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02. Elementos litúrgicos no culto do tabernáculo

01/09/2009 | Por Misael

Leitura de Êxodo 40.16-38. Destaque à frase repetida no texto: “segundo o SENHOR ordenara a Moisés.”

O culto cristão tem sua base, em primeira instância, no culto judaico revelado no AT. A Carta aos Hebreus fala do culto no tabernáculo como figura, sombra e parábola. Nos capítulos 7-10 daquela epístola, o autor mostra que o sacerdócio de Cristo é superior ao levítico; que enquanto este teve fim, aquele é eterno; que a Antiga Aliança era símbolo da Nova; que os ritos, ofertas e sacrifícios do tabernáculo eram ineficazes e que o sacrifício de Cristo é eficaz e perfeito. Diz que aqueles sacerdotes ministravam em “figura e sombra das coisas celestes” (8.5); que aquele santuário e o serviço feito ali era uma “parábola para a época presente” (9.9); que “a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas” (10.1). Por estas declarações conclui-se que Hebreus coloca o tabernáculo e o que nele se realiza como símbolos das realidades trazidas e cumpridas em Cristo.[11]

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01. As discussões sobre liturgia e o princípio regulador de culto

31/08/2009 | Por Misael

Ao lidar com a questão da liturgia defrontamo-nos com um aparente dilema. Se, por um lado, o planejamento e execução da liturgia é uma função privativa do pastor da igreja,[1] por outro, é como se cada ministro assumisse um ponto de vista diferente dos demais. Tal situação abre espaço, primeiramente, para rotulagens. Pastores mais conservadores julgam seus colegas que adicionam ao culto práticas consideradas “pentecostais” ou “neopentecostais”, enquanto pastores mais abertos a métodos contemporâneos dizem dos conservadores que são “mortos”, “formalistas”, “cerimonialistas” e “destituídos de vida”. Em segundo lugar, padrões de liturgia geram discordância nos debates conciliares. Nestes o nível das discussões é normalmente superficial, focado no que é externo, e.g., se podemos ou não “bater palmas”. Daí são produzidos e aprovados documentos “pró” ou “anti-palmas”, dependendo da tendência do concílio. Futuramente, mudando a tendência, muda o documento, ad infinitum.

A questão que surge é: “existe uma base unificadora para o culto, ou, de fato, cada pastor tem a plena liberdade de implementar o que quiser?” O autor deste estudo entende que sim, há uma base unificadora para o culto e que a raiz de todas as dificuldades quanto ao assunto reside no desconhecimento — ou, conhecendo-a, sua desconsideração — desta base.

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O valor e os limites da ortodoxia (parte 02)

21/03/2009 | Por Misael

No post anterior conceituei ortodoxia e sugeri que é possível identificarmos círculos concêntricos na ortodoxia. Neste post tratarei da ortodoxia dos credos.

2.1. A ortodoxia ampla: O cristianismo dos credos

Logo nos primeiros séculos da era cristã, a igreja precisou organizar as informações bíblicas sobre o ser de Deus. Foram realizadas reuniões – os concílios – com a finalidade de sistematizar a doutrina da Trindade. Surgiram os documentos oficiais referentes ao assunto, denominados símbolos ou credos ecumênicos.

O termo “credo” decorre das palavras iniciais “eu creio”, constantes em tais formulações.

Os credos foram formulados somente depois de certos falsários astutos terem introduzido modos novos de explicar os relacionamentos entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, modos estes que subvertiam a fé bíblica e que impediam as pessoas de realmente conhecerem a Deus. Para deixar claro exatamente como essas negações astutas da doutrina bíblica estavam erradas, era necessário que a igreja definisse de modo formal suas crença nessas coisas.[1]

Há cristãos que desprezam os credos, argumentando que tais elaborações não dizem nada às reais necessidades da igreja contemporânea. Um pesquisador chega ao ponto de afirmar que não temos nenhum compromisso com tais crenças.

Nosso compromisso não é com os conceitos usados na época dos concílios, mas com o que a Bíblia testemunha: o encontro com o próprio Deus. Não temos de crer na doutrina (nicena) da Trindade; antes, devemos empenhar tudo em encontrar integralmente o Deus que se nos revela de modo tríplice.[2]

Esse tipo de discurso parece bíblico e até mesmo espiritual, porém é perigoso. Seremos nós orgulhosos ao ponto de desprezarmos os estudos bíblicos, a sabedoria teológica do passado que é fiel às Escrituras? Mais ainda: Note que a expressão utilizada por Schwarz, “o Deus que se nos revela de modo tríplice[3] nos faz lembrar da heresia modalista. Deus revelando-se “de modo tríplice” não é, de fato, “o que a Bíblia testemunha”; Deus não é uma pessoa que se “revela de modo tríplice”, mas uma Trindade na unidade.[4]

Os reformadores aceitaram as afirmações doutrinárias do Credo Apostólico, do Credo Niceno e do Credo Atanasiano. Para eles tais documentos ajudavam os cristãos na interpretação das verdades bíblicas e possuíam uma autoridade “como a luz da lua comparada à do sol — glória refletida”.[5] Os credos são informação trinitária organizada.

2.1.1. O Credo Apostólico

O credo mais antigo que conhecemos é Credo Apostólico:

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.
Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da Virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo; na santa igreja universal;[6] na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.[7]

2.1.2. O Credo Niceno-Constantinopolitano

Dúvidas e interpretações subsequentes exigiram novas formulações. Um concílio foi realizado em Nicéia (325), encaminhando um novo credo. Alguns anos depois (381), a igreja reuniu-se novamente em Constantinopla, alinhavando detalhes das declarações de Nicéia e afirmando o texto conhecido como Credo Niceno-Constantinopolitano:

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor, que dá a vida, e procede do Pai (e do Filho);[8] e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos Profetas.
Creio na igreja, una, santa, católica e apostólica.
Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.[9]

Observe-se que este credo contém declarações esclarecedoras, não explicitadas no Credo Apostólico:

  • Jesus Cristo é o “Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. Isso foi incluído para combater as falsas afirmações: (1) que Jesus Cristo não é da mesma substância de Deus; (2) que ele é a mais alta criatura de Deus e, (3) que ele teve um início.
  • O Espírito Santo é “Senhor, que dá a vida, e procede do Pai (e do Filho); e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos Profetas”. Isso foi incluído para combater a falsa afirmação de que o Espírito Santo não é Deus.

2.1.3. O Credo Atanasiano

Ainda que não contenha a expressão “eu creio”, o Credo Atanasiano estabelece um padrão bíblico de crença. Este credo é assim chamado em deferência a Atanásio, bispo de Alexandria (c. 296, † 2 de maio de 373), e refere-se a controvérsias relacionadas à “constituição da pessoa de Cristo”, surgidas depois da época de Atanásio.[10] Apesar da autoria incerta, o documento é uma das obras-primas da teologia dos primeiros séculos, e uma fiel expressão do ensino bíblico sobre a Trindade.

Quem quiser ser salvo, antes de tudo tem de defender a fé católica, a qual, a não ser que alguém preserve íntegra e inviolável, sem dúvida perecerá eternamente.
Mas esta é a fé católica, que adoramos a um só Deus em trindade, e trindade em unidade. Nem confundindo as pessoas nem dividindo a substância. Porque a pessoa do Pai é uma; a do Filho é outra; e a do Espírito Santo, outra. Mas a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo é uma, igual em glória, igual em majestade.
Assim como é o Pai, assim é o Filho, e assim é o Espírito Santo. O Pai não é criado, o Filho não é criado e o Espírito Santo não é criado. O Pai é infinito, o Filho é infinito e o Espírito Santo é infinito. O Pai é eterno, o Filho é eterno, e o Espírito Santo é eterno. Não há três seres eternos, mas um só Ser eterno. E no entanto, não há três Seres não criado, nem três Seres infinitos, mas um só Ser não criado e infinito. Da mesma forma, o Pai é onipotente, o Filho é onipotente, e o Espírito Santo é onipotente. [Contudo, não há três Seres onipotentes, mas um só Ser onipotente.] Portanto, o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus. E no entanto não há três Deuses, mas um só Deus. O Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. Não obstante, não há três Senhores, mas um só Senhor. Porque, como somos impelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa de maneira distinta como Deus e Senhor, somos proibidos pela religião católica de dizer que há três Deuses, ou três Senhores.
O Pai não é feito por ninguém, nem criado, nem gerado. O Filho é somente do Pai, não foi feito nem criado, mas gerado. O Espírito Santo não é criado pelo Pai e pelo Filho, nem gerado, mas procedente. Por isso há um Pai, não três Pais; um Filho, não três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nesta Trindade nada é anterior nem posterior; nada maior nem menor, mas todas as três pessoas são coeternas e coiguais a si próprias. De maneira que, em tudo, como já se disse anteriormente, deve-se adorar a unidade na trindade e a trindade na unidade. Todo aquele que quiser ser salvo, que assim pense acerca da Trindade.
Entretanto, é necessário para a salvação eterna crer também fielmente na humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é, portanto, a fé verdadeira: crermos e confessarmos que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e Homem. É Deus da substância do Pai, gerado antes dos tempos, e Homem da substância de sua mãe, nascido no tempo; Deus perfeito e Homem perfeito, subsistindo em alma racional e carne humana.
Igual ao Pai segundo a divindade e menor do que o Pai segundo a sua humanidade. Ainda que é Deus e Homem, nem por isso são dois, mas um único Cristo. Um só, não pela transformação da divindade em humanidade, mas mediante a recepção da humanidade na divindade. É, de fato, um só, não pela fusão das duas substâncias, mas por unidade de pessoa. Pois, assim como corpo e alma racional constituem um único homem, Deus e homem é um único Cristo, o qual padeceu pela nossa salvação, desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos. Subiu ao céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. E quando vier, todos os homens hão de ressuscitar com os seus corpos e dar contas de seus próprios atos, e aqueles que fizeram o bem irão para a vida eterna, mas aqueles que fizeram o mal, para o fogo eterno.
Esta é a verdadeira fé cristã. Aquele que não crer com firmeza e fidelidade, não poderá ser salvo.[11]

2.1.4. A função dos credos

Os credos não foram escritos para substituírem ou sobrepor-se à Bíblia, mas como resumos úteis de sua correta interpretação. Independentemente de suas motivações e contextos históricos, eles descrevem adequadamente os ensinos bíblicos sobre o ser de Deus. A ortodoxia ampla abarca as afirmações destes credos possibilitando delimitar uma “cristandade” a partir da concordância com tais documentos. Um autor cuja obra contrarie qualquer das afirmações dos símbolos ou credos ecumênicos é heterodoxo. Nesse sentido dizemos, e.g., que, quanto ao dogma da Trindade, a Igreja Católica Apostólica Romana é “ortodoxa”, ao passo que as Testemunhas de Jeová são heterodoxas ou heréticas.

Logo mais discorrerei sobre a ortodoxia evangélica.

Notas

1. BOWMAN JR., Robert M. Por Que Devo Crer na Trindade: Uma Resposta às Testemunhas de Jeová. São Paulo: Candeia, 1996, p. 17-18.

2. SCHWARZ, Christian A. Nós Diante da Trindade: O Poder Libertador da Fé no Deus Triúno. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1999, p. 13.

3. Grifo nosso.

4. O modalismo é a alegação de que há uma só pessoa que aparece a nós de três diferentes modos ou formas. Cf. GRUDEM, Wayne. Manual de Doutrinas Cristãs: Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 118.

5. OLSON, Roger. História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 Anos de Unidade e Diversidade. São Paulo: Vida, 2004, p. 77.

6. A palavra “católica”, aqui transliterada para “universal” refere-se não à Igreja Católica Apostólica Romana, mas à igreja invisível, ou seja, à totalidade dos eleitos de Deus.

7. MARRA, Cláudio A. B. (Ed.). Novo Cântico Com Glossário e Novo Formato. 1. ed. Cultura Cristã: São Paulo, 2003, p. 365.

8. A expressão “e do Filho” (filioque) é uma adição encaminhada pelo Sínodo de Toledo, realizado em 589. As Igrejas Orientais não aceitaram a adição e isso foi uma das causas da divisão entre as Igrejas do Oriente e Ocidente. Cf. HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 344.

9. OLSON, op. cit., 2001, p. 199-200. Grifos nossos.

10. HODGE, op. cit., loc. cit.

11. HODGE, op. cit., p. 344-345. IGREJA EVANGÉLICA LUTERANA NO BRASIL (IELB). O Que Cremos: Os Credos Ecumênicos. Porto Alegre: [s.data.]. Disponível em: <http://www.ielb.org.br/cremos/credos.htm>. Acesso em: 10 jul. 2007. Grifos nossos.

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O valor e os limites da ortodoxia (parte 01)

11/03/2009 | Por Misael

Em pleno início de século XXI, qual é o valor da ortodoxia? É possível estabelecer seus limites? Tais questões são importantes para aqueles que desejam caminhar com o Senhor observando o dito apostólico: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1 Tm 4.16).[1]

O termo ortodoxia é estranho às Escrituras, só encontrado na literatura cristã a partir do segundo século.[2] Isso tem levado alguns a afirmar que o cristianismo dos primórdios não considerava importante o alinhamento dos crentes a um padrão de doutrina — “o período em que a igreja mais cresceu”, dizem, “foi quando não haviam definições absolutas de correção doutrinária”. Destarte, o estabelecimento dos dogmas é interpretado como ato correlato à institucionalização da igreja e perda de espontaneidade da fé.[3] Leituras sociológicas da história eclesiástica sugerem, ademais, que aquilo que foi firmado como dogma nada mais é do que o ponto de vista dos poderosos; não se trata da sistematização da verdade bíblica; a doutrina é tida como mero recurso da política eclesiástica. Outros não conseguem desvincular a ideia de ortodoxia dos abusos da inquisição e do fundamentalismo:[4] ser ortodoxo equivale a ser arcaico ou irrelevante, bitolado e destituído de amor ao próximo. O importante é reproduzir o exemplo e o “caminho” de Jesus e isso não tem nada a ver com quaisquer padrões confessionais. A doutrina divide; o amor une.[5]

No texto citado acima, Timóteo é exortado a ter cuidado com “o que ensina” (didaskalia). Tal conteúdo é fundamental para a salvação. Em um contexto mais amplo, trata-se das “sagradas letras” (2Tm 3.14-17), e, especificamente, do “evangelho” (Rm 1.16; 1Co 15.1-4 et seq.). Afastar-se de tais verdades equivale a colocar-se sob maldição (Gl 1.8-9). Esta orientação é uma ressonância da palavra de Cristo. Seus seguidores são santificados “na verdade” (Jo 17.17) e precisam estar alertas para não serem enganados por falsos mestres (Mt 24.24). A missão da Igreja, nos termos firmados pelo Redentor, é ensinar (didasko) aos discípulos aquilo que ele ensinou (Mt 28.20).

Quem leva isso ao ponto máximo é João, o apóstolo do “amor”. Aquele que “transgride o ensino de Cristo e não permanece nele não tem Deus. Quem permanece no ensino de Cristo tem tanto o Pai quanto o Filho. Se alguém vos procurar mas não trouxer este ensino [didacho], não o recebais em casa nem o saudeis” (2Jo 9-10).[6]

Independentemente do modo como os termos “doutrina”, “ensino” e “verdade” contidos nestas passagens são interpretados, duas coisas podem ser ditas. Primeiro, é plausível afirmar que tanto Jesus quanto os discípulos dos tempos do Novo Testamento assumiam um conjunto de proposições extraídas da Palavra de Deus [7] que servia para aferir a veracidade de discursos e mestres. Segundo, Timóteo deveria alinhar-se a determinado padrão naquilo que ensinava.[8]

Se isso é assim, a movimentação da igreja a partir do segundo século não foi no sentido de estabelecer um novo alicerce conceitual — uma ideologia que sustentasse determinadas políticas — e sim esforçar-se para manter-se dentro de uma trilha estabelecida por Cristo e pelos escritores neotestamentários. O fato da igreja ter utilizado uma nova terminologia não deslegitima sua iniciativa. “Ortodoxia” e “Trindade” são palavras cunhadas nos concílios eclesiásticos, mas tanto a ênfase na correção doutrinária quanto na unicidade e pluralidade de pessoas na divindade estão contidas no Novo Testamento.

1. O que é ortodoxia?

De modo geral, ortodoxia é “o equivalente em português da palavra grega orthodoxia (de orthos ‘certo’, e doxa, ‘opinião’), o que significa crença correta, em contraste com a heresia ou a heterodoxia.”[9] Uma definição mais detalhada é fornecida por McGrath:[10]

Termo empregado com diversas acepções, dentre as quais as mais importantes são: (a) “doutrina correta”, em oposição a heresia; (b) forma de cristianismo dominante na Rússia e na Grécia; (c) corrente que surgiu no seio do protestantismo, sobretudo no final do século XVI e início do século XVII, e que destacava a necessidade da definição doutrinária.

A ortodoxia é responsiva, ou seja, desenvolveu-se como resposta a falsos ensinos, de modo que “é quase impossível apreciar o significado da ortodoxia sem entender as heresias que a forçaram a se definir. [...] A fim de compreender corretamente o dogma ortodoxo da Trindade, é necessário entender os ensinos de Ário de Alexandria”.[11] O caráter reativo da ortodoxia explica sua terminologia. Os argumentos dos defensores da fé cristã contêm palavras que, ainda que estranhas ao Novo Testamento, combinam com a cultura na qual estava inserido cada debate teológico.

Não há problema algum nessa faceta reativa da ortodoxia. Desarticulando as falas dos que afirmam que a igreja deve deixar de ser reativa, a Escritura refere-se a “armas de justiça, quer ofensivas, quer defensivas” (2Co 6.7). O trabalho da Teologia não é inútil. O esforço intelectual no gabinete de estudos é obra espiritual e tão necessária quanto as tarefas de visitação e discipulado pessoal. A apologética, que bebe das fontes da Teologia e da Filosofia, serve à pregação e evangelização. É legítima e necessária a reação cristã de defesa da fé e do ministério da igreja. Os pragmáticos que consideram a ortodoxia inútil são responsáveis pela superficialidade e heterodoxia do evangelicalismo contemporâneo. Aqueles que afirmam que no céu não haverá Teologia desconsideram a própria essência da Teologia (conhecer a Deus) e da vida celestial, que será de eterno conhecimento de Deus. A diferença é que na vida glorificada não há heterodoxia, uma vez que nos tornamos semelhantes a Cristo e conhecemos como também somos conhecidos (1Jo 3.1-2; 1Co 13.12).

2. Círculos concêntricos da ortodoxia

A definição fornecida por McGrath é útil no sentido de referir-se a diferentes acepções da ortodoxia. Colocando a questão de outra forma, é possível identificar três círculos de ortodoxia, o maior referindo-se à ortodoxia ampla, um segundo apontando para a ortodoxia evangélica[12] e um terceiro dizendo respeito à ortodoxia reformada (figura 01).

Círculos da Ortodoxia

Círculos concêntricos da ortodoxia

Detalhes sobre cada um dos círculos serão fornecidos a partir do próximo post.

Notas

1. Grifo nosso. Para a heterodoxia esta passagem não é apostólica. VOLKMANN, Martin. Teologia Prática e o Ministério da Igreja. In: SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. (Org.). Teologia Prática no Contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal, 1998, entende que as epístolas Pastorais (1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito) não foram escritas por Paulo, mas surgiram no contexto de “solidificação” e “estruturação” da igreja, no final do primeiro século (ibid., p. 85). Esse ponto de vista é compartilhado por outros autores (e.g., BRUNNER, Emil. O Equívoco Sobre a Igreja. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 88; CHARPENTIER, Etienne. Para Ler o Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1992, p. 52; GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia Como Literatura. São Paulo: Loyola, 1993, p. 191-192; HARRINGTON, Wilfrid J. Chave Para a Bíblia: A Revelação, a Promessa, a Realização. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 554, 556; KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 319, 320, 321), cuja análise detalhada das ponderações foge ao escopo do presente estudo. Pode ser afirmado, porém, que há argumentação consistente e suficiente, por parte da erudição contemporânea, para a aceitação da autoria paulina das epístolas Pastorais (e.g., BLOMBERG, Craig L. A Credibilidade Histórica do Novo Testamento. In: CRAIG, William L. (Ed.). A Veracidade da Fé Cristã: Uma Apologética Contemporânea. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 191-235; CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1. ed. reimp. (2002). São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 395-411; GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 2. ed. reimp. (2003). São Paulo: Vida Nova, 1998 p. 359-363; HALE, Broadus David. Introdução ao Novo Testamento. ed. rev. ampliada. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 321-330; HENDRIKSEN, 2001, op. cit., p. 10-47; HINSON, E. Glenn. I e II Timóteo e Tito. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985, p. 361-365; HARRIS, op. cit., p. 33-37, 217-255; RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: A Obra Definitiva Sobre o Pensamento do Apóstolo dos Gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 14-15, 520-522); ELLIS, E. Earle. Cartas Pastorais. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P. (Orgs.). Dicionário de Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola, 2000, p. 181-191; MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento: Diversos Testemunhos, Um Só Evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 345-363 e THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: Uma Abordagem Canônica e Sintética. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 261-278, 487-573.

2. PACKER, J. I. Ortodoxia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova,1990, v. 3, p. 70.

3. cf. BRUNNER, op. cit., passim.

4. O termo “fundamentalismo” é utilizado aqui em sua conotação negativa. Em escritos contemporâneos, o vocábulo é ligado a atitudes como intransigência, orgulho, incapacidade de lidar com o diferente ou plural e uso de violência, desde calúnias, difamações, abuso moral ou perseguições até assassinato. Não há nenhum problema em ser fundamentalista no sentido expresso pelo Dicionário Houaiss: “qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos”. Cf. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales. (Ed.). Fundamentalismo. In: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0.5a. Editora Objetivo Ltda., 2002. CD-ROM. O cristianismo destaca o seguimento estrito de “um conjunto de princípios básicos” que lhe dão distinção, ou seja, identidade.

5. Um detalhe a considerar é que alguns que advogam tais postulados não estão muito dispostos a amar aqueles a quem consideram “fundamentalistas” ou “ultraconservadores”. A abertura ao pensamento plural só é advogada por estes quando lhes favorece a interpretação.

6. GOMES, Paulo Sérgio; OLIVETTI, Odayr. Novo Testamento Interlinear Analítico: Texto Majoritário Com Aparato Crítico: Grego — Português. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 896. Grifos nossos.

7. No caso de Jesus, não apenas as palavras do Antigo Testamento, mas seus próprios ditos. Cf. Jo 5.24; Hb 1.1-2.

8. Para o apóstolo dos gentios, o critério para avaliação do trabalho daqueles que ensinam é a consistência com o “fundamento” lançado por ele, Paulo (1Co 3.10-15; cf. Rm 2.16). Ainda que ele esclareça que tal fundamento é Cristo (v. 11), trata-se de uma articulação proposicional definida sobre a pessoal e obra do Redentor, e as implicações práticas dessa redenção (cf. Ef 2.20).

9. PACKER, op. cit., loc. cit.

10. McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 656.

11. OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 21.

12. Não me refiro aqui à ortodoxia protestante, o movimento de organização sistemática da doutrina reformada, em resposta aos postulados das Teologias Luterana e Católica; cf. McGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 187-191. Uso a expressão ortodoxia evangélica referindo-me ao conjunto de verdades bíblicas assumidas tanto por cristãos evangélicos arminianos quanto por calvinistas.

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