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Aulas adoração bíblica

A queda e os adoradores verdadeiros e falsos

Como a queda afeta a adoração? Primeiro surge a idolatria. Ademais, o homem perde toda e qualquer qualificação para se apresentar diante de Deus. Por fim, surgem duas linhagens, de verdadeiros e falsos adoradores.

A imaginação do homem é, por assim dizer, uma perpétua fábrica de ídolos. João Calvino.[1]

Introdução

As palavras de Calvino, citadas acima, resumem sua percepção do impacto da queda na adoração. A relação do homem com Deus sofreu grande prejuízo por causa do pecado. Isso é explicado no terceiro capítulo de Gênesis.

Queda, idolatria e autoadoração

No terceiro capítulo do livro de Gênesis surge um novo personagem, nāḥāsh, “a serpente”. Este vocábulo está ligado a dois outros termos hebraicos, um substantivo ligado à ideia de “algo reluzente” e um verbo que descreve a prática de [2] Trata-se de um animal “que o Senhor Deus tinha feito” (Gn 3.1), ou seja, não há no cosmos nenhum ser que rivalize com Deus; o opositor que surge é criatura sujeita à soberania divina: “O capítulo fala, não do mal invadindo, como se tivesse existência própria, mas de criaturas entrando em rebelião”.[3] A palavra ‘ārōm, “astuta” ou “sagaz” é usada positivamente em Provérbios significando ação inteligente diante do perigo (Pv 12.16, 23, 13.16, 14.8, 15, 18, 22.3, 27.12; cf. Mt 10.16). Em Jó, porém, o termo descreve as pessoas abominadas por Deus (Jó 5.12, 15.5).[4]

A serpente instiga Eva a desobedecer ao Criador. Sua pergunta — “é assim que Deus disse”? (Gn 3.1) — introduz o diálogo, abre espaço para checar a segurança da mulher acerca da ordem divina e prepara o terreno para o cerne da tentação através de um silogismo:[5]

Primeira premissa:[6] Deus não é confiável — ele “sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos […]” (Gn 3.5).
Segunda premissa: Se Deus não é confiável, o que ele diz não precisa ser levado a sério — “é certo que não morrereis” (Gn 3.4).
Conclusão: Vocês podem comer do fruto e, ao fazerem isso, “como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal” (Gn 3.5).

Eva se vê diante da possibilidade de se estabelecer a partir de uma ordem alternativa. Ela não precisa estar mais sob Deus uma vez que, ao comer do fruto, será “como Deus” (Gn 3.5). Trata-se de uma proposta de suposta autonomia. “Quando ela comeu do fruto, a […] alienação foi consumada. ‘Deus é Deus e eu sou eu, e eu estou preparada para me virar sozinha’”.[7] A mulher come do fruto e o dá ao seu marido, que também come (Gn 3.6). O problema é que ao tentar se estabelecer “como Deus”, o homem se assume contra Deus. “Daí por diante Deus será tido, conscientemente ou não, como rival e inimigo”.[8] Por isso, “tudo o que o homem faz, o faz para Deus ou contra Deus, redunda em glória e honra a Deus ou a um ídolo”.[9]

Pior, o que está implícito na oferta da serpente é “não confie em Deus; confie em mim” ─ o oposto de João 14.1. A partir daquele instante, “um reino parasita”[10] é estabelecido no cosmos. A serpente instala um vírus no sistema cósmico, com a finalidade de sublevá-lo e destruí-lo.

O cumprimento da promessa da serpente “foi um grotesco anticlímax do sonho de iluminação. O homem viu o mundo que lhe era familiar, e o contaminou ao vê-lo, projetando o mal sobre a inocência […] e reagindo ao bem com vergonha e fuga”.[11] O homem que busca a autonomia se separa de Deus e se torna subserviente à serpente, “o príncipe da potestade do ar”, e, por conseguinte, aos seus próprios “delitos e pecados” e ao “mundo” (Ef 2.1-3).[12] O mundo continua sendo de Deus, no entanto, contém dentro de si rebeldia instigada pela serpente.

Como isso afeta a adoração? Primeiro surge a idolatria; o homem passa a adorar a criatura em lugar do Criador (Rm 1.18-23). Um refinamento disso é a autoadoração (egolatria).

Não mexe comigo que eu não ando só…
Eu tenho Jesus, Maria e José
Todos os pajés em minha companhia
O menino-Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou.[13]

O padrão perfeito de adoração, estabelecido na criação, é desconsiderado. A alma humana, criada para Deus, é tomada por uma miscelânea de ídolos.

A queda produz um segundo resultado. O homem decadente perde toda e qualquer qualificação espiritual e moral para se apresentar diante de Deus (Sl 14.2-3). A santidade do Criador exige a aplicação da sentença anunciada em Gênesis 2.16-17; o pecado traz morte física e espiritual — a perda da comunhão no jardim e do acesso à árvore da vida (Gn 3.19, 22-24; cf. Ez 18.20; Rm 6.23). Até a queda a adoração é uma experiência de comunhão plena, em que Deus se agrada das obras de Adão e sua mulher. Após a queda, até as boas obras humanas — e isso inclui os rituais da religião — se tornam desagradáveis a Deus (Is 64.6-7). Impetra-se a exigência de uma satisfação de justiça, uma providência para o duplo problema do pecado (singular) enquanto princípio dominante na alma e dos pecados (plural) enquanto atos ou omissões contrárias às ordenanças divinas. A ação da serpente exige a promessa do Redentor, ou seja, por causa da queda é impossível cultuar sem redenção. Ainda que em Gênesis 3 não haja instrução explícita quanto aos sacrifícios de sangue, a cobertura da nudez do primeiro casal é providenciada pelo próprio Deus e implica morte de um animal (Gn 3.21).

Um terceiro resultado precisa ser ainda analisado: Surgem duas linhagens, de verdadeiros e falsos adoradores.

Duas linhagens: adoradores verdadeiros e falsos

Deus garante o cumprimento do mandato espiritual firmando o pacto da redenção. A serpente é sentenciada à completa humilhação e derrota (Gn 3.13-15).[14] Ela sofrerá um golpe mortal desferido pelo Redentor — este, mesmo ferido, pisará em sua cabeça (Gn 3.15): “A luta amarga terminará com a vitória para a semente da mulher, i.e., para o Messias, e para os regenerados que têm fé nele”.[15]

Deus institui um conflito irreconciliável no protoevangelho. Ele estabelece “dentro do cosmos, entre a semente de Satanás e a semente da mulher, uma linha divisória, um tremendo abismo que separaria as duas sementes. Essa linha divisória tem sido e deverá continuar a ser chamada a antítese”.[16]

A partir de então, a forma como os homens adoram a Deus é configurada pela demarcação de duas linhagens, a “descendência” da serpente (os falsos adoradores) e o “descendente” da mulher (Cristo e seus servos, a igreja; cf. Ap 12.17).[17] O contingente de “verdadeiros adoradores” é constituído daqueles que Deus “procura” e salva (Jo 4.23).

Conclusão

Como cultuamos a Deus? Por causa da queda, não temos como adorá-lo baseados em nosso próprio entendimento ou obras; precisamos de um Redentor. Há somente dois tipos de adoradores, falsos — apóstatas ligados à serpente, obstinados de coração e destinados à perdição — e verdadeiros — ligados a Cristo, os servos de Deus pertencentes à família da aliança.

Notas

[1] CALVINO, João. As Institutas: Edição Clássica. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, I.XI.8.

[2] HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006, p. 40.

[3] KIDNER, Derek. Gênesis: Introdução e Comentário. 1. ed. Reimp. 1991. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1979, p. 63. (Série Cultura Bíblica); cf. HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 80.

[4] HAMILTON, op. cit., p. 41.

[5] Em Lógica, silogismo é uma “dedução formal tal que, postas duas proposições, chamadas premissas, delas, por inferência, se tira uma terceira, chamada conclusão” (FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Silogismo. In: Dicionário Aurélio Eletrônico 7.0. Curitiba: Editora Positivo, 2009. CD-ROM). No caso da tentação em Gênesis 3.1-7, trata-se de um silogismo erístico, ou seja, um engano ou “sofisma”.

[6] Premissa é uma proposição, declaração, fato ou princípio.

[7] FRANCISCO, CLYDE T. Gênesis. In: ALEN, Clifton G. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Antigo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, v. 1, p. 184. Grifo nosso.

[8] KIDNER, op. cit., p. 64.

[9] OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. A Relevância Transcendental do Deum et Animam Scire no Pensamento de Herman Dooyeweerd. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2004, p. 4. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ).

[10] VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e Consumação. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, v. 1, p. 127. O vocábulo “reino” refere-se a um “poder comandante; a manifestação deste poder, o lugar onde este poder é manifestado; e ao domínio que é influenciado” (VAN GRONINGEN, op. cit., p. 127-128). A expressão “parasita” denota que o reino da serpente é “completamente dependente do reino cósmico de Deus. Satanás, como um ser criado, não é autônomo; ele tira todos os aspectos essenciais da sua existência e atividades de sua fonte, o Criador” (ibid., p. 128-129).

[11] KIDNER, op. cit., p. 65. Cf. Gênesis 3.7.

[12] No Novo Testamento, kosmos, “mundo” é usado para se referir ao universo (Mt 25.34), à terra (Mt 4.8), ao somatório dos eleitos de Deus (Jo 3.16), às aquisições e realizações humanas (Mt 16.26, 1Co 7.31) e à cultura influenciada por Satanás, oposta e hostil a Cristo e aos cristãos (Jo 7.7, 8.23, 12.31, 16.33, 17.25; 1Jo 2.15-17).

[13] PINHEIRO, Paulo César. Carta de Amor. In: MARIA BETHÂNIA. Oásis de Bethânia. Biscoito Fino, 2012. 1 CD.

[14] KAISER JR., op. cit., p. 40-41.

[15] VAN GRONINGEN, op. cit., p. 155.

[16] Ibid., p. 154. Grifos nossos.

[17] VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2019, p. 67-72, designa estas duas linhagens de “cainitas e setitas”.

Referências bibliográficas

ALEN, Clifton G. (Ed.). Comentário bíblico Broadman: Antigo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, v. 1.

CALVINO, João. As institutas: edição clássica. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 1.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio eletrônico 7.0. Curitiba: Editora Positivo, 2009. CD-ROM.

HAMILTON, Victor P. Manual do Pentateuco. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2006.

HOUSE, Paul R. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Editora Vida, 2005.

KIDNER, Derek. Gênesis: introdução e comentário. 1. ed. Reimp. 1991. São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1979. (Série cultura bíblica).

MARIA BETHÂNIA. Oásis de Bethânia. Biscoito Fino, 2012. 1 CD.

OLIVEIRA, Fabiano de Almeida. A relevância transcendental do Deum et animam scire no pensamento de Herman Dooyeweerd. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, 2004. Originalmente apresentada como dissertação de mestrado, Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ).

VAN GRONINGEN, Gerard. Criação e consumação. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, v. 1.

VOS, Geerhardus. Teologia bíblica: Antigo e Novo Testamentos. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.

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