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Arte como esfera cosmonômica

O conceito de arte como esfera cosmonômica surge no contexto do novo calvinismo holandês.

Novo calvinismo holandês

Não se deve confundir o “novo calvinismo holandês” com o “novo calvinismo norte-americano”, capitaneado por pregadores tais como John Piper, Albert Mohler e Mark Dever, dentre outros, e mencionado como uma das dez ideias que estão mudando o mundo agora, em reportagem de 2009 da Time.[1] Enquanto o novo calvinismo norte-americano é um movimento evangelístico-missional, o novo calvinismo holandês é uma proposta de leitura e transformação da realidade, tanto uma cosmovisão quanto um programa.[2]

O novo calvinismo holandês nasce no século 19, sob influência de Abraham Kuyper (1837—1920), teólogo, político, jornalista e estadista (Primeiro-Ministro dos Países Baixos entre 19091 e 1905).[3] Na Holanda atual, ele é representado politicamente pelo Partido Político Reformado.[4]

O entendimento de Kuyper, do calvinismo como um sistema de vida, é compartilhado em suas “Palestras Stone (Stone Lectures)”,[5] enunciadas em 1898 na “Universidade e Seminário de Princeton, […] a convite da fundação L. P. Stone”.[6]

Esfera de soberania — em Kuyper

Kuyper entende que o calvinismo propõe um sistema de vida, diferenciando-se de outras perspectivas religiosas, nos seguintes termos:

Do paganismo pode geralmente ser dito que ele coloca uma estimativa muito alta do mundo e, por isso, em alguma extensão, ele tanto permanece com medo dele como perde-se nele. Por outro lado, o islamismo coloca uma estimativa muito baixa do mundo, zomba dele e triunfa sobre ele ao alcançar o mundo visionário de um paraíso sensual. […] Sob a hierarquia de Roma, a Igreja e o Mundo foram colocados em oposição ao outro, a primeira como sendo santificada e o outro como estando sob a influência de demônios e o exorcismo expulsava este poder demoníaco de tudo que estivesse sob a proteção e influência e inspiração da Igreja.
[…]
Portanto, em um país cristão toda a vida social deveria estar coberta pelas asas da Igreja. […] Como resultado natural, o mundo corrompeu a Igreja, e por seu domínio sobre o mundo, a Igreja proveu um obstáculo a todo desenvolvimento livre de sua vida.[7]

O calvinismo é diferente porque, ao mesmo tempo em que reconhece Deus no mundo, propõe a existência de “esferas independentes, mas sob Deus”.[8] Nesses termos, Kuyper fala sobre “esferas sociais individuais” ou “diferentes desenvolvimentos da vida social” que funcionam sem “nada […] acima deles exceto Deus”.[9] Kuyper diferencia “vida orgânica da sociedade” de “caráter mecânico do governo” e afirma que a primeira tem seu lugar independentemente do último. Isso conduz a uma ideia de “autoridade orgânica” nas ciências e na arte.[10]

Dito de outro modo, para o novo calvinismo holandês-kuyperiano, a arte possui sua própria esfera de soberania. Sustentando simultaneamente que Deus concede dons artísticos e que a arte, como todas as iniciativas humanas, pode desenvolver-se como contrária a Deus,[11] o calvinismo encoraja as artes sem exigir uma “arte especificamente cristã”[12] e, deste modo, “emancipa a arte”.[13]

Esfera modal — cosmonomia; filosofia da ideia cosmonômica; Herman Dooyeweerd

O nome de Herman Dooyeweerd (1894—1977) é associado à Filosofia da Ideia Cosmonômica (ou Cosmonomia).[14] A obra magna sobre esta filosofia, De Wijsbegeerte der Wetsidee, foi publicada por Dooyeweerd na Holanda em 1935, e em inglês entre 1953-58, sob o título A New Critique of Theoretical Thought.[15]

Cosmonomia [De cosmos; gr. kosmos, 1. Universo; 2. Totalidade da criação; 3. Aquilo que existe; 4. Realidade + gr. nomos; 1. lei; 2. norma superior universalmente válida que controla a realidade].[16] Fornecer uma explanação desta proposta filosófica foge ao escopo deste texto. Basta por ora estabelecer que a Filosofia da Ideia Cosmonômica assume como pressupostos (1) o ser de Deus criador de todas as coisas e redentor de sua criação; (2) a realidade criada composta por catorze ou quinze esferas modais, cada um com seu respectivo núcleo de sentido; (3) cada aspecto é tido como esfera que possui sua própria legitimidade e soberania (uma ontologia e um modo de operação consistentes com o seu nomos concedido pelo criador).[17]

Carvalho esclarece que “em busca de uma estrutura transmodal de significado, Dooyeweerd construiu a sua escala modal, identificando um total de quinze esferas, nesta ordem: Numérica, espacial, cinemática, física, biótica, psíquica, lógica, histórica, linguística, social, econômica, estética, jurídica, ética e pística (do grego pistis, fé)”.[18] Ao mencionar a fé como escala modal, Dooyeweerd não se refere necessariamente à fé cristã; ele simplesmente quer dizer que o ser humano funciona a partir de uma concepção de origem, propósito e significado que é sempre religiosa. Não há neutralidade não apenas acadêmica, mas na vida em geral; todos pensamos, sentimos e agimos baseados em pressupostos que, por não poderem ser provados por evidências indubitáveis, e por se relacionarem com questões últimas, são inequivocamente religiosos (tabela 01).[19]

Tabela 01. Lista de aspectos modais.
ESFERA MODAL NÚCLEO DE SENTIDO EXEMPLOS DE CIÊNCIAS RELACIONADAS

15. Pística ou Fiduciária

Certeza transcendental quanto à Origem de todas as coisas

Teologia Fundamental, Teologia Sistemática

14. Ética

Amor

Ética Social, Bioética

13. Jurídica

Julgamento/Harmonização jurídica

Direito, Ciência Política

12. Estética

Harmonia

Estética, Teoria Harmônica, Arquitetura

11. Econômica

Conservação de valor

Economia

10. Social

Intercurso social

Sociologia, Urbanismo, Ciências Gerenciais

9. Linguística/Semiótica

Significado simbólico

Semiótica, Filologia

8. Histórica/Formativa

Realização cultural

História, Antropologia Cultural

7. Lógica

Diferenciação racional

Lógica

6. Psíquica/Sensória

Sensação

Psicologia; Educação

5. Biótica

Vida

Biologia, Ecologia, Bioquímica

4. Física

Matéria/Energia

Física, Química

3. Cinemática

Movimento

Cinemática

2. Espacial

Extensão

Geometria Espacial

1. Numérica

Quantidade discreta

Matemática

O lugar da arte na esfera modal cosmonômica

Ao ratificar a proposição de Kuyper, da arte como “esfera independente”, qualificando-a como esfera modal cosmonômica estética, cujo núcleo de significado é a harmonia, o novo calvinismo holandês abre espaço para o engajamento filosófico e a legitimação da arte, por parte do cristianismo protestante.[20]

Mais do que incentivar qualquer modismo ou iniciativa artística em particular, a consideração da arte como esfera modal cosmonômica possibilita um olhar que valoriza e incentiva a arte em sua diversidade e, ao mesmo tempo, exerce discernimento quando esta se assume como “um tipo de religião irreligiosa em que a religião não possui um papel claramente definido”.[21] Se atualmente, Roger Scruton se propõe a enfrentar a “crise das humanidades” defendendo a ideia de beleza como “valor real e universal ancorado [unicamente] em nossa natureza racional”,[22] os novos calvinistas holandeses encaram a arte — mesmo a realizada fora de qualquer intenção conscientemente religiosa — como um dom de Deus, uma dádiva digna de atenção que “desempenha um importante papel na liturgia da vida”.[23]

Notas

[1] Cf. VAN BIEMA, David. 10 Ideas Changing the World Right Now. In: Time. Disponível em: <http://content.time.com/time/specials/packages/article/0,28804,1884779_1884782_1884760,00.html>. Acesso em: 09 jun. 2017.

[2] Bernard Zylstra (cf. KALSBEEK, L. Contornos da Filosofia Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 27) entende que “a recepção” do novo calvinismo holandês — aqui identificado especialmente com a Filosofia da Ideia Cosmonômica — “foi obstruída” no “mundo de fala inglesa” e sugere cinco razões para tal fato — (1) o momento histórico de sua proposição, indisposto ao acolhimento de “uma filosofia radicalmente cristã” (op. cit., p. 26); (2) a ausência de uma “tradição filosófica” na “ortodoxia protestante” (ibid., p. 26-27); (3) a barreira do idioma — nas contribuições acadêmicas, o latim foi substituído pelo inglês, francês e o alemão, restringindo a divulgação de ideias em holandês (ibid., p. 27-28) e “qualquer que queira entender um movimento filosófico terá de aprender a língua daquele movimento, reconhecer tanto suas contribuições como suas falhas. Isso é verdade sobre a fenomenologia de Husserl, sobre a escola de Frankfurt; e também é verdade em relação à Filosofia da Ideia Cosmonômica” (ibid., p. 28); (4) o novo calvinismo holandês provoca estranheza ao rejeitar “a noção de que a teologia seja a rainha das ciências” (ibid., p. 29) e, (5) quanto a suas “ramificações socioeconômicas e políticas […] ele é agudamente crítico do marxismo, mas ao mesmo tempo rejeita o neocapitalismo […]. Uma crítica cristã do capitalismo é, obviamente, facilmente mal interpretada, especialmente na América do Norte” (ibid., loc. cit.).

[3] KUYPER, Abraham. Calvinismo. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 9-15.

[4] O GLOBO. Premier Holandês Terá Dificuldades em Atrair Parceiros a Novo Governo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/mundo/premier-holandes-tera-dificuldades-em-atrair-parceiros-novo-governo-21074632>. Acesso em: 09 jun. 2017.

[5] KUYPER, op. cit., p. 5.

[6] Ibid., loc. cit.

[7] Ibid., p. 37-38. Grifo nosso.

[8] Ibid., p. 38, 98. Dooyeweerd afirma que a ideia de esferas soberanas remonta, na Alemanha, a Friedrich Julius Stahl (1802—1861) e, nos Países Baixos, a Guillaume Groen van Prinsterer (1801—1876). cf. DOOYEWEERD, Herman. Raízes da Cultura Ocidental. São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 68-71. Van Prinsterer foi “a primeira pessoa a usar a expressão souvereiniteit in eigen sfeer (soberania dentro de sua própria esfera) no que diz respeito à relação mútua entre igreja e Estado. Mas ele ainda não via esse princípio como um princípio da criação de âmbito universal” (op. cit., p. 70). Esta foi a grande contribuição de Kuyper, compreender “o princípio da soberania das esferas como um princípio da criação” (ibid., p. 71).

[9] Ibid., p. 98.

[10] Ibid., p. 101-102. Grifos do autor.

[11] Ibid., p. 159-164.

[12] Ibid., p. 164-177.

[13] Ibid., loc. cit. Kuyper fala de emancipação da arte referindo-se a seu descolamento do controle da Igreja Romana. Para Kuyper, as “expressões de vida” existentes na cultura têm sua origem em Deus, ao mesmo tempo em que não estão sujeitas à Igreja, como proposto anteriormente pelo romanismo.

[14] Ainda que seja digna de nota a contribuição de Dirk Hendrik Theodoor Vollenhoven (1892—1978) à Filosofia da Ideia Cosmonômica, Dooyeweerd foi o seu criador e principal proponente, enquanto Vollenhoven focou “principalmente a história da filosofia” (KALSBEEK, op. cit., p. 6).

[15] CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de. Sociedade, Justiça e Política na Filosofia de Cosmovisão Cristã: Uma Introdução ao Pensamento Social de Herman Dooyeweerd. In: LEITE, Cláudio Antônio Cardoso; CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; CUNHA, Mauricio José Silva. (Org.). Cosmovisão Cristã e Transformação: Espiritualidade, Razão e Ordem Social. Viçosa: Editora Ultimato, 2006, p. 190.

[16] Estes significados são atribuídos por Dooyeweerd e os filósofos cosmonômicos posteriores.

[17] Cf. DOOYEWEERD, op. cit., p. 78-105; KALSBEEK, op. cit., p. 31-38; CARVALHO, op. cit., p. 195-200.

[18] Ibid., p. 196.

[19] Cf. estes aspectos aplicados a um objeto simples, em KALSBEEK, op. cit., p. 34-35.

[20] Dooyeweerd e calvinistas posteriores refletiram muito positivamente sobre a arte; cf. ZUIDERVAART, Lambert. Art, Education, and Cultural Renewal: Essays in Reformational Philosophy. Montreal: McGill-Queen’s University Press, 2017. Kindle Edition. A Filosofia da Ideia Cosmonômica ou Cosmonomia é também denominada Filosofia Reformacional ou, em alguns círculos, Filosofia Calvinística.

[21] ROOKMAKER, H. R. A Arte Não Precisa de Justificativa. Viçosa: Ultimato, 2010, p. 18.

[22] SCRUTON, Roger. Beleza. É Realizações, 2013, p. 8.

[23] ROOKMAKER, op. cit., p. 54; cf. SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010, p. 43-76.

Referências bibliográficas

DOOYEWEERD, Herman. Raízes da cultura ocidental. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

KALSBEEK, L. Contornos da filosofia cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. 2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.

LEITE, Cláudio Antônio Cardoso; CARVALHO, Guilherme Vilela Ribeiro de; CUNHA, Mauricio José Silva. (Org.). Cosmovisão cristã e transformação: espiritualidade, razão e ordem social. Viçosa: Editora Ultimato, 2006.

O GLOBO. Premier holandês terá dificuldades em atrair parceiros a novo governo. Disponível em: . Acesso em: 09 jun. 2017.

ROOKMAKER, H. R. A arte não precisa de justificativa. Viçosa: Ultimato, 2010.

SCHAEFFER, Francis A. A arte e a Bíblia. Viçosa: Ultimato, 2010.

SCRUTON, Roger. Beleza. É Realizações, 2013.

VAN BIEMA, David. 10 ideas changing the world right now. In: Time. Disponível em: . Acesso em: 09 jun. 2017.

ZUIDERVAART, Lambert. Art, education, and cultural renewal: essays in reformational philosophy. Montreal: McGill-Queen’s University Press, 2017. Edição do Kindle.

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