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O chamado ao discipulado radical

Misael Batista do Nascimento. © Permitida a reprodução citando a fonte. Versão em PDF (96 KB).

O livro de Apocalipse é uma convocação ao discipulado radical. A última profecia demanda dos cristãos uma postura revolucionária, entendendo-se “revolução” como uma volta ao ponto de origem. Driver explica que:

A raiz latina revolvere significa dar um giro completo para trás e colocar-se novamente no ponto de partida. […] Isso não implica necessariamente volta ao passado, mas uma reorientação radical, ou seja, a partir das raízes, que permite ir adiante, com um rumo corrigido.[1]

Voltar às bases, eis a nossa necessidade. Tais alicerces são encontrados na Palavra de Deus, especialmente nos princípios da comunidade messiânica primitiva.

Se alguém duvida da urgência desse retorno, basta verificar a presente situação de falsificação e manipulação. Diferentes influências moldam não apenas a sociedade dita secular, mas também a igreja, que encontra dificuldades em se mostrar como comunidade de contraste e verdadeira alternativa contracultural. Cristãos mais sensíveis sentem desconforto diante de um quadro lamentável.

Em primeiro lugar, existe fome espiritual. Alguns percebem que as propostas do cristianismo contemporâneo estão aquém do ideal bíblico de andar com Deus no mundo de Deus.

Em segundo lugar, a orientação da igreja nem sempre se alinha à Escritura, que convida à intimidade com o Altíssimo, a uma fé que se mantém tranquila em meio ao caos e a uma profundidade que não pode ser conseguida em eventos midiáticos.

É claro que há exceções (toda generalização é perigosa). Existem pessoas e grupos legítimos, que vivenciam uma fé bíblica pura e simples, alegrando o coração de Deus. Mas parece que, aos olhos do mundo e pior, aos olhos de Deus, nós perdemos o poder de salgar (Mt 5.13). Enquanto os membros das agremiações ditas cristãs se multiplicam, se torna mais difuso um sentimento de que se reproduz muito pouco a igreja neotestamentária que, com seu testemunho cristalino, atraía sobre si a simpatia ou oposição da sociedade (At 2.27; 17.6).

O que aconteceu, então, irmãos?

Alguns sugerem que devemos comemorar, pois estamos “conquistando” a cultura. Na contramaré, eu entendo que a razão de não enfrentarmos maior oposição é mais um sinal de derrota do que de vitória. Estamos desfigurados e, portanto, inofensivos. Pensamos que temos tudo, estamos ricos, nada nos falta (Ap 3.17).

Será mesmo?

Nos falta encarnar Jesus Cristo em nossas comunidades e testemunho pessoal. O caminho do discipulado foi substituído por muitas interfaces, transbordantes de ofertas sedutoras a preços enganosamente baixos. Deixamos a viagem longa e dura, na estrada poeirenta do discipulado e agora mergulhamos nos links de Babilônia. O Senhor está à nossa frente, olhando para trás, entristecido com a nossa imaturidade juvenil e mortal. E continua chamando: “Sigam-me”.

Nesse contexto, eis a palavra do Apocalipse. Penso que, de forma surpreendente, jamais existiu na história, num âmbito nacional e global, uma situação tão semelhante à do séc. 1 da era cristã. Nestes tempos digitais e de cultura líquida, a pressão sobre a igreja ganha força espantosa e os cristãos são chamados a se amoldar ao Senhor Jesus no sofrimento. Diante deles há a cruz, e depois desta, a ressurreição. Não há outro caminho a seguir.

Desta forma, nos unimos aos humildes seguidores que deram as suas vidas e suportaram angústias no tempo da escrita do Apocalipse (Ap 1.9; 6.9). Somente assim é possível compreender o Apocalipse. Ler esta revelação sentado na poltrona da acomodação é um contrassenso, pois ela foi escrita para ser compulsada dentro das trincheiras, em meio à batalha aguerrida. Ela foi dirigida aos lutadores que se expõem à artilharia inimiga em virtude de sua obediência simples e irrestrita. O livro escrito pelo apóstolo exilado só encontra ouvidos na igreja mártir, despojada de todas as coisas, agarrada apenas ao Cordeiro.

Sem que o leitor assuma uma postura de servo, o Apocalipse é abordado como ficção religiosa, ou mero quebra-cabeças escatológico divertido de montar.

O último livro da Bíblia é um chamado à guerra, cujas páginas estão manchadas de suor e sangue.

Misael Batista do Nascimento. © Permitida a reprodução citando a fonte. Versão em PDF (96 KB).

Leia o estudo seguinte: O remetente ilustre.

Nota

[1] DRIVER, John. Contra a Corrente: Ensaios de Eclesiologia Radical. Campinas: Cristã Unida, 1994, p. 140. Apesar de não endossar a pneumatologia e eclesiologia de Driver, considero útil sua explicação sobre o vocábulo “revolucionário”, que carrega uma acepção absolutamente distinta daquela consignada pelo Marxismo.

Referência bibliográfica

DRIVER, John. Contra a corrente: ensaios de eclesiologia radical. Campinas: Cristã Unida, 1994.

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