Senhor, perdoa-me. Investi tantos anos na tua obra, mas o fiz do meu jeito, não do teu. Por causa disso, que obra restou? Nada resta sem tua glória na origem. Sendo sincero, pensei que tudo era para ti. Daí a labuta louca, desmedida. No entanto, que estranho Senhor, organização sem organismo, trabalho sem irmandade, estrutura no lugar de pessoas, pouca ressonância da Palavra graciosa, nada de riso ou poesia, pouco aconchego e gentileza de superfície.
Senhor, o que ficou? Não sei, mas sinto que pouco ou nada. Faz-me, eu te peço, mais útil, um obreiro das boas novas e nada mais, um pacificador que conecta com gentileza. Que na igreja se alegre e sirva enquanto se é curado; que não se procure algo para consertar e sim alguém para amar.
Posso tentar de novo Senhor?
Os presbibolhas existem e podem ser encontrados em qualquer igreja presbiteriana (você não sabe o que é um presbibolha?). Pesquisas recentes sugerem que o presbibolhismo é uma doença que pode ser curada. Seu vírus, presbybolhubum antirreformatus, age velada e poderosamente, mas pode ser identificado e eliminado no nascedouro. Tudo depende da atenção adequada aos sintomas, por isso, acompanhe a descrição.
A pessoa percebe que discorda de alguma doutrina da Escritura, tal como é ensinada nos Símbolos de Fé. Não se trata de uma discordância passageira, que se dissipa com o estudo bíblico; o presbibolha sente um mal-estar crescente; apesar de fazer parte das fileiras calvinistas, ele tem náuseas quando é apresentado aos ensinos da depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, chamado eficaz e perseverança dos santos. Ele não aceita as doutrinas do batismo por aspersão e infantil e, quem sabe, o ensino bíblico sobre a forma de governo da igreja. Enfim, ele está na igreja presbiteriana mas não assume, visceralmente, a teologia presbiteriana. O vírus produz um modo arminiano de ver a Bíblia. Para o presbibolha, inicialmente, a doutrina é um detalhe inicialmente sem importância até que, finalmente, torna-se até mesmo desagradável ou repulsiva. Ele se identifica como presbiteriano mas não crê como presbiteriano, sendo muito mais batista, neopentecostal ou pentecostal. Este é o sintoma número um.
O próximo sintoma surge, simultaneamente, nos ouvidos, coração e quadris. Os primeiros sentem-se embevecidos com música bem ritmada. O segundo se sente amortecido com os cânticos introspectivos e hinos tradicionais. Os últimos gostam de sacolejar. O presbibolhismo torna o crente dançante e avesso à liturgia tradicional.
É preciso esclarecer que o presbibolha não é uma bodelha. Uma bodelha não é crente, mas um ímpio disfarçado. O presbibolha é crente genuíno que ostenta crenças e gostos litúrgicos e ministeriais que não se encaixam na fé e práticas reformadas. Ele está na Igreja Presbiteriana sem sentir-se, de fato, presbiteriano. Consequentemente, ele administra uma carga significativa de frustração e desânimo, enquanto se reúne com os presbiterianos.
Outro esclarecimento vital: todos nós podemos apresentar, vez por outra, sintomas do presbibolhismo. Assim como um resfriado, tudo pode passar depois de algumas semanas. Se os sintomas permanecerem, devemos ser reconhecidos e tratados.
Por que o presbibolhismo deve ser tratado e quais as formas de tratamento? Como lidar com os irmãos presbibolhas queridos que estão próximos de nós e com o amado Epá, já transferido de denominação? E por último, qual a relevância, afinal, do tratamento deste assunto para a glória de Deus e edificação dos santos? Leia o próximo post para encontrar as respostas.
Os presbibolhas
Acompanho o Epaminondas desde a infância, quando foi batizado em uma igreja presbiteriana. Ele cresceu participando da escola dominical, dos cultos e das reuniões de crianças, adolescentes e jovens. Seu casamento com Felícia, uma jovem também nascida e criada no presbiterianismo, foi um momento de muita alegria. Depois ele se mudou para uma cidade distante, no litoral nordestino.
Visitando uma comunidade na internet, deparei-me com uma página do Epaminondas e pude ler sua apresentação: “Sou o Epá, casado com Feli e participamos da Comunidade Djisus Live, uma galera de fé muito manêra. Lá tem adoração trance, muito poder e descontração. Jesus é mó legal, ser cristão é o máximo!”
Pensei no Epaminondas que conheci, integrado às sociedades internas da igreja. Agora ele sofre de reducionite comunicativa: tem dificuldade em escrever ou pronunciar palavras inteiras e sem diminutivo. Assumiu uma nova igreja, voltada para o louvor, dança litúrgica e sinais maravilhosos. O discipulado bíblico é descrito por ele de forma profunda: “mó legal!”. Algo me diz que o Epá, como ele mesmo se denomina, mudou muito mesmo.
Ou será que ele não mudou? Quem sabe ele era membro da Igreja Presbiteriana do Brasil apenas nominalmente, sem compreender, experimental e profundamente, as doutrinas da graça. Quem sabe ele participava dos cultos sem desfrutar, de fato, de Cristo na liturgia. Quem sabe ele comungava da ceia sem a ciência de seu significado e poder provedor. Agora ele estava assumindo uma vida “adulta”, escolhendo uma igreja de acordo com suas preferências. As igrejas presbiterianas da localidade não o atraíram. Ele poderia, finalmente, filiar-se à Comunidade Djisus Live.
Concluo que existem presbiterianos e presbibolhas. Epaminondas era um presbibolha. O tempo passou e sua fé, ao invés de desenvolver-se, regrediu. Ele não amadureceu, assumiu a adultolescência.
O que distingue um presbiteriano de um presbibolha? De modo geral existem diferenças relacionadas à apuração do apetite espiritual. Presbibolhas gostam de algodão doce religioso e presbiterianos preferem alimento nutritivo. Em termos litúrgicos, presbiterianos apreciam adoração densa, possuidora de conteúdo sólido. Presbibolhas se divertem em reuniões que reproduzem ambientes de karaokê ou então, eventos de impacto emocional. Outra diferença é perceptível em termos de expectativa ministerial. Presbiterianos destacam o serviço humilde, presbibolhas amam megarealizações. Por fim, ambos são diferentes em termos de estabilidade eclesiástica. Presbiterianos, quando se mudam para uma cidade em que não há presbiterianismo ou igrejas reformadas, estabelecem novas igrejas presbiterianas. Presbibolhas mudam de denominação com muita facilidade, não possuem raízes ou convicções profundas.
No próximo post mostrarei a diferença entre os presbibolhas e as bodelhas (você ainda não sabe o que é uma bodelha?). Também direi como surge o presbibolhismo, como identificá-lo e evitá-lo.
Paulo foi contido em seu orgulho por um “espinho na carne” (2Coríntios 12.7). Sua experiência não era, de maneira nenhuma, agradável. Um “mensageiro de Satanás” o esbofeteava e, fazendo isso, tornava-o mais e mais dependente da graça de Deus.
Confesso que esta é uma das passagens que mais me assombra no Novo Testamento. É difícil para mim processar um servo de Deus levando bofetadas do inimigo a fim de depender mais do Senhor. No entanto, é o que diz o texto.
Demorou para eu mesmo admitir a existência de meu próprio espinho. É sempre mais confortável investir no marketing pessoal: publicar os feitos notórios e assegurar a imagem de virtudes. Paulo, no entanto, não se constrangia em declarar-se o “principal” dos pecadores (1Timóteo 1.15). Ele entendia que toda a sua vida deveria ser um modelo exclusivo de aplicação da graça de Deus (1Timóteo 1.16).
O constrangimento da imperfeição nos corrói por dentro. Lamentamos o fato de não sermos melhores, de nossa performance ser tão pífia diante dos elevados padrões de Deus. Para a sociedade, continuamos sendo motivo de assombro (1Co 1.26-31; 2Co 6.3-10). Para Deus, porém, somos filhos acolhidos em seu regaço gracioso.
Quando, vez por outra, nos esquecemos disso, eis o esbofeteador, célere, a nos humilhar. E para nosso bem, para que não ousemos nos considerar nada à parte da graça. Somos pó e Deus e tudo. Que isso nos baste.