Não precisamos mentir

Inicio este post com uma citação heterodoxa.

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— Andarilho, quem é você? Vejo que anda por sua estrada, sem desdém, sem amor, com olhar inescrutável; úmido e triste, como uma sonda que da profundeza volta insaciada para a luz – que buscava ela lá embaixo? – com um peito que não suspira, com um lábio que esconde seu nojo, com uma mão que apreende apenas devagar: quem é você? que fez você? Descanse aqui: este lugar é hospitaleiro para com todos – recupere-se! E quem quer que seja: que coisa lhe apetece agora? O que pode lhe servir de conforto? Apenas diga; o que eu tiver, lhe ofereço!

— Conforto? Conforto? É curioso, o que diz você! Mas, por favor, me dê…

— O quê? O quê? Fale!

— Mais uma máscara! Uma segunda máscara!…[1]

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Aqui Nietzsche sugere a necessidade do uso de máscaras. Seriam elas, de fato, imprescindíveis? Smith afirma que a mentira é necessária à vida humana.[2] A única opção existente é entre usar máscaras – mentir – de modo aceitável ou patologicamente.

Maturidade e verdade

Viver não é fácil. Principalmente quando se almeja a existência madura. A maturidade é formatada na adversidade, especialmente nos enfrentamentos relacionais. O ideal da harmonia absoluta com tudo e todos é muito mais orientalista do que cristão. Nesta vida lutamos todos os dias. Viver exige confrontar, ser confrontado e saber lidar com cada confrontação. A opção a isso é abraçar a máxima de Nietzsche, pedir mais uma máscara. Sem a coragem para encarar a realidade das confrontações, temos de aceitar a mentira como necessidade natural de sobrevivência, tal como sugere Smith.

Podemos crescer aprendendo a lidar com a verdade ou atrofiar-nos alimentando mentiras. Uma mentira é sempre uma ilusão, uma fraude e uma traição – uma “aparente” solução que engana não apenas quem a recebe mas também quem a formula. Este considera-se esperto quando nada mais faz do que consolidar sua permanência na infantilidade.

A vida sob máscaras é possível por um tempo. Não há como enganar a todos indefinidamente. O mascarado perde credibilidade e, pior, dignidade. É possível enfrentar o descrédito público (muitas vezes maldoso e infundado) quando mantém-se o valor pessoal, a integridade do coração. Quando esta é pulverizada, adeus homem. Nada mais resta senão uma sombra de real humanidade.

Retardar ou estimular o crescimento? Depende de como lidamos com as máscaras, do que fazemos com as nossas verdades. Não há como fugir: a maturidade é filha da verdade.

Autenticidade e verdade

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A luz, às vezes, pode parecer ser uma intrusa impertinente, mas é sempre benéfica no final. O tipo de religião que regozija-se no som piedoso das frases tradicionais, a despeito de seus significados, ou recua nos assuntos “controversos”, nunca irá se levantar no meio dos choques da vida. Na esfera da religião, assim como em outras esferas, as coisas sobre as quais os homens concordam podem ser aquelas que menos valem sustentar; as coisas realmente importantes são aquelas sobre as quais os homens lutarão.[3]

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Abandonando a lógica filosófica de Nietzsche e Smith, destaco as palavras de J. Greshan Machen, teólogo dos seminários de Princeton e Westminster.

A autenticidade há de ser buscada porque existe Uma Verdade. Não diversas “verdades”, versões subjetivas e até contraditórias da verdade, mas A Verdade que corresponde à realidade tal como se encontra em Deus, portanto, absoluta. Tal verdade é personificada no Filho de Deus: “Eu sou o caminho, e – não uma, mas – a verdade, e a vida” (Jo 14.6).

Máscaras, verdade e pudor

A afirmação registrada pelo Evangelista João, citada acima, diz respeito à salvação. Ele é o Mediador e Profeta. Ele é e revela a verdade ao ponto de ser chamado de Logos ou “Verbo”; o ponto alto da revelação divina (Dt 18.15; Jo 1.1; Hb 1.1-2; 1Tm 2.5). Quem nele crê tem a vida eterna. Ademais, nosso Senhor mostra a verdade tal qual existe em Deus, em contraposição às “verdades” do homem e do diabo. A verdade de Deus em Cristo manifesta-se na sua confrontação aos homens de seu tempo, especialmente os fariseus (Mt 23.1 et seq.).

A vida com e em Deus encaminha-se no recebimento das admoestações divinas que produzem transformação. Nesse particular, Deus nos fala na Escritura e através de outras pessoas. Somos tornados mais humanos segundo Cristo quando prestamos contas ao Criador e uns aos outros e isso implica em estarmos abertos para aceitarmos e reconhecermos “nossas verdades” que às vezes não são tão agradáveis de serem esclarecidas, expostas e ouvidas. Tal como a palavra médica que nos indica a existência de uma doença grave, precisamos de dignósticos sinceros que nos coloquem diante da necessidade de cura e metamorfose da alma.

A verdade de Deus em Cristo, porém, pode cobrir ao invés de revelar. Ela não é apenas verdade que expõe, mas também que protege. Aqui chegamos ao âmago da questão e talvez, mais próximos do entendimento correto da máxima de Nietzsche. Máscaras não são necessariamente um mal, mas uma necessidade decorrente da queda. Bonhoeffer, em seus esboços de Ética, acerta o alvo ao demonstrar que o primeiro efeito do pecado no homem foi o acobertamento de suas partes íntimas – o pudor.

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Nasce o pudor. É a indestrutível lembrança do ser humano da sua separação da origem, é a dor decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-lo. O ser humano se envergonha porque perdeu algo que faz parte de sua essência e de sua integridade.[4]

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Bonhoeffer reconhece que “todo espírito profundo precisa de uma máscara”, não como subsídio da desonestidade ou trapaça, mas em decorrência da dicotomia pós-queda. O pudor como tal deve ser preservado, uma vez que, “debaixo de tal máscara continua vivo o desejo pelo restabelecimento da unidade perdida”.[5] Todas as máscaras pudicas serão removidas no Dia da Consumação e Deus – somente ele – é quem irá retirá-las (Mt 12.36-37; Rm 2.16; 1Co 4.5). Enquanto isso, vivendo na dimensão atual, a verdade de Deus em Cristo exige o relacionamento humano conforme o espírito de Cristo, o que denota consideração, respeito, humildade e amor (Fp 2.1-10).

Uma ética cristã segundo a verdade de Deus em Cristo exige que, em determinados contextos, o homem não revele segredos, mas empenhe-se em resguardá-los. A exposição despudorada da verdade tem a ver mais com a “verdade” segundo os homens e o diabo do que segundo Jesus. A verdade escrachada, dita sem amor e sabedoria esmaga e pulveriza ao invés de edificar e unir. Como bem afirma Bonhoeffer:

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É o cínico que, na pretensão de “falar a verdade” em qualquer lugar, a qualquer hora e a qualquer pessoa de igual maneira, só exibe uma imagem idolátrica e morta da verdade. Ao aparentar fanatismo pela verdade, que não pode ter consideração com fraquezas humanas, ele destrói a verdade viva entre as pessoas. Fere o pudor, profana o mistério, desmerece a confiança, trai a comunidade em que vive e sorri arrogantemente do descalabro que provocou, da fraqueza humana que “não aguenta a verdade”. Diz ele que a verdade é destruidora e exige suas vítimas; sente-se como Deus acima das criaturas fracas, e não sabe que está servindo a Satanás.[6]

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A verdade que amadurece, portanto, não destrói mas edifica: “Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15).

Notas

[1] NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio a Uma Filosofia do Futuro. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.

[2] SMITH. David Livingstone. Por Que Mentimos. Rio de Janeiro: Campus/Elsevier, 2005.

[3] MACHEN. J. Grasham. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Puritanos, 2001.

[4] BONHOEFFER, Dietrich. Ética. São Leopoldo: Sinodal, 2005, p. 17.

[5] BONHOEFFER, op. cit., loc. cit.

[6] Ibid., p. 203.

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