Categorias
Leitura

O conceito da leitura ativa

Um dos principais méritos de Como Ler Livros, confirmado por suas diversas edições em diferentes idiomas, é a proposição do conceito, bem como do modo de implementação da leitura ativa. Antes, porém, de apresentar o conceito, conheçamos o seu contexto.

Toda leitura é ativa de certo modo, uma vez que “a leitura totalmente passiva é algo impossível — afinal, não conseguimos ler com os olhos paralisados e com a mente adormecida”.[1] Daí Adler e Van Doren proporem:

Ao compararmos a leitura ativa com a leitura passiva, nosso objetivo será mostrar que a leitura pode ser mais ou menos ativa e, ademais, que quanto mais ativa, tanto melhor. Quanto maior a extensão e o esforço da leitura, tanto melhor será o leitor. Quanto mais o leitor exigir de si próprio e do texto que estiver lendo, tanto melhor ele será.[2]

A leitura ativa se aplica aos textos mais difíceis — aquele livro que o leitor começa a ler, mas é tentado a deixar de lado, ao constatar que excede sua capacidade de leitura. Às vezes um livro é difícil de ler simplesmente porque é mal escrito. Adler e Van Doren tratam de livros bem escritos, mas difíceis porque desafiam o leitor intelectualmente. Tais livros não devem ser abandonados e sim adequadamente lidos, por meio da leitura ativa.

Distingue-se a leitura para informação, da leitura para compreensão. De fato, Adler e Van Doren criticam o mero acúmulo de informações sem entendimento:

Não precisamos saber tudo sobre determinada coisa para que possamos entendê-la. Uma montanha de fatos pode provocar o efeito contrário, isto é, pode servir de obstáculo ao entendimento. Há uma sensação, hoje em dia, de que temos acesso a muitos fatos, mas não necessariamente ao entendimento desses fatos.

Uma das causas dessa situação é que a própria mídia é projetada para tornar o pensamento algo desnecessário […]. O ato de empacotar ideias e opiniões é uma atividade à qual algumas das mentes mais brilhantes se dedicam com grande diligência. O telespectador, o ouvinte, o leitor de revistas — todos eles se defrontam com uma amálgama de elementos complexos, desde discursos retóricos minuciosamente planejados até dados estatísticos cuidadosamente selecionados, cujo objetivo é facilitar o ato de “formar opinião” das pessoas com esforço e dificuldade mínimos. Por vezes, no entanto, o empacotamento é feito de maneira tão eficiente, tão condensado, que o telespectador, o ouvinte ou o leitor não conseguem formar sua opinião. Em vez disso, a opinião empacotada em sua mente mais ou menos como uma gravação é inserida no aparelho de som. No momento apropriado, aperta-se o play e a opinião é “tocada”. Eles reproduzem a opinião de terceiros sem terem pensado a respeito.[3]

A leitura para compreensão é destinada a “expandir o espírito, adquirir percepção, erguer a mente de um nível mais baixo para um mais alto”.[4] Para que tal elevação aconteça, é mister ler “livros que estejam além de nossa compreensão”.[5] É possível aplicar técnicas de leitura dinâmica a textos para informação (e.g., uma notícia sobre engarrafamento nas vias de acesso a São Paulo na manhã de hoje), mas textos para compreensão demandam a abordagem da leitura ativa.

A leitura para compreensão conduz ao esclarecimento:

Informar-se é simplesmente saber que algo é um fato. Esclarecer-se é saber além de que algo é um fato, do que se trata esse fato: por que ele é assim, quais as conexões que possui com outros fatos, em quais aspectos são iguais, em quais aspectos são diferentes etc.[6]

Os autores sugerem que “essa distinção é similar à diferença entre ser capaz de se lembrar de algo e ser capaz de explicar algo. […] você aprendeu apenas informações, caso tenha exercitado apenas sua memória”.[7] O bom leitor, de acordo com Adler e Van Doren, não se contenta com a mera informação. “O esclarecimento só ocorre quando, além de saber o que o autor escreveu, você também sabe o que ele quis dizer com o que escreveu e por que escreveu o que escreveu”.[8]

Essa leitura que conduz ao esclarecimento é qualificada, “tem de haver a descoberta, ou seja, tem de haver um processo no qual se aprenda por pesquisas, investigações, reflexões — sem ajuda de ninguém”.[9]

Sem pretensão de debater a epistemologia destes autores, sugere-se outra distinção, entre “descoberta com auxílio” (sob mediação de um professor) e “descoberta sem auxílio” (que ocorre com a leitura de um livro que desafie para a compreensão). Pressupõe-se que “ler e ouvir são a mesma arte — a arte de ser ensinado”.[10] O professor faz muito por seus alunos, mas “quem tem de aprender são eles”.[11] E ainda:

Se “pensamento” quer dizer “usar a mente para adquirir conhecimento ou entendimento”, e se ensino e descoberta são as únicas maneiras de adquirir conhecimento, então pensar é algo que sempre acontece durante essas atividades. Temos de pensar enquanto lemos e ouvimos, assim como temos de pensar enquanto investigamos. Naturalmente, os tipos de pensamento são diferentes — assim como são diferentes os dois tipos de aprendizado.[12]

Para Adler e Van Doren, tanto a leitura quando a audição para a compreensão não são atividades fáceis. E quanto à leitura:

Pensar é apenas parte integrante da leitura. É necessário que os sentidos e a imaginação entrem em cena — é necessário observar e lembrar e, se algo não puder ser observado ou lembrado, deve ser construído imaginativamente. […] muitas pessoas acham que, embora o poeta tenha de usar a imaginação para escrever um poema, elas mesmas não precisam usá-la para lê-lo. Em suma, a arte de ler engloba todas as habilidades que são utilizadas na descoberta sem auxílio: observação apurada, memória rápida, imaginação fértil e, é claro, intelecto devidamente treinado para análises e reflexões.[13]

Uma diferença fundamental entre ler e receber instrução de um professor presente é que, “se você formular uma pergunta ao livro, você mesmo terá de responder”,[14] ou ainda, “ler, assim como uma descoberta, é aprender com um professor que está ausente”.[15]

É então que se faz necessária a leitura ativa.

Eis o conceito: leitura ativa “é o processo por meio do qual a mente se eleva por conta própria, isto é, sem nada com o que operar a não ser os símbolos contidos no livro. [16]

Na leitura ativa, não apenas se acumula mais informação sobre o que já se conhece, mas se obtém mais e melhor esclarecimento sobre o assunto lido. Ela conduz o leitor à compreensão de uma obra e o torna apto a conversar acerca dela, com elevado grau de segurança, de que sabe o que o autor quis dizer.

Admite-se que um leitor pode compreender o pensamento de um autor; a ideia de que não temos absolutamente como saber o que um autor quis dizer no texto que escreveu é uma impossibilidade lógica. Uma compreensão plena pode ser difícil, quando não, impossível. Mesmo assim não se desiste desse intento, presumindo-se que um bom leitor atual dos Evangelhos, de Freud ou de Marx, pode afirmar com razoável grau de certeza o que os autores dos Evangelhos, Freud ou Marx quiseram dizer.

Nasser[17] entende que, quanto aos tipos de leitura, Adler e Van Doren repercutem Sertillanges, para quem há “quatro modalidades de leitura: para formação, para informação, para inspiração e para entretenimento”. A relevância de cada uma é explicada:

Lê-se para ter uma formação e ser alguém; lê-se em vista de uma tarefa; lê-se como treinamento para o trabalho e para o bem; lê-se por ser uma distração. Há leituras fundamentais, leituras ocasionais, leituras de treinamento ou edificantes, leituras relaxantes.[18]

Como vimos, Adler e Van Doren[19] mencionam leitura para entretenimento, informação e entendimento. Nasser informa ainda que “Adler divide a literatura […] em literatura imaginativa e literatura expositiva”.[20] Os livros pertencentes aos dois grupos são organizados em um esquema (figura 1):

FIGURA 1. As duas grandes divisões da literatura, de acordo com Adler e Van Doren.
FIGURA 1. As duas grandes divisões da literatura, de acordo com Adler e Van Doren. Esquema adaptado de NASSER (prefácio a Como Ler Livros, p. 14).

Como Ler Livros enfatiza passos e regras, porque se encaixa na categoria de livros expositivos práticos.[21]

De acordo com Nasser,[22] os tipos de leitura, bem como as divisões da literatura, dão conta da leitura em um sentido horizontal, ou de extensão (as classes de textos à disposição para ler). O grande diferencial de Adler e Van Doren, é sua proposição não apenas de tipos, mas de níveis de leitura. A ideia de nível é interessante por adicionar um componente vertical à leitura. Como lemos em Adler e Van Doren:

Há quatro níveis de leitura. Nós os chamamos de “níveis” em vez de “tipos”, porque estes, estritamente falando, são distintos uns dos outros, enquanto os níveis supõem que os superiores englobem os inferiores, ou seja, os níveis são cumulativos. O primeiro nível não se perde no segundo, o segundo não se perde no terceiro, e o terceiro não se perde no quarto. O quarto e último nível engloba todos os demais — ele apenas os supera, mas não os anula.[23]

Quais são os quatro níveis de leitura? Elementar (rudimentar, básica ou inicial); inspecional (pré-leitura); analítica (em que o leitor toma posse do livro) e sintópica (ou comparativa; figura 2).

FIGURA 2. Os quatro níveis da leitura ativa. Cada nível abarca o anterior.
FIGURA 2. Os quatro níveis da leitura ativa. Cada nível abarca o anterior. Esquema elaborado por Misael Batista do Nascimento.

No próximo texto, olharemos mais detidamente para estes níveis.


Notas

[1] ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente. São Paulo: Realizações Editora Ltda., 2011, p. 26. (Coleção Educação Clássica).

[2] ADLER; VAN DOREN, op. cit., loc. cit., grifos dos autores.

[3] Ibid., p. 25-26.

[4] ADLER, J. Mortimer. Entrevista com Mortimer Adler: Como Ler um Livro. Disponível em: . Acesso em: 04 Jun. 2018.

[5] ADLER; VAN DOREN, op. cit., p. 26.

[6] Ibid., p. 32.

[7] Ibid., loc. cit.

[8] Ibid., p. 32-33.

[9] Ibid., p. 33; grifo nosso.

[10] Ibid., p. 34.

[11] Ibid., loc. cit.

[12] Ibidem.

[13] Ibid., p. 35.

[14] Ibid., p. 36.

[15] Ibid., p. 37; grifo nosso.

[16] Ibid., p. 25; grifos nossos.

[17] Ibid., p. 12.

[18] SERTILLANGES, A. D. A Vida Intelectual. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 14; grifos do autor.

[19] ADLER; VAN DOREN, op. cit., p. 37.

[20] Ibid., p. 14.

[21] Ibid., p. 199-210.

[22] Ibid., p. 12-15.

[23] Ibid., p. 37; grifo nosso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *