode nos levar a crer Atos 9.18-20. Entre Atos 9.19 e 9.20 passaram-se três anos, nos quais o apóstolo retirou-se na Arábia, recebendo instruções de Deus sobre o evangelho (Gl 1.10-24). Ele foi conduzido por Deus; quis pregar na Ásia e, em seguida, tentou ir até a Bitínia, mas foi impedido pelo “Espírito de Jesus” e dirigiu-se à Macedônia (At 16.6-10).

Atos 13.2 é outro exemplo disso. A igreja em Antioquia buscou ao Senhor em jejuns e orações. Então o Espírito Santo ordenou aos irmãos que enviassem Paulo e Barnabé para uma viagem. Aquela importante iniciativa missionária não decorreu do ímpeto humano, mas de uma instrução específica de Deus.

Qual é a vontade de Deus para o trabalho? Se não tivermos resposta clara a essa questão, a obra está em apuros. Líderes bíblicos guiam a igreja nos caminhos do Senhor. Isso exige que eles andem com Deus.

Ser cheio do Espírito Santo

Se a liderança cristã tem relação com “o PODER DO ESPÍRITO”, o líder deve ser cheio do Espírito Santo. Este era um requisito básico para a escolha de líderes da igreja do NT (At 6.3).

Voltando ao que eu disse na introdução, a maioria dos livros sobre liderança afirma que não existe liderança sem influência. Deve ser reafirmado que a influência da liderança vem de Deus.

Deus é o principal agente da obra (Zc 4.6; 
At 1.8; 9.31; 
1Co 2.1-5). É Deus quem produz amadurecimento (santificação), motivação para a obediência, os dons e as condições contextuais e circunstanciais para seu uso.

Descansar na providência

Se a liderança cristã é “a capacidade de caminhar com as pessoas fazendo o que Deus quer e, no poder do Espírito, SEGUNDO O MISTÉRIO DA PROVIDÊNCIA”, o líder deve descansar na providência.

Dito de outro modo, Deus é soberano sobre a obra. Ele envia sobre a igreja períodos de luz e trevas, discernimento claro e confusão (Is 45.5-7; cf. Is 6.9-13; 2Ts 2.11-12). O que Deus determina inevitavelmente ocorrerá (Is 46.8-11). Ele envia tanto o avivamento quanto o “atordoamento” (Hc 3.2; Is 51.17, 22). Esta é a aplicação, no âmbito da liderança, da doutrina da providência.

Quais são as obras da providência de Deus? Resposta: As obras da providência de Deus são a sua maneira muito santa, sábia e poderosa de preservar e governar todas as suas criaturas e todas as ações delas. Referência bíblica: Sl 145.17; 104.10-24; Hb 1.3; Mt 10.29-30; Os 2.6. Breve Catecismo de Westminster, pergunta 11; grifo nosso.

Que são os decretos de Deus? Resposta: Os decretos de Deus são os atos sábios, livres e santos do conselho de sua vontade, pelos quais, desde toda a eternidade, ele, para a sua própria glória, imutavelmente predestinou tudo o que acontece, em especial com referência aos anjos e os homens. Referências bíblicas: Is 45.6-7; Ef 1.11; Rm 11.33; Sl 33.11; Ef 1.4-5; Rm 9.22-23. Catecismo Maior de Westminster, pergunta 12; grifo nosso.

Isso não anula a responsabilidade humana. Os maus líderes são responsabilizados por seus erros (Zc 11.17). No entanto, a perspectiva da providência lança por terra o mito da liderança que guia para o sucesso. Moisés não entrou na Terra Prometida (Dt 32.48-52). Josué não conquistou todas as terras de Canaã (Js 13.1). Jeremias não foi ouvido por sua geração (Jr 1.18-19; 8.18-22; 18.18; 20.1-2). Se a tradição estiver correta, Isaías foi cerrado ao meio e Jeremias morto a pedradas (Hb 11.17-38). Paulo tentou visitar os tessalonicenses, mas foi “barrado” por Satanás (1Ts 2.18). Davi levantou um censo em Israel sob a influência do diabo que, por sua vez, correspondia a um decreto de Deus (1Cr 21.1, 14; 2Sm 24.1-9).

Líderes precisam descansar na providência, entender que mesmo os momentos mais improdutivos e trevosos da igreja ocorrem para que se cumpra um propósito divino (Mt 10.28-31; Rm 8.28). Líderes bíblicos descansam sabendo que estão guardados — eles e a igreja — nas mãos poderosas do Redentor (Jo 10.27-30; Ap 1.20).

Conduzir em metas bíblicas

Se a liderança cristã é “a capacidade de caminhar com as pessoas fazendo o que Deus quer e, no poder do Espírito, segundo o mistério da providência, AUXILIÁ-LAS E GUIÁ-LAS A AMADURECER ESPIRITUALMENTE CUMPRINDO OS MANDATOS DA CRIAÇÃO E SERVINDO COM OS SEUS DONS”, isso equivale a dizer que o líder deve conduzir os liderados para o alcance de metas bíblicas.

Metas bíblicas são alvos de qualidade e não meramente de quantidade. Líderes espirituais conduzem seus liderados a fazer três coisas:

  1. Crescer em santidade como fruto da graça, ou seja, a amadurecer em Cristo (Ef 4.11-16; 2Pe 3.18).
  2. Cumprir as ordenanças divinas (os mandatos espiritual, social e cultural, estabelecidos na criação — Gn 1.26-28, 2.15-25).
  3. Servir a Deus servindo aos irmãos e ao próximo, com os dons recebidos de Deus (Rm 12.3-8; 1Pe 4.10).

Em suma, além de focalizar o fazer, os líderes bíblicos também destacam o ser.

Concluindo…

O conceito bíblico de liderança é diferente do conceito secular. Exige-se do líder cristão que ele ame as pessoas, ande com Deus, seja cheio do Espírito Santo, descanse na providência e guie seus liderados em metas bíblicas.

Seria este um conceito definitivo? Trata-se, certamente, de uma aproximação. Sugestões de aprimoramento, provindas dos leitores, serão muito bem-vindas.

Notas

[1] LORSCH, Jay. A Contingency Theory of Leadership. In: NOHRIA, Nitin; KHURANA, Rakesh. (Ed.). Handbook of Leadership Theory and Practice: An HBS Centennial Colloquium on Advancing Leadership. Boston: Harvard Business Press, 2010, p. 413.

[2] NORTHOUSE, Peter G. Leadership: Theory and Practice. 3. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, Inc., 2004, p. 3.

[3] BLANCHARD, Ken et al. Liderança de Alto Nível: Como Criar e Liderar Organizações de Alto Desempenho. Reimpressão. Porto Alegre: Bookman, 2007, p. 15.

[4] BLANCHARD, op. cit., loc. cit. Grifo nosso.

Referências bibliográficas

BLANCHARD, Ken et al. Liderança de alto nível: Como criar e liderar organizações de alto desempenho. Reimpressão. Porto Alegre: Bookman, 2007.

NOHRIA, Nitin; KHURANA, Rakesh. (Ed.). Handbook of leadership theory and practice: An HBS centennial colloquium on advancing leadership. Boston: Harvard Business Press, 2010.

NORTHOUSE, Peter G. Leadership: Theory and practice. 3. ed. Thousand Oaks: Sage Publications, Inc., 2004.

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