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Cosmonomia e serviço pastoral

A Filosofia da Ideia Cosmonômica pode ajudar pastores a responder perguntas atuais, no contexto de luta contra a COVID-19.

O pastor deve se afastar da realidade mais ampla que o cerca e se concentrar exclusivamente nas coisas relacionadas à religião ou ele pode se enfronhar diretamente nas diversas áreas da vida humana? E se esta última for a melhor opção, até que ponto ele deve ir nessa imersão?[1]

Os aspectos modais da cosmonomia de Dooyeweerd

Respostas a estas questões podem ser sugeridas a partir da Filosofia da Ideia Cosmonômica, proposta por Herman Dooyeweerd (cf. mais sobre cosmonomia e artes, em meu post anterior). O Rev. Dr. Frans Leonard Schalkwijk explica que:

O princípio do seu pensamento é que tudo está debaixo da lei de Deus, por isso o nome original é “Filosofia da Ideia da Lei” (De Wijsbegeerte der Wetsidee). Esta lei de Deus governa toda a criação, por isso o conceito cosmonômico (kosmos + nomos).[2]

Dooyeweerd afirma que cada aspecto do cosmos possui seu próprio nomos (lei e modus operandi estabelecidos por Deus criador). Há quinze aspectos ou modos (aspectos modais) da realidade, divinamente estabelecidos em ordem ascendente, como segue (figura 1).

Aspectos modais Dooyeweerd
Figura 1. Aspectos modais da realidade (cosmonomia); adaptado de SCHALKWIJK, op. cit., p. 6.

Uma das contribuições da cosmonomia de Dooyeweerd é que ela “evita todo reducionismo”.[3] O Rev. Frans Leonard esclarece isso, como segue:

O primeiro aspecto é o numérico, porque o número é a mais básica de todas as “coisas”. O último aspecto é o pístico (de pistos, “fé”), pois a fé é a função mais sublime no homem (por isso todo sistema, toda ciência, tem caráter [ou radix] religioso). Entre estas duas fronteiras se encaixam as outras áreas da realidade, como os objetos inanimados, as plantas, os animais e finalmente o homem (coroa da criação divina) em toda a sua complexidade (pensar, falar, amar, crer etc.). De fato, a ideia de uma fé isenta de pressuposições é ateísta. Fé é uma suposição, assim como a não-fé. A diferença é em que(m) você coloca a sua fé, no “Acaso” ou no Criador. A fé é uma decisão do coração, não uma discussão intelectual (o centro não é a razão, a ratio, mas sim o coração).

Leis naturais e morais. Todos estes aspectos (1-14) estão sob leis firmadas pelo Criador-Legislador (Rex Lex). Os aspectos inferiores (1-5) sublinham as leis naturais; nos superiores (6-14), avultam as leis morais ou normativas, que demandam obediência voluntária (Lex Rex). Esta visão é muito bíblica, pois contempla a criação (Deus é Criador de cada aspecto modal), a queda (cada aspecto modal é marcado pelas consequências da rejeição original da lei de Deus), redenção (cada aspecto deve ser marcado com o nome de Cristo; cf. Sl 143.10) e consumação (toda a realidade constitui o reino de Deus). Sempre é destacada a mesma lei, de amar a Deus e semelhantes. Cada aspecto tem leis gerais e específicas; e todas as leis são multidimensionais.

Reducionismo. Qualquer redução da realidade a um dos seus aspectos (em si muito valioso) leva à tirania do reducionismo. Assim, em última consequência, a tese de Feuerbach (o homem é o que ele come!) conduz à tirania do Biótico. O reducionismo de Freud conduz à tirania do Psíquico. Descartes leva a outro tipo de reducionismo — tudo passa a se submeter à Lógica. E tanto Hegel quanto Nietzsche sofreram de “Historite”. Finalmente, na tentativa de entender toda a realidade à luz da Sociologia de Comte, o estudioso sofrerá de “Sociologite” e Marx padecia de “Economite” etc. Em geral “Cientifite” (ênfase isolada em determinada ciência). O Iluminismo (séc. 18) colocou o razão no trono (Racionalismo). A pessoa, porém, está acima da sua lógica (K. Pike, With Heart and Mind).

Unidade na complexidade. Toda a realidade cósmica (número, linha, objeto, planta, animal, homem, palavra, valores, costumes, fé etc.) se encaixa basicamente no seu próprio “aspecto-base” (como a planta no aspecto Vegetal, finanças no Econômico etc.). Mas, além disso, toda a realidade está interligada. Cada aspecto (menos o Pístico) tem uma “antecipação” nos aspectos superiores a ele, e cada aspecto (menos o aritmético) está incluído nos aspectos inferiores a ele. A “antecipação” é como uma seta que aponta para cima, a “inclusão” é como uma seta apontando para baixo. Em outras palavras, cada aspecto tem uma função teleológica (telos, alvo) e uma função temeleológica (themelios, fundamento). De fato, sem cair no reducionismo, toda a realidade está inseparavelmente inter-relacionada, e há unidade na complexidade. Por isso, todos os aspectos são indispensáveis, pois pertencem irrevogavelmente à plenitude criada por Deus. Por muito tempo, a fé era considerada como problema (Freud). Agora ela é entendida como uma influência positiva (A. Ellis).[4]

A cosmonomia diz “não” à percepção e funcionamento estanque de qualquer aspecto modal, ao mesmo tempo em que afirma o lugar destacado do aspecto pístico ou fiduciário. A Filosofia Reformacional não retorna ao pensamento medieval, que assumia a Teologia como “rainha das ciências”, ao mesmo tempo em que indica que não existe iniciativa ou desenvolvimento humano que prescinda de crença, ou seja, tudo o que o homem faz, ele o faz Coram Deo (na presença de Deus), admitindo a glória do Criador ou dando as costas para ele.

Também não se propõe uma queda de braço entre Fé e Razão (ou Ciência). Tanto a fé quanto a razão são tidas como dádivas de Deus.

Por fim, ainda que cada aspecto modal se conecte aos demais, cada um possui sua própria esfera de soberania (como defendia Kuyper). Por exemplo, tanto a Teologia quanto a Administração operam dentro de suas próprias demarcações, sendo que o teólogo tem consciência das distinções e limites de sua esfera, ao mesmo tempo em que respeita o que é implementado Coram Deo pelo administrador.

A utilidade da cosmonomia para o serviço pastoral

Eis uma possibilidade de responder às perguntas da introdução. Cada tentativa de resposta nos ajuda a compreender a relação entre a Filosofia Calvinística e o serviço pastoral.

Primeira questão: “O pastor deve se afastar da realidade que o cerca e se concentrar exclusivamente nas coisas relacionadas à religião?”

Resposta: Um pastor pode e deve enxergar em seu ministério na igreja, o potencial de afetar diferentes aspectos modais da realidade. A Bíblia contém verdade relevante para todos os aspectos da criação. Dooyeweerd conduz ao ponto máximo a proposição de Karl Barth, de que o cristão, no caso, o pastor, deve ler tanto o jornal quanto a Bíblia e interpretar aquele à luz desta.

Trabalhando a partir dessa consciência, um pastor pode ajudar os cristãos a funcionar como agentes pactuais na sociedade, exercendo cidadania biblicamente engajada, sem que o termo “engajamento” signifique violação fanática e desrespeitosa dos construtos concernentes às diferentes esferas modais.

Ilustro com dois exemplos.

Exemplo um. Em uma crise de saúde pública como a da pandemia global do novo coronavírus (COVID-19), o pastor pode ouvir os agentes sociais que desempenham suas vocações nas esferas 1-5, sem deixar de considerar o que transcorre nas esferas 7-14. Epidemiologistas, cientistas, farmacêuticos, médicos e outros profissionais operam nas esferas 1-7, profissionais de comunicação, nas esferas 7-9 e gestores e pensadores sociais, nas esferas 10-14. Todos contribuem para um esforço Coram Deo e que culmina, acredite o homem ou não, no cumprimento do propósito de Deus, soberano sobre tudo e todos.

Exemplo dois. O pastor pode oferecer ao membro de sua igreja, seja este um médico ou um administrador, subsídios bíblicos necessários para que este: (a) entenda o privilégio de sua vocação no âmbito do aspecto modal para ele criado e determinado (Sl 139.16; Ef 2.8-10); (b) lide biblicamente com suas lutas espirituais e desafios vocacionais; (c) atue como agente pactual — discípulo fiel de Jesus Cristo, na dependência do Espírito Santo e para glória de Deus (1Co 10.31).

É interessante, ainda nesse contexto, que pastores podem ajudar os cristãos a fazer diferença positiva no mundo sem que a igreja assuma a frente no oferecimento de soluções para problemas que devem ser abordados nos âmbitos de seus próprios aspectos modais, ou seja, a igreja não precisa estar à frente das pesquisas para desenvolvimento de uma vacina para combater um vírus pandêmico, mas pode orar e fornecer a mensagem do evangelho, pastoreio e incentivo para os agentes providencialmente colocados no aspecto modal 4, sejam estes cristãos ou não.

O pastor pode ainda trabalhar em diferentes aspectos modais. Deus às veze chama pastores para servi-lo em mais de um aspecto modal e talvez um dos exemplos mais notórios seja o de Abraham Kuyper, que se dedicou às lides pastoral, teológica, política e de comunicação social.

Isso nos conduz a outra questão (última): “até que ponto um pastor deve imergir em iniciativas extraeclesiásticas?

Resposta: Ele deve prosseguir até o ponto em que não seja demandada desobediência às Sagradas Escrituras. Além disso, ele precisa verificar se está dando conta dos compromissos de sua agenda múltipla. Todo pastor carece de sabedoria para saber como proceder, caso constate que não está cumprindo com suas obrigações com a igreja, em razão de afazeres exigidos pelas diferentes frentes de trabalho. Pastores que não equacionam bem isso não apenas prejudicam suas igrejas, mas também correm risco de desenvolver crises de vocação.

Considerações finais

Uma vez que tudo o que existe possui um nomos estabelecido pelo criador, o pastor pode se envolver com atividades que não sejam necessariamente intraeclesiásticas. Ele pode inclusive aproveitar as oportunidades no contexto de sua dedicação ao reino, para influenciar biblicamente diferentes aspectos modais da realidade.

Por outro lado, o governo da igreja exige que o pastor se dedique à Palavra, aos sacramentos e à oração (Ef 4.11-16; At 6.4; 1Co 11.23-25). O pastor relembra cotidianamente as pessoas sobre “Deus, o reino e o evangelho”.[5] É desejável que ele não descuide de seu posto na igreja, enquanto ensina sobre a integração de tudo o que existe em Cristo. Ele pode instar para que cada cristão seja “sal” e “luz” na cultura (Mt 5.13-16). Ele pode até mesmo pregar a gestores e influenciadores políticos e sociais, tal como Jesus, os apóstolos e os profetas bíblicos. Ele não precisa nem pode temer fazer uso inteligente dos saberes disponíveis nos diversos aspectos modais para potencialização do ministério cristão — buscar instrução útil, reconhecendo que toda verdade procede de Deus.

A Filosofia Reformacional diz “não” tanto ao fanatismo quanto à secularização. Ela diz “sim” ao cristianismo abrangente e ao ministério que não abre mão das prioridades bíblicas.

Notas

[1] Adaptação de aulas ministradas no CPAJ pelo professor Rev. Dr. Frans Leonard Schalkwijk, na semana de 20 a 24/09/2004, cf. SCHALKWIJK, Frans Leonard. (2004). Apostila O Criador e o Salvador da Liderança Pastoral. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ), 2004.

[2] SCHALKWIJK, op. cit., p. 6.

[3] Por exemplo, para uma ponderação interessante sobre o impacto da cosmonomia na política, cf. KOYZIS, David T. Introduccion a La Teoria Politica de Herman Dooyeweerd. Disponível em: <http://aaerm.tripod.com/publicaciones/web/politica.htm>. Acesso em: 28 abr. 2020.

[4] Extraído e adaptado de SCHALKWIJK, op. cit., p. 6-7; cf. SPIER, J.M. An Introduction to Christian Philosophy. Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1954; KALSBEEK, L. Contours of a Christian Philosophy. Amsterdam: Buyten & Schipperheyn, 1975. KUIPER, Roel. Beweging, 6/2001): “Para mim, esta filosofia tem significado existencial. Olhando para o Idealismo de Hegel, se vê orgulho; ouvindo o Existencialismo, desespero; encarando o Marxismo, desconfiança; sentindo o pós-modernismo, ironia, zombaria e nihilismo. Mas ouvindo a Filosofia Reformacional, se percebe um tom de aceitação (‘Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém’; Sl 24.1; cf. 1Co 1.26), um tom de descanso e confiança em Deus. Isto apela para mim”.

[5] PETERSON, Eugene. O Pastor Contemplativo: Voltando à Arte do Aconselhamento Espiritual. Rio de Janeiro: Textus, 2002, p. 157-160.

Referências bibliográficas

KALSBEEK, L. Contours of a christian philosophy. Amsterdam: Buyten & Schipperheyn, 1975.

KOYZIS, David T. Introduccion a la teoria politica de Herman Dooyeweerd. Disponível em: . Acesso em: 28 abr. 2020.

KUIPER, Roel. Beweging, 6/2001.

PETERSON, Eugene. O pastor contemplativo: voltando à arte do aconselhamento espiritual. Rio de Janeiro: Textus, 2002.

SCHALKWIJK, Frans Leonard. Apostila o Criador e o Salvador da liderança pastoral. São Paulo: Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper (CPAJ), 2004.

SPIER, J.M. An introduction to Christian Philosophy. Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1954.

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