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A salvação dos “nascidos de mulher” [Jó 25.1-6]

Misael Batista do Nascimento. © Permitida a reprodução citando a fonte. Sermão pregado na IPB Rio Preto, em 10/05/2020, 9h. Versão em PDF (125 KB).

Áudio do sermão

Texto bíblico: Jó 25.1-6

1 Então, respondeu Bildade, o suíta:

2 A Deus pertence o domínio e o poder;
ele faz reinar a paz nas alturas celestes.
3 Acaso, têm número os seus exércitos?
E sobre quem não se levanta a sua luz?

***

4 Como, pois, seria justo o homem perante Deus,
e como seria puro aquele que nasce de mulher?
5 Eis que até a lua não tem brilho,
e as estrelas não são puras aos olhos dele.
6 Quanto menos o homem, que é gusano,
e o filho do homem, que é verme!

Introdução

O capítulo que lemos encerra as falas dos amigos de Jó. Por conseguinte, esta é a última ocasião em que Bildade fala. Esse também é o capítulo mais curto do livro de Jó porque parece que, de fato, os argumentos dos amigos se esgotaram.

A partir da resposta de Jó, no capítulo seguinte, tudo se encaminha para o grande final do livro. A fala de Bildade pode ser resumida em duas sentenças: [1] Deus é louvável e [2] o ser humano não passa de um pequeno verme.

Nós veremos que há um sentido em que Bildade diz coisas verdadeiras aqui, mas temos de compreender em que sentido Bildade comete erro, mesmo nesta última e tão curta fala. Por gentileza, me acompanhe olhando para os v. 1-3. Perceba como Bildade deixa claro, em primeiro lugar, que…

I. Deus é louvável

Bildade louva a grandeza divina. Os v. 2-3 contêm um hino curto de louvor. Uma doxologia.

Se nos capítulos anteriores Jó sublinhou que Deus é o soberano que dirige tudo conforme suas razões, agora Bildade também menciona a majestade e a elevação divinas:

2 A Deus pertence o domínio e o poder;
ele faz reinar a paz nas alturas celestes.

Deus reina sobre os exércitos incontáveis. Deus ilumina a todos com sua luz.

3 Acaso, têm número os seus exércitos?
E sobre quem não se levanta a sua luz?

Nenhum crente pode se opor a esta declaração de Bildade. Deus é, de fato, louvável. É ato de fé inteligente reconhecer que:

Há um só Deus, o Deus vivo e verdadeiro.[1]

Somente Deus é digno de ser adorado, ou seja, de receber glória, honra e louvor.

Só tu és Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora (Ne 9.6).

E ainda:

E reconhecerão que só tu, cujo nome é Senhor,
és o Altíssimo sobre toda a terra (Sl 83.18).

E por fim:

Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus! (Sl 86.10).

A Escritura nos convoca a crer no Deus verdadeiro e a abandonar toda e qualquer idolatria. Voltando a Bildade, ele diz que Deus é louvável, mas esta não é sua única declaração. Bildade prossegue afirmando, em segundo lugar, que…

O ser humano não passa de um pequeno verme

Depois de destacar a grandeza de Deus, Bildade pontua o estado pecaminoso do homem.

4 Como, pois, seria justo o homem perante Deus,
e como seria puro aquele que nasce de mulher?

Bildade argumenta que, diante da glória e pureza infinitas de Deus, até a lua e as estrelas são tidas por impuras.

5 Eis que até a lua não tem brilho,
e as estrelas não são puras aos olhos dele.

Sendo assim, comparado a Deus, o ser humano não passa de um pequeno verme ou como uma larva.

6 Quanto menos o homem, que é gusano [larva, BJ e NAA; verme, ARC],
e o filho do homem, que é verme!
[um bicho, ARC; um vermezinho, NKJ]

E aqui, mais uma vez, as palavras de Bildade repercutem outros trechos da própria Escritura:

Mas eu sou verme e não homem;
opróbrio dos homens e desprezado do povo (Sl 22.6).

E ainda:

Não temas, ó vermezinho de Jacó, povozinho de Israel; eu te ajudo, diz o Senhor, e o teu Redentor é o Santo de Israel (Is 41.14).

É assim que termina a fala de Bildade e cessam os discursos proferidos pelos amigos de Jó. E a partir daqui, encaminharei algumas aplicações e considerações finais.

Concluindo…

Aprendemos que Bildade conclui os discursos dos amigos de Jó afirmando que: {1] Deus é louvável, mas [2] o ser humano não passa de um pequeno verme.

Peço a você que caminhe comigo em algumas considerações e aplicações.

[1] Como eu disse, existe verdade — inclusive verdade bíblica — nestas palavras. E aqui, alguns intérpretes do livro de Jó se confundem. Pois é fácil deixar de interpretar Jó cap. 25 deixando de verificar que, em Jó 42.7-9, o próprio Deus informa que Bildade e os demais amigos de Jó “não disseram de Deus o que era reto” (Jó 42.7). Eles tiveram de oferecer sacrifícios e Jó precisou interceder por eles, para que fossem perdoados. Isso quer dizer que Bildade cometeu pecado nessa sua última fala.

Em que sentido o discurso de Bildade está errado? Bildade falou verdades bíblicas — verdades sobre Deus —, mas ele não falou a verdade sobre Deus e a verdade de Deus conforme o evangelho. Ele fez algo semelhante aos que tentam nos convencer do argumento sabático, ou sobre os nomes de Deus. Nesses termos, Bildade se assemelha aos doutrinadores do Judaísmo e do Islamismo, que podem citar textos bíblicos defendendo a fé em um único Deus (o monoteísmo). Mesmo assim, tais doutrinadores não são mensageiros do evangelho.

Prestemos atenção nisto: é possível ser mensageiros da verdade de Deus e ainda assim desagradar a Deus, porque Deus nos manda ser testemunhas do evangelho; Deus nos manda a este mundo para apresentar Jesus Cristo.

[2] A ignorância de Bildade, acerca do evangelho, aparece no v. 4.

4 Como, pois, seria justo o homem perante Deus,
e como seria puro aquele que nasce de mulher?

A resposta a esta pergunta estava disponível para Bildade, em Gênesis 3.15:

Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.

Isso é atualizado no Evangelho de Lucas (1.26-31):

26 No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27 a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria. 28 E, entrando o anjo aonde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo.
29 Ela, porém, ao ouvir esta palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação. 30 Mas o anjo lhe disse: Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus.

Paulo retoma isso em sua carta aos gálatas (Gl 4.4-7):

4 vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, 5 para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. 6 E, porque vós sois filhos, enviou Deus ao nosso coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai! 7 De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus.

Eis a resposta a Bildade: o homem que nasce da mulher pode ser feito puro se acreditar em Jesus, homem nascido da mulher — o Redentor que, com sua vida, morte e ressurreição, dá perdão, purificação e vida eterna a todos os que acreditam nele. O evangelho humilha o homem e dignifica o homem. Não é sem razão que Andersen conclui seu comentário sobre este capítulo com as seguintes palavras: “com esta nota nojenta e sem esperança terminam as palavras dos amigos de Jó”.[2]

[3] Isso nos conduz a uma última aplicação. O Redentor, em sua natureza humana, teve mãe. Em sua fidelidade e incondicionalidade, o amor entre uma mãe e seus filhos reflete e aponta para o evangelho, de diferentes formas.

Sendo assim, obrigado e parabéns às mães!

Misael Batista do Nascimento. © Permitida a reprodução citando a fonte. Sermão pregado na IPB Rio Preto, em 10/05/2020, 9h. Versão em PDF (121 KB).

Notas

[1] Breve Catecismo de Westminster, pergunta 5, “Há mais de um Deus?”. In: BÍBLIA DE ESTUDO HERANÇA REFORMADA. São Paulo; Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2018, p. 2020.

[2] Versões bíblicas: BJ Bíblia de Jerusalém; NAA Nova Almeida Atualizada; ARC Almeida Revista e Corrigida; KJA King James Atualizada.

[3] ANDERSEN, Francis I. Jó: Introdução e Comentário. Reimp. 2017. São Paulo: Vida Nova, 1984, p. 214. (Série Cultura Bíblica).

Referências bibliográficas

ANDERSEN, Francis I. Jó: introdução e comentário. Reimp. 2017. São Paulo: Vida Nova, 1984. (Série cultura bíblica).

BÍBLIA DE ESTUDO HERANÇA REFORMADA. São Paulo; Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2018.

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