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Deus tem suas razões (conclusão) [Jó 24.1-25]

Sermão pregado na IPB Rio Preto, em 03/05/2020. Versão em PDF (157 KB).

Áudio do sermão

IPB Rio Preto · Deus tem suas razões (conclusão) [Jó 24.1-25]

Texto bíblico: Jó 24.1-25


1 Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento? 
E por que os que o conhecem não veem tais dias?

2 Há os que removem os limites,
roubam os rebanhos e os apascentam.
3 Levam do órfão o jumento, 
da viúva, tomam-lhe o boi.
4 Desviam do caminho aos necessitados, 
e os pobres da terra todos têm de esconder-se.

5 Como asnos monteses no deserto, saem estes para o seu mister, 
à procura de presa no campo aberto, como pão para eles e seus filhos.
6 No campo segam o pasto do perverso 
e lhe rabiscam a vinha.
7 Passam a noite nus por falta de roupa 
e não têm cobertas contra o frio.
8 Pelas chuvas das montanhas são molhados 
e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.
9 Orfãozinhos são arrancados ao peito, 
e dos pobres se toma penhor;
10 de modo que estes andam nus, sem roupa, 
e, famintos, arrastam os molhos.
11 Entre os muros desses perversos espremem o azeite, 
pisam-lhes o lagar; contudo, padecem sede.

12 Desde as cidades gemem os homens, 
e a alma dos feridos clama; 
e, contudo, Deus não tem isso por anormal.
13 Os perversos são inimigos da luz, 
não conhecem os seus caminhos, nem permanecem nas suas veredas.
14 De madrugada se levanta o homicida, mata ao pobre e ao necessitado, 
e de noite se torna ladrão. 
15 Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero;
este diz consigo: Ninguém me reconhecerá; e cobre o rosto.
16 Nas trevas minam as casas, 
de dia se conservam encerrados, nada querem com a luz. 
17 Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte; 
mas os terrores da noite lhes são familiares.

***

18 Vós dizeis: Os perversos são levados
// rapidamente na superfície das águas; 
maldita é a porção dos tais na terra; já não andam pelo caminho das vinhas.
19 A secura e o calor desfazem as águas da neve;
assim faz a sepultura aos que pecaram. 
20 A mãe se esquecerá deles, os vermes os comerão gostosamente; 
nunca mais haverá lembrança deles; como árvore será quebrado o injusto,
21 aquele que devora a estéril que não tem filhos
e não faz o bem à viúva.

22 Não! Pelo contrário, Deus por sua força prolonga os dias dos valentes; 
veem-se eles de pé quando desesperavam da vida.
23 Ele lhes dá descanso, e nisso se estribam;
os olhos de Deus estão nos caminhos deles.
24 São exaltados por breve tempo; depois, passam, 
colhidos como todos os mais; são cortados como as pontas das espigas.
25 Se não é assim, quem me desmentirá 
e anulará as minhas razões?

Introdução

Desde o último sermão sobre de Jó, estamos abordando o tema da soberania de Deus. Como vimos, a expressão soberania de Deus, significa que Deus domina sobre tudo, como lemos em Salmos 103.19: “Nos céus, estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu reino domina sobre tudo”.

Em Jó 23, vimos esse domínio sobre a vida particular de Jó. Deus trata com Jó encaminhando três movimentos na alma do patriarca: [1] Um desejo (de se encontrar diretamente com Deus). [2] O sentimento ou percepção de que Deus parecia distante oculto e, por fim, [3] um entendimento amadurecido, de que Deus está fazendo com ele aquilo que, soberanamente, decidiu fazer.

Agora, olhando para Jó 24, vislumbramos a soberania de Deus sobre a sociedade daquele tempo — Deus sendo soberano sobre os homens em geral. Entendamos bem. Deus é soberano não apenas sobre indivíduos, mas também sobre a sociedade como um todo, sobre toda a história. Sendo assim, temos de enquadrar o noticiário da semana passada nesta asserção bíblica. Tudo o que vimos e ouvimos sobre a pandemia do novo coronavírus e as questões políticas do Brasil e do mundo, aconteceram debaixo do governo onipotente de Deus.

Jó 24 ensina duas coisas, que: [1] Deus é soberano sobre todos os males da vida (v. 1-17); e, em segundo lugar, que [2] Deus é soberano na aplicação de seu juízo sobre os maus (v. 18-25).

Como devemos compreender a primeira afirmação?

1. Deus é soberano sobre todos os males da vida

Se nós tínhamos dúvidas sobre isso, prestemos atenção nos 1-17. Jó entende que seria ótimo para nós que Deus designasse tempos previamente fixados, para aplicação de seus juízos (v. 1):


Por que o Todo-Poderoso não designa tempos de julgamento? 
E por que os que o conhecem não veem tais dias?

Se isso fosse assim, poderíamos dizer às pessoas que, em maio ou junho de 2020, o juízo divino recairia sobre elas. Mas não é o que acontece. Na vida real nós temos de lidar, quase todos os dias, com injustiça social. Os homens continuam trapaceando e roubando (v. 2).


Há os que removem os limites,
roubam os rebanhos e os apascentam.

O mal prossegue na sociedade, sem ser contido (v. 3-12). Viúvas e órfãos estão sendo lesados (v. 3):


Levam do órfão o jumento, 
da viúva, tomam-lhe o boi.

Os necessitados são confundidos e os pobres se escondem, assustados (v. 4).


Desviam do caminho aos necessitados, 
e os pobres da terra todos têm de esconder-se.

E os desonestos da terra saem para caçar todos os dias, buscando presas entre os inocentes (v. 5):


Como asnos monteses no deserto, saem estes para o seu mister, 
à procura de presa no campo aberto, como pão para eles e seus filhos.

Os necessitados continuam padecendo de fome e frio (v. 6-8).


6 No campo segam o pasto do perverso 
e lhe rabiscam a vinha.

7 Passam a noite nus por falta de roupa 
e não têm cobertas contra o frio. 

8 Pelas chuvas das montanhas são molhados 
e, não tendo refúgio, abraçam-se com as rochas.

Os órfãos ficam sem sustento e os pobres andam desnudos e trabalham explorados, produzindo azeite para os poderosos (v. 9-11).


9 Orfãozinhos são arrancados ao peito, 
e dos pobres se toma penhor; 

10 de modo que estes andam nus, sem roupa, 
e, famintos, arrastam os molhos.

11 Entre os muros desses perversos espremem o azeite, 
pisam-lhes o lagar; contudo, padecem sede.

E apesar dos feridos clamarem a Deus, parece que Deus não escuta a oração deles (v. 12):


Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos clama; 
e, contudo, Deus não tem isso por anormal.

Por fim, as pessoas perversas, contrárias à luz, agem sem qualquer impedimento matando, adulterando e roubando (v. 13-17).


13 Os perversos são inimigos da luz, 
não conhecem os seus caminhos, nem permanecem nas suas veredas.
14 De madrugada se levanta o homicida, mata ao pobre e ao necessitado, 
e de noite se torna ladrão. 

15 Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero;
este diz consigo: Ninguém me reconhecerá; e cobre o rosto.

16 Nas trevas minam as casas, 
de dia se conservam encerrados, nada querem com a luz. 

17 Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte; 
mas os terrores da noite lhes são familiares. 

Em suma, os males da vida social são muitos, e Deus e soberano sobre eles. Mas apenas isso. Em segundo lugar, Jó afirma que…

2. Deus é soberano na aplicação de seu juízo sobre os maus [1]

Jó 24.18-25 oferece um contraponto ao que consta nos v. anteriores. Os amigos de Jó acreditam que Deus sempre castiga os maus subitamente (v. 18-21):


18 Vós dizeis: Os perversos são levados rapidamente na superfície das águas; 
maldita é a porção dos tais na terra; já não andam pelo caminho das vinhas.

19 A secura e o calor desfazem as águas da neve;
assim faz a sepultura aos que pecaram. 

20 A mãe se esquecerá deles, 
os vermes os comerão gostosamente; 
nunca mais haverá lembrança deles; 
como árvore será quebrado o injusto,
21 aquele que devora a estéril que não tem filhos
e não faz o bem à viúva.

Jó esclarece que as coisas não são bem assim. Deus às vezes concede ao perverso vida longa, e os ajuda até quando desesperam da vida (v. 22).


Não! Pelo contrário, Deus por sua força prolonga os dias dos valentes; 
veem-se eles de pé quando desesperavam da vida.

E Deus às vezes parece lhes dar descanso. Mesmo assim, os olhos de Deus permanecem sobre eles (v. 23):


Ele lhes dá descanso, e nisso se estribam; 
os olhos de Deus estão nos caminhos deles.

Por fim, mesmo que eles sejam exaltados por breve tempo, serão cortados desta terra, como os demais homens (v. 24).


São exaltados por breve tempo; depois, passam, 
colhidos como todos os mais; são cortados como as pontas das espigas.

Esta ponderação de Jó condiz com a verdade; sua lógica não pode ser anulada (v. 25).


Se não é assim, quem me desmentirá 
e anulará as minhas razões?

Em suma, Deus é soberano na aplicação de seu juízo sobre os maus. Ainda que os injustos prevaleçam por um tempo, no momento de Deus, eles passarão e terão de encarar o Justo Juiz. Deus é soberano não apenas sobre a pessoa de Jó, mas também sobre todos os tratos sociais, sobre a humanidade em geral.

Se guardamos a doutrina, podemos agora concluir.

Concluindo…

O capítulo 24 de Jó pode ser resumido nestas duas sentenças: [1] Deus é soberano sobre todos os males da vida. [2] Deus é soberano na aplicação de seu juízo sobre os maus. Ou, dito de outro modo, Deus tem suas razões.

Sendo assim, é possível propor algumas aplicações.

[1] Dizer que Deus conduz o universo de acordo com as razões dele, conforme seu desígnio soberano, nos coloca diante do problema do mal, uma questão discutida por pensadores e abraçada pelos ateus. Reconhecendo a simplificação, o problema pode ser colocado assim: se Deus é absolutamente bom e se Deus é onipotente (ou todo-poderoso), o mal (tanto moral quanto natural) não deveria existir. Um Deus absolutamente bom não desejaria o sofrimento. E um Deus onipotente não permitiria o sofrimento. O mal é “logicamente incompatível com a existência de Deus”.[2]

C. S. Lewis sintetiza o problema assim:

“Se Deus fosse bom, ele desejaria tornar suas criaturas perfeitamente felizes, e se fosse todo-poderoso, seria capaz de fazer o que quisesse. Mas as criaturas não são felizes. Portanto, a Deus falta a bondade ou o poder — ou ambas as coisas”. Esse é o problema do sofrimento em sua forma mais simples.[3]

Antes de se tornar um pensador cristão notável, C. S. Lewis não acreditava no Deus da Bíblia. Ele próprio escreve dizendo que era ateu[4] e explica que uma das coisas que o impedia de acreditar em Deus era o problema do mal. Olhando para o sofrimento que acompanha a vida das formas inferiores, somado ao sofrimento infligido ao homem pelo próprio homem, o C. S. Lewis ateu pensava o seguinte:

Se você me pede que eu acredite que esta é a obra de um espírito bondoso e onipotente, respondo que todas as evidências apontam para a direção oposta.[5]

Se nosso Senhor permitir, eu espero retornar aos poucos a este problema do mal nos próximos sermões. Por ora, basta afirmar que, para Jó, acreditar em Deus equivale a ter por certo que Deus conduz o universo de acordo com as razões dele, conforme seu desígnio soberano.

Considerar Deus assim, o Deus verdadeiro, o Deus revelado nas Escrituras, e continuar amando e confiando neste Deus a despeito de todas as circunstâncias, isso é verdadeira fé. A galeria da fé, em Hebreus 11, lista pessoas que, mesmo sendo provadas, mesmo sob intenso sofrimento, permaneceram crendo, amando e dando testemunho de Deus.

Dito de outro modo, o Espírito Santo nos conduz a amar Deus soberano, todo-poderoso, absolutamente bom, ainda que [a] vivamos em um mundo imperfeito; sintamos dor; experimentemos fraqueza; não sejamos vitoriosos conforme a medida de sucesso dos homens e sejamos rejeitados e fiquemos sozinhos em nosso testemunho de fé.

[2] Na verdade, o Cristianismo ensina que existe ordem acima de todo caos e convoca à crença em Deus, apesar do caos. Nós podemos olhar em volta e concluir que tudo parece bagunçado, caótico. E podemos olhar para dentro de nós e perceber a mesma coisa. Algumas pessoas estão literalmente desmoronando diante dessas constatações. Mas nós podemos considerar que, acima de toda turbulência, acima de toda bagunça, Deus reina. Deus organiza tudo e todos. E Deus nos convida a crer nele. Agora mesmo.

[3] O Cristianismo também convoca tanto à paciência (perseverança), quanto à santidade. Há coisas estranhas acontecendo na sociedade. Os assassinos, os adúlteros e os ladrões parecem “estar com a corda toda”. E os crentes podem ser enganados, achando que não vale a pena continuar servindo ao Senhor, ou que não vale a pena continuar se santificando ao Senhor. Jó adverte: o tempo para pecar vai terminar. Na ocasião devida, cada um de nós comparecerá diante de Deus.

Sendo assim, os discípulos de Jesus Cristo devem continuar a santificar-se. Vamos pedir a Deus que opere em nós, com seu Espírito. Para que, em meio a essa pandemia, cercados por caos, nós sejamos consolados com a verdade de que Deus reina e nos traz paz. Deus derrama sua unção sobre nós pra que sejamos, nesta hora, verdadeiros cristãos. Deus faz crescer em nós o verdadeiro amor. E assim, hoje, na oitava semana sob protocolo do novo coronavírus, nós podemos dizer que a glória pertence ao Senhor.

Vamos orar. E depois vamos louvar.

Notas

[1] Aqui eu me alinho à maioria dos intérpretes conservadores, entendendo que os v. 18-25 contêm palavras do próprio Jó. Intérpretes recentes sugerem que os v. 18-15 devem ser entendidos como palavra de Zofar, mas tal leitura não se faz necessária.

[2] EVANS, C. Stephen. Dicionário de Apologética e Filosofia da Religião. São Paulo: Editora Vida, 2004, p. 86.

[3] LEWIS, C. S. O Problema do Sofrimento. Reimp. 2013. São Paulo: Vida, 2009, p.33.

[4] LEWIS, op. cit., p. 17.

[5] Ibid., p. 19

Referências bibliográficas

EVANS, C. Stephen. Dicionário de apologética e filosofia da religião. São Paulo: Editora Vida, 2004.

LEWIS, C. S. O problema do sofrimento. Reimp. 2013. São Paulo: Vida, 2009.

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