O verdadeiro dilema: Tu ou você

Salmos 86.10 sublinha a grandeza e unicidade de Deus: “Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus!”. Na passagem, consta duas vezes o pronome hebraico ʾǎt·tā(h), na segunda pessoa, que pode ser traduzido como “tu” ou “você”.

Deus é mencionado como “tu” na maioria das versões bíblicas, até nas contemporâneas Nova Versão Internacional e Almeida Século 21. Mesmo na paráfrase A Mensagem, lemos “Deus, tu és único: Não há ninguém igual a ti!”. Também nos hinos clássicos, Deus nunca é chamado de “você”. Isso é assim por força da elegância do “tu”, usado “em estilo nobre e em poesia, ao dirigirmo-nos a pessoa de consideração […] ou à própria divindade” (Dicionário Aurélio). Na recém-lançada Nova Almeida Atualizada:

Os pronomes “tu” e “vós” deram lugar a “você” e “vocês”, visto que hoje, na maior parte do Brasil, dificilmente alguém se dirige a um público usando a forma de tratamento “vós”. No entanto, sempre que alguém se dirige a Deus em oração, como, por exemplo, nos Salmos, a forma de tratamento é “tu”. Outros bom exemplo é a oração do Pai Nosso (Mt 6.9-13). (Sociedade Bíblica do Brasil, Bíblia Sagrada, Nova Almeida e Atualizada).

Resumindo, estritamente do ponto de vista gramatical, não é necessariamente errado traduzir ʾǎt·tā(h) como “você”, em Salmos 86.10. E se pensarmos nas declarações “pois você é grande e faz coisas maravilhosas; você é o único Deus”, notaremos que, teologicamente, o uso de você não causa prejuízo ao entendimento de Deus como distinto e soberano sobre tudo e todos, nem implica, necessariamente, em desrespeito. De fato, o pronome “você” só possui conotação desrespeitosa por causa de nossa configuração pecaminosa, desde a queda. O ideal é que digamos “você” sempre respeitosamente, nos dirigindo a outro ser humano ou a Deus. Que reconheçamos cada ser humano como criatura de Deus e Deus como criador. Há diferenças na consideração que devemos aos homens e a Deus, mas o padrão divino é que nossas interações — todas, até com nossos opositores — sejam com respeito fundamentado no amor.

Além disso, há o desconforto provindo da tradição da língua — um desconforto cultural. Algumas mudanças culturais são mais rápidas do que os dicionários. Em um primeiro post eu afirmei que o uso de “você”, como pronome indefinido, ganha espaço até em relações anteriormente tidas como formais. Isso conduz — gostemos ou não — ao surgimento de músicas nas quais Deus é tratado como “você”. Como pastor conservador, meu primeiro ímpeto é o de excluí-las da adoração congregacional. No entanto, creio que há um caminho melhor.

Antes de julgar precipitadamente um compositor como herege desrespeitoso, sugiro a verificação de quatro detalhes. É importante:

  1. Verificar se o que a canção diz corresponde à doutrina bíblica sadia.
  2. Notar se o cântico é teocêntrico e cristocêntrico (há cânticos que chamam Deus de “você” e são teocêntricos, e há outros que chamam Deus de “tu”, mas são centrados no homem; não passam de autoajuda travestida de linguagem cristã).
  3. Checar se a música contém evangelho fiel para o pecador.
  4. Avaliar se ela possui “peso e majestade” (palavras de Calvino) pertinentes para a adoração, se convida a alma a se elevar em ato de adoração sincera e pura (Sl 25.1).

Quando esses critérios são atendidos, entendo que estamos diante de boa música cristã contemporânea.

Escrevo como alguém que ama os hinos e a Bíblia Almeida Revista e Atualizada, desde o tempo em que se lia “cousas”, onde hoje se lê “coisas”. Quem me conhece sabe que gosto de formalidade e solenidade. Ao mesmo tempo, a linguagem e os tempos mudam. O que não pode mudar é a solidez de nosso compromisso com as Escrituras. Mais ainda, que nossa ortodoxia nos motive a caminhar com respeito e elevada consideração a Deus e ao próximo. Que a cada nova fase ou momento de nossa peregrinação, amemos ao Senhor mais e melhor, e que tal amor seja comprovado por obediência voluntária: “Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei” (Sl 40.8).

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