Misael Nascimento

Somente Pela Graça

Cor meum tibi offero, Domini. Prompte et sincere

Sobre Lindembergues e Eloás

Data:   07/11/2008

Arquivado em: Atualidades.

O fato, em termos de mídia, já envelheceu. Na época eu estava às voltas com as pastorais sobre o amor de Deus e não tive como abordar a questão. Hoje, com algumas semanas de atraso, refiro-me ao evento ocorrido em Santo André, que finalizou com a morte da adolescente Eloá Cristina Pimentel.

Chamo a atenção, especificamente, para um detalhe da psicologia do jovem Lindembergue Alves, sua dificuldade em lidar com frustrações. Trata-se de algo inerente a todos nós e que se torna cada vez mais destacado na cultura ocidental. Até tempos atrás, ainda que todos admitíssemos ser tomados, vez por outra, de arroubos de indignação e até inveja diante das perdas, agora a situação ganha contornos apocalípticos. Disputam espaço duas gerações para quem o “não” é traumático e existencialmente fulminante. “Eu quero isso e pronto!” Eis o argumento que define a parada. “Se eu não for satisfeito farei um estrago”. Assustadoramente simples.

Deus nos educa dizendo-nos “não” (Êx 20.1-17). Para nosso benefício ele não faz as nossas vontades. Ele nos humilha para que saibamos que não somos deuses e nos priva da satisfação escancarada de nossos apetites para que aprendamos a ter prazer somente nele. Somos por ele revestidos e dele recebemos domínio próprio e longanimidade.

O objetivo divino é que, assentada a poeira da tribulação, escorrida a seiva da frustração, permaneçamos doces. Difícil? Isso é maturidade. Sofremos como personagens de música sertaneja e depois nos colocamos de pé, consolados pelo Espírito. Aprendemos que viver é perder com louvor no coração, ainda que doído.

Ademais, por meio de Cristo podemos lidar com aqueles que nos decepcionaram, os arquitetos de nossas perdas e suposta humilhação, olhando-os nos olhos, respeitando-os, entregando-os aos cuidados de Deus e amando-os nos termos da Escritura.

Lindembergue foi às últimas conseqüências de seu desejo: Possuir ou destruir. Não se trata de amor a Eloá, mas de obsessão doentia por si próprio, que usa o outro como objeto cujo bem-estar nem sequer é considerado. “O que importa é o que eu quero”. Estamos prontos a perder para que o outro ganhe? Nas palavras do Cântico dos cânticos o amor não pode ser comprado ou forçado (Ct 8.7).

A opção de quem não sabe lidar com a frustração é a violência explícita ou tácita. Truculência no trato “educado” ou demonstrações visíveis de descontentamento; um salto no abismo do desespero que leva à autodestruição enquanto é reclamado um “direito”; absurdo dos absurdos. Por detrás do humano um animal — o pecador desfigurado e transtornado — que rosna furioso porque perdeu.

A raiva da perda pode ser eliminada pelo tratamento do Espírito. Os passos são regeneração, conversão e busca de mudança espiritual, pela Palavra, no poder do Consolador. Outras situações exigirão cuidados clínicos. Somos frágeis também na mente e emoções e não é vergonhoso pedirmos ajuda. Um cristão que se consulta com um psicólogo ou psiquiatra não é menos espiritual do que quem é ajudado por um fisioterapeuta ou cardiologista. É melhor providenciar a solução enquanto há tempo, antes que se percam outras Eloás.

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    “Na maior parte dos casos, um homem tanto mais gesticula e dramatiza em defesa de suas opiniões quanto menos está seguro delas por dentro, por não as haver examinado bem.”  por Olavo de Carvalho Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão, p. 17-18.

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