Muito perdidos na montanha Brockeback [atualizado]

Ontem fui ao shopping Higienópolis, em São Paulo, após uma semana intensiva de aulas, e assisti ao filme Brockeback Mountain, dirigido por Ang Lee e estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal. O filme relata o drama de dois caubóis norte-americanos que, na década de 60, apaixonam-se um pelo outro enquanto trabalham cuidando de ovelhas, acampados na “montanha Brockeback”. A fita recebeu uma avaliação generosa da Revista Veja de 29 de janeiro, obteve bons resultados de bilheteria até no “cinturão da Bíblia” — os Estados declaradamente cristãos fundamentalistas do meio-oeste americano — e concorre a oito Óscares da Academia.

Sinopse

O filme impressiona por seu roteiro bem escrito, excelente fotografia e uma trilha sonora competente, que confere às cenas uma beleza ímpar. O relacionamento de Ennis del Mar (Heath Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal), do companheirismo à amizade e, a partir de então, ao amor, é descrito com vistas a ressaltar, como afirma o site endereçado acima, “humanidade e honestidade”. Aliás, o site disponibiliza um link para que os visitantes compartilhem suas histórias semelhantes e a lista de relatos é significativa.

Trata-se de uma história de amor “verdadeiro”, mas impossível de ser publicamente assumido na América do Norte das décadas de sessenta a oitenta. Ennis e Jack são forçados a sustentarem casamentos de fachada, mantendo encontros de “pescaria” em Brockeback, para desfrutarem, ocasionalmente, um do outro. Nesses termos, Brockeback Mountain busca descrever a tristeza de uma existência regida pela moralidade social que desconsidera o indivíduo e reprime a livre expressão de suas próprias propensões e sentimentos. Destaca-se ainda o modo preconceituoso, grosseiro e violento como a sociedade trata aqueles que se assumem homossexuais. Percebe-se a pretensão de propor homoerotismo sem estereótipos da promiscuidade. Quem assiste sai do cinema verdadeiramente “tocado” por uma obra muitíssimo bem escrita, filmada e interpretada, levando consigo uma poderosa sugestão da legitimidade da homossexualidade não apenas como opção, mas como poderosa propensão interior, impossível de ser alterada, que precisa, isso sim, ser assumida com coragem diante de uma sociedade retrógrada.

Crítica

Como cristão reformado, não pude deixar de assistir com os “óculos da fé”. Sem nenhuma pretensão de profundidade, pontuo algumas ideias sobre o modo como o filme aborda o Cristianismo, sua defesa da validade da homossexualidade e o seu chamado à vivência de relacionamentos mais “honestos e humanos”.

Brockeback Mountain e o Cristianismo inútil

Como na maioria dos filmes, Brockeback Mountain descreve o Cristianismo, no mínimo, como ideologia inútil. Os pais de Ennis são metodistas. Quando este tem dez anos é levado pelo pai a um rancho vizinho, a fim de ver os corpos de dois homossexuais brutalmente torturados. Os gays foram assassinados por seu próprio pai, o que remete o público aos religiosos encapuzados que, orientados por uma leitura errônea das Escrituras, comandavam a execução de negros antes da promulgação e efetiva absorção cultural das leis antissegregacionistas. Ao ser convidado pela esposa a comparecer a um culto da igreja metodista local, Ennis afirma que não está disposto a participar da uma “reunião de fanáticos”.

Em um dos diálogos no acampamento de Brockeback, Jack afirma que sua mãe é pentecostal (acredita no “Pentecostes”). Ao ser perguntado por Ennis o que significa crer no Pentecostes, Jack afirma que também não sabe, ou seja, ele foi criado em uma igreja sem ter sido, verdadeiramente, ensinado sobre o conteúdo do evangelho ou das verdades cristãs. Nesse caso o Cristianismo de sua mãe não é, em si mesmo, fanático, mas simplesmente irrelevante — não afeta em nada sua cosmovisão, coração e procedimentos. Jack é quem assume o papel passivo na relação homossexual e, quando não pode se encontrar com Ennis, satisfaz suas necessidades sexuais no submundo da prostituição ou em casos extraconjugais. Ele vive tais experiências por não conseguir “conter-se”, em virtude das longas pausas de seus encontros ocasionais com Ennis. Em suma, ele ama verdadeiramente a del Mar, mas seu amor é incontinente.

O Cristianismo bíblico, no entanto, é centrado em Cristo e no evangelho, que é o “poder de Deus” para todo o que crê. Deus torna os regenerados “nova criação” e os liberta do poder determinante de suas propensões pecaminosas. Somente Deus concede ao homem não apenas as orientações objetivas (sua Palavra), mas a provisão e os recursos para uma vida verdadeiramente humana, honesta e centrada no amor. A plena potência existencial não pode ser obtida em nenhum relacionamento humano em si mesmo. Ela começa na relação vertical, na reconciliação do homem com Deus por meio de Jesus Cristo e, somente então, transborda para as relações horizontais.

Brockeback Mountain e a validação da homossexualidade

Em Brockeback Mountain, a homossexualidade é validada pelo amor. O subtítulo do filme, publicado no site endereçado acima, é “Love is a force of nature”, ou seja, “O amor é uma força da natureza”. Nos termos do filme, amor é a síntese de amizade, afetividade e desejo sexual. Sem dúvida, essas são vivências desejáveis para o amor romântico, verdadeiramente legítimas em si mesmas. Digo mais: Foram criadas por Deus e fornecidas aos seres humanos para sua felicidade. Por isso mesmo, desejamos o amor. Almejamos pelo companheirismo autêntico, pela relação afetuosa, significativa, profunda e, se possível, cheia de ardor sexual. Repito: Tudo isso é bom e estabelecido pelo Criador. Essa é, aliás, a fonte da bondade de tais coisas. Elas provêm da Divindade Triúna e, nesse ponto encontramos o equívoco: O amor não é uma força da natureza, mas um dom divino. O amor não nasce da conjunção incompreensível das forças evolutivas cegas, mas da decisão inteligente de um Deus que é amor, cuja imagem, incluindo a capacidade para comunicar-se, relacionar-se e amar, é refletida em sua criatura régia, o ser humano.

O amor é legítimo, é dom de Deus e deve reportar-se a ele, prioritariamente, e ao próximo, nos termos estabelecidos pelo próprio Deus. O amor sexual foi projetado para a complementação de gêneros. Deus criou Adão e Eva, homem e mulher, “macho” e “fêmea” para se unirem em plenitude, refletindo a perfeita harmonia estabelecida pelo Criador.

Assim, a homossexualidade é definida biblicamente como pecado por ser uma distorção do propósito criador. Segundo a Escritura, a vivência homossexual, seja masculina, seja feminina, é um produto da idolatria — da prostração humana diante da criatura ao invés do Criador. Na prática homossexual, assim como na prática de qualquer outro pecado, o ser humano utiliza um potencial divino de forma distorcida, como acinte a Deus, demonstrando indisposição em ser guiado pelo Espírito Santo que opera no evangelho.

“A homossexualidade é legitimada pela existência da propensão”, esse é o pensamento imposto pela mídia e cultura atuais. Se existe uma inclinação, um desejo reprimido, este deve ser exposto, colocado em prática. Principalmente quando é lastreado no “amor”. Destarte, as injunções do mandamento bíblico são tidas como castradoras e desumanamente limitadoras.

Brockeback Mountain e o chamado aos relacionamentos “honestos e humanos”

Há um ponto em que o filme é exato: As reações desrespeitosas e preconceituosas aos homossexuais são incorretas, não apenas “politicamente”, mas biblicamente. O amor ao próximo ensinado pelo Senhor Jesus Cristo nos orienta para uma vivência igualitária e respeitosa com todas as pessoas, independentemente de raça, cor, credo ou propensões de todo tipo.

O Cristianismo se desfigura quando assume o papel de Juiz e Inquisidor da Humanidade. O Cristianismo é uma religião de proclamação e testemunho. O Cristianismo ganha espaço quando anuncia às pessoas o significado do evangelho, quando apresenta a pessoa e obra de Cristo de maneira fiel ao registro da Escritura. Além disso, o Cristianismo demonstra que o evangelho é real mediante a comunhão daqueles que creem e a demonstração palpável de transformação de vidas, da reorientação radical de egos, antes voltados para si mesmos, agora centrados na pessoa do Senhor Jesus Cristo e dedicados ao serviço do próximo. O mundo vê e crê na igreja verdadeira testemunha.

A igreja não julga, mas aponta para o Juiz. Ela não inquire, mas convida ao arrependimento e fé. Ela proclama a regeneração do Espírito Santo, a partir da qual uma santa inclinação é plantada nos corações dos remidos. Assim, a igreja convida para a reconciliação, que livra o homem da condenação e o insere em uma relação de intimidade e comunhão prazerosas com o Criador. Isso tudo é feito mantendo contato com os seres humanos, reconhecendo cada pessoa como criada por Deus e, assim, portadora da dignidade decorrente da imagem divina.

O problema é tentar dar a uma prática definida biblicamente como pecado o status de estilo de vida correto. Não são corretas a prática homossexual bem como a imoralidade, avareza, indiferença (egoísmo), orgulho ou qualquer outro pecado — praticado por não-cristãos ou por aqueles que se identificam como cristãos regenerados.

Nesse sentido, os protagonistas estão, verdadeiramente, “perdidos” em Brockeback Mountain, não apenas porque não conseguem vincular-se um ao outro, mas porque estão desvinculados de Deus. No Senhor, poderiam encontrar recursos para lidar com suas propensões pecaminosas e desfrutar do gozo e satisfação plenos disponíveis na intimidade do Todo-Poderoso e nas vivências de relacionamentos heterossexuais monogâmicos. Não teriam de terminar tragicamente, Jack espancado em uma beira de estrada e Ennis fadado a um fim de vida solitário em um trailer decadente. Há esperança e vida sem limites para os que creem e servem a Jesus Cristo.

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