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As sete cartas: Deus fala à igreja atual

Como devemos interpretar as cartas de Apocalipse 2.1—3.22? Há quem as entenda como símbolos proféticos. E outros, como o autor destes estudos, as veem como cartas pastorais.

A leitura profética identifica as cartas como representações de eras ou períodos da história da igreja. De acordo com essa perspectiva, cada carta e igreja de Apocalipse 2.1—3.22 aponta para um período histórico em particular. Eugênio Corsini explica que:

Ainda hoje seguida por alguns, ela atingiu o auge sobretudo na antiguidade patrística, na Idade Média e no período sucessivo à Reforma protestante. Indícios dela podem ser encontrados em Agostinho que, nesse ponto, talvez já seguisse a interpretação do escritor africano Ticônio, seguidor do cisma donatista (séc. 4). Reaparece depois no comentário ao Apocalipse de Beda, o Venerável (Inglaterra, séculos 7-8), e em outros comentários medievais e também modernos.
A mais célebre de todas, embora não limitada somente às cartas, mas estendida a todo o Apocalipse, ficou sendo a divisão da história da igreja em épocas, feita por Joaquim de Fiore (falecido em 1202) no seu comentário: 1) época dos apóstolos (Ap 2—3); 2) dos mártires (Ap 4—7); 3) dos doutores da igreja (Ap 8—11); 4) dos virgens (Ap 12—14); 5) da luta contra o império degenerado (Ap 15—18); 6) do advento do Anticristo destruído pela volta de Cristo (Ap 19); 7) do reino milenar de Cristo, seguido depois pela ressurreição e pelo juízo final (Ap 20—22). Sabe-se que Joaquim afirmava estar vivendo na sexta época, e fixava o início da sétima para o ano 1260.[1]

A teoria é abraçada por alguns estudiosos dispensacionalistas clássicos, ordinariamente com o seguinte formato:

Éfeso representa a igreja primitiva; Esmirna, o período de perseguição na era patrística; Pérgamo aponta para o tempo de Constantino; Tiatira, para a era medieval; Sardes indica a época da Reforma; Filadélfia, para os séculos 18 e 19 (missões estrangeiras); e Laodiceia para a era moderna (tempo de crescimento da apostasia antes do retorno de Cristo).[2]

Diferentes arranjos e significações são propostos, concordando neste ponto: a destinação de cada carta é figurativa ou simbólica. Ao ditar a carta a Sardes, por exemplo, Jesus Cristo não estava pensando na igreja que existia de fato na cidade de Sardes e sim, como sugerem alguns, nas igrejas protestantes que surgiriam a partir do séc. 16. Destarte, o que o Senhor diz na carta a Sardes se aplicaria exclusiva e profeticamente, a crentes de outro tempo e lugar.

O autor destes estudos rejeita a leitura profética, compreendendo que ela apresenta uma dificuldade dupla. Em primeiro lugar, o critério de divisão das cartas em dois grupos, as que representam estágios passados que não voltam mais e as que têm aplicação sempre atual, até a volta de Cristo, parece tanto obscuro quanto discricionário. Corsini sublinha que “assistimos […] a um contínuo desvio e atualização dos termos por parte dos seguidores da interpretação ‘profética’, convictos na maior parte de encontrar-se na última ou na penúltima época”[3] e Hendriksen critica isso em termos cáusticos:

A ideia de que essas sete igrejas descrevem sete sucessivos períodos da história da igreja nem precisa de refutação. Para não dizer nada sobre a quase humorística — se não deplorável — exegese, que, por exemplo, torna a igreja morta de Sardes uma referência à era gloriosa da Reforma; deveria estar claro para qualquer estudante da Bíblia que não há em todo o escrito sacro qualquer átomo de evidência que corrobore esse método totalmente arbitrário de dividir a história da igreja e atribuir as partes resultantes às respectivas cartas de Apocalipse 2 e 3.[4]

Em segundo lugar, não parece exegeticamente honesto sugerir que, com exceção da primeira, as cartas não se relacionam com o tempo histórico de João e sim correspondem a compartimentos históricos futuros e estanques. Igrejas de hoje enfrentam as mesmas dificuldades e desafios, bem como apresentam virtudes e defeitos muito semelhantes aos das sete igrejas mencionadas em Apocalipse 2.1—3.22.

O melhor é admitir que as cartas dizem respeito a questões prementes nas “sete principais igrejas da província da Ásia”,[5] sendo que João “conhece as condições locais (tanto geográficas como espirituais), e sabe que pode escrever-lhes com uma autoridade que eles reconhecem”.[6] Não dar atenção a essa âncora histórica traz prejuízo para a compreensão do texto.

O passo seguinte é afirmar que, como Palavra de Deus, as cartas falam a todas as gerações de fiéis. Daí sua relevância para nós hoje. Sendo assim, Osborne está certo quando diz que:

As descrições das sete igrejas não se encaixam apenas em épocas da igreja. É evidente, com base no texto, que as características dessas cartas pretendiam ser atribuídas a todas as igrejas da Ásia Menor e, de fato, a todos os períodos da história da igreja.[7]

Como sugere Beale:

[…] os acontecimentos descritos nas visões, pelo menos em certa medida, já estavam ocorrendo no tempo em que João escrevia, pois o conteúdo das visões espelha o conteúdo das cartas, as quais foram dirigidas à situação que as sete igrejas estavam enfrentando. Se as sete igrejas são também representativas da igreja universal […], então o conteúdo tanto das cartas como das visões é igualmente aplicável às igrejas através dos tempos.[8]

E ainda, como lemos na Bíblia de Estudo de Genebra:

Todas as sete cartas aludem a circunstâncias e tradições de cada cidade em particular. Ao mesmo tempo, todas as igrejas são incluídas num chamado universal à fidelidade e à perseverança até que as promessas cheguem ao seu cumprimento na Jerusalém celestial.[9]

Vistas por esse ângulo estas cartas são pastorais, ditadas pelo Supremo Pastor a sete igrejas que, de fato, existiram no séc. 1. Ao mesmo tempo, elas são relevantes para as igrejas de todos os tempos. Devem ser tidas como retrato e mensagem, registrando a instrução de Cristo a determinadas igrejas em sua situação na história e, concomitantemente, falando conosco aqui e agora.

As cartas revelam que Cristo deseja ser ouvido e obedecido nas igrejas locais, que devem ser testemunhas dele. Jacques Ellul diz que “se Jesus Cristo é verdadeiramente o Senhor da história é através da sua igreja na história que deveria aparecer esta soberania”.[10]

O perfil das sete igrejas revela pecado, fraqueza e apostasia. Mostra também perseverança, trabalho, perseguição e martírio. É um mosaico com várias nuanças, um gráfico de altos e baixos e um chamado à fidelidade contínua, com a constante promessa de recompensas aos vencedores.

Aliás, a palavra “vencedor”, tão repetida nas cartas, é digna de nota. O termo grego (nikaō) denota ação militar, aquele que luta e conquista. Os seguidores de Jesus Cristo vencem, mas a vitória deles é mostrada em termos de inversão, como triunfo conquistado na perda. Como explica Charlesworth:

No Apocalipse de João, “vencer” é enfrentar e, na realidade, sofrer o martírio; vencer é ser vencido publicamente diante dos senhores terrenos que invertem o significado da realidade, do poder e da verdade […]. Sendo fiel à Torá e a Deus, pode-se “conquistar”, sendo “conquistado”.[11]

Conforme as cartas, a salvação é uma obra da graça que nos capacita a sofrer por Cristo, como vencedores.

As cartas mostram Cristo andando no meio das igrejas, analisando-as e testando-as. A história da igreja é uma história de testes. Diuturnamente os eleitos são treinados. “Todas as igrejas são questionadas, umas pela perseguição, outras pela tentação”.[12] Cada carta contém a asserção “conheço as tuas obras”, significando que o Senhor acompanha cuidadosamente os passos dos seus escolhidos. Sua presença os protege e também os educa para a vida santa, de modo que o pecado é identificado e repreendido, as obras são consideradas e o Senhor atenta para sua crença e conduta.

Em cada carta consta a asserção: “quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Trata-se da palavra de Cristo que chega até por pelo ministério do Espírito Santo. Deixar de ouvir esta revelação equivale a desconsiderar o sopro de Deus, dar as costas ao Senhor que nos ama e deseja nos ajudar e aperfeiçoar.

As cartas, sem dúvida, correspondem às realidades vivenciais das igrejas às quais foram originalmente enviadas. Assim como as outras epístolas do Novo Testamento, elas continuam atuais e possuem aplicação universal, dirigindo-se a nós, cristãos da igreja do século 21.

Notas

[1] CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Paulinas, 1984, p. 115. (Coleção Grande Comentário Bíblico).

[2] OSBORNE, Grant R. Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 116. (Comentário Exegético).

[3] CORSINI, op. cit., loc. cit.

[4] HENDRIKSEN, William. Mais Que Vencedores. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018, p. 78-79.

[5] STOTT, John. Homens Com Uma Mensagem: Uma Introdução ao Novo Testamento e Seus Escritores. São Paulo: Cristã Unida, 1996, p. 142.

[6] STOTT, op. cit., loc. cit.

[7] OSBORNE, op. cit., loc. cit.

[8] BEALE, G. K. Brado de Vitória. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p. 49.

[9] BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 2. ed. São Paulo; Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2009, p. 1722.

[10] ELLUL, Jacques. O Apocalipse: Arquitetura em Movimento. São Paulo: Paulinas, 1979, p. 138.

[11] CHARLESWORTH, James H. Jesus Dentro do Judaísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1992, p. 50.

[12] ELLUL, op. cit., p. 139.

Referências bibliográficas

BEALE, G. K. Brado de vitória. São Paulo: Cultura Cristã, 2017.

BÍBLIA DE ESTUDO DE GENEBRA. 2. ed. São Paulo; Barueri: Cultura Cristã; Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

CHARLESWORTH, James H. Jesus dentro do judaísmo. Rio de Janeiro: Imago, 1992.

CORSINI, Eugênio. O Apocalipse de São João. São Paulo: Paulinas, 1984. (Coleção Grande Comentário Bíblico).

ELLUL, Jacques. O Apocalipse: arquitetura em movimento. São Paulo: Paulinas, 1979.

HENDRIKSEN, William. Mais que vencedores. 3. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2018.

OSBORNE, Grant R. Apocalipse. São Paulo: Vida Nova, 2014. (Comentário Exegético).

STOTT, John. Homens com uma mensagem: uma introdução ao Novo Testamento e seus escritores. São Paulo: Cristã Unida, 1996.

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