Paulo foi contido em seu orgulho por um “espinho na carne” (2Coríntios 12.7). Sua experiência não era, de maneira nenhuma, agradável. Um “mensageiro de Satanás” o esbofeteava e, fazendo isso, tornava-o mais e mais dependente da graça de Deus.
Confesso que esta é uma das passagens que mais me assombra no Novo Testamento. É difícil para mim processar um servo de Deus levando bofetadas do inimigo a fim de depender mais do Senhor. No entanto, é o que diz o texto.
Demorou para eu mesmo admitir a existência de meu próprio espinho. É sempre mais confortável investir no marketing pessoal: publicar os feitos notórios e assegurar a imagem de virtudes. Paulo, no entanto, não se constrangia em declarar-se o “principal” dos pecadores (1Timóteo 1.15). Ele entendia que toda a sua vida deveria ser um modelo exclusivo de aplicação da graça de Deus (1Timóteo 1.16).
O constrangimento da imperfeição nos corrói por dentro. Lamentamos o fato de não sermos melhores, de nossa performance ser tão pífia diante dos elevados padrões de Deus. Para a sociedade, continuamos sendo motivo de assombro (1Co 1.26-31; 2Co 6.3-10). Para Deus, porém, somos filhos acolhidos em seu regaço gracioso.
Quando, vez por outra, nos esquecemos disso, eis o esbofeteador, célere, a nos humilhar. E para nosso bem, para que não ousemos nos considerar nada à parte da graça. Somos pó e Deus e tudo. Que isso nos baste.
O fato, em termos de mídia, já envelheceu. Na época eu estava às voltas com as pastorais sobre o amor de Deus e não tive como abordar a questão. Hoje, com algumas semanas de atraso, refiro-me ao evento ocorrido em Santo André, que finalizou com a morte da adolescente Eloá Cristina Pimentel.
Chamo a atenção, especificamente, para um detalhe da psicologia do jovem Lindembergue Alves, sua dificuldade em lidar com frustrações. Trata-se de algo inerente a todos nós e que se torna cada vez mais destacado na cultura ocidental. Até tempos atrás, ainda que todos admitíssemos ser tomados, vez por outra, de arroubos de indignação e até inveja diante das perdas, agora a situação ganha contornos apocalípticos. Disputam espaço duas gerações para quem o “não” é traumático e existencialmente fulminante. “Eu quero isso e pronto!” Eis o argumento que define a parada. “Se eu não for satisfeito farei um estrago”. Assustadoramente simples.
Deus nos educa dizendo-nos “não” (Êx 20.1-17). Para nosso benefício ele não faz as nossas vontades. Ele nos humilha para que saibamos que não somos deuses e nos priva da satisfação escancarada de nossos apetites para que aprendamos a ter prazer somente nele. Somos por ele revestidos e dele recebemos domínio próprio e longanimidade.
O objetivo divino é que, assentada a poeira da tribulação, escorrida a seiva da frustração, permaneçamos doces. Difícil? Isso é maturidade. Sofremos como personagens de música sertaneja e depois nos colocamos de pé, consolados pelo Espírito. Aprendemos que viver é perder com louvor no coração, ainda que doído.
Ademais, por meio de Cristo podemos lidar com aqueles que nos decepcionaram, os arquitetos de nossas perdas e suposta humilhação, olhando-os nos olhos, respeitando-os, entregando-os aos cuidados de Deus e amando-os nos termos da Escritura.
Lindembergue foi às últimas conseqüências de seu desejo: Possuir ou destruir. Não se trata de amor a Eloá, mas de obsessão doentia por si próprio, que usa o outro como objeto cujo bem-estar nem sequer é considerado. “O que importa é o que eu quero”. Estamos prontos a perder para que o outro ganhe? Nas palavras do Cântico dos cânticos o amor não pode ser comprado ou forçado (Ct 8.7).
A opção de quem não sabe lidar com a frustração é a violência explícita ou tácita. Truculência no trato “educado” ou demonstrações visíveis de descontentamento; um salto no abismo do desespero que leva à autodestruição enquanto é reclamado um “direito”; absurdo dos absurdos. Por detrás do humano um animal — o pecador desfigurado e transtornado — que rosna furioso porque perdeu.
A raiva da perda pode ser eliminada pelo tratamento do Espírito. Os passos são regeneração, conversão e busca de mudança espiritual, pela Palavra, no poder do Consolador. Outras situações exigirão cuidados clínicos. Somos frágeis também na mente e emoções e não é vergonhoso pedirmos ajuda. Um cristão que se consulta com um psicólogo ou psiquiatra não é menos espiritual do que quem é ajudado por um fisioterapeuta ou cardiologista. É melhor providenciar a solução enquanto há tempo, antes que se percam outras Eloás.