O fácil e o certo

A inteligência nos orienta a unir o fácil ao certo. Empresas investem bilhões em aperfeiçoamento de processos. A ideia é fazer o melhor em menos tempo, de forma mais descomplicada. Não há nada de errado com isso; Deus nos deu capacidades que tornam possível realizar mais com menos esforço. Louvamos ao Criador porque hoje muitas coisas são mais fáceis do que há anos atrás. Minha mãe conta, por exemplo, do trabalho que dava preparar um bolo de milho, nos tempos de sua mocidade. Muito antes de aplicar-se à mistura dos ingredientes da receita, as moças tinham de colher e debulhar as espigas, além de ajuntar a lenha para o fogão. Hoje basta adquirir uma caixinha de mistura pronta, atentar para as instruções do rótulo do pacote e esperar por mais ou menos quinze minutos. A facilidade uniu-se à delícia.

Nem sempre, porém, o certo é o mais fácil. No que diz respeito às coisas espirituais, parece que o padrão é o oposto: Fazer o certo é difícil, errar é muito fácil.

Não é difícil pecar. Enquanto a prática da virtude assemelha-se a uma escalada íngreme, pecar é como escorregar em um tobogã, dá um friozinho na barriga no início, mas depois a gente desce às gargalhadas. O problema é que, no final das contas, caímos em terrível lamaçal. É mais fácil mentir do que ser franco, olhar no olho e enfrentar os problemas. É mais fácil trair do que ser leal. É mais fácil obter vantagem ilícita do que abrir mão de privilégios em nome da honestidade. É mais fácil entregar-se à preguiça do que trabalhar duro. Enfim, as experiências que verdadeiramente fazem diferença em nossas vidas exigem que percorramos a estrada árida, que é sempre mais difícil.

Deus não nos encaminha para a angústia gratuita; ele não supervaloriza a dor. O apego doentio ao sofrimento (masoquismo) não é exigido pelo Senhor. Se pudermos encontrar um meio de vivermos com mais alegria e conforto, louvemos ao Altíssimo por tal dádiva. Há como unirmos o certo e o fácil? Glória a Deus por isso. No entanto, não nos enganemos. Muitas experiências espirituais são precedidas por lágrimas (Sl 126.5-6); o fácil, na maioria das vezes, não é o certo.

Há dois mil anos atrás Satanás ofereceu a Jesus um caminho fácil. O Redentor foi levado a um monte e lhe foram mostrados todos os reinos do mundo. “Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” — sugeriu o Tentador. Cristo rejeitou a proposta do diabo e assumiu a cruz (Mt 4.8-10). Ressuscitado, declarou aos seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Primeiro veio a cruz, depois a autoridade sobre os reinos. A proposta fácil exigia uma conduta errada. A glória foi a culminação da obediência — fazer o certo, mesmo que isso exigisse passar pela humilhação, escárnios, cravos e cruz.

O que esperamos ver realizado em nossas vidas nos próximos anos? Seremos espiritualmente bem-sucedidos na medida em que estivermos dispostos a fazer o certo, mesmo que isso não seja fácil.

2
  Ver também

Comentários

  1. Alfredo Maia Filho  julho 19, 2016

    Maravilhoso texto pastor. Toda vez que navego pelo seu site dou uma lida nele e compartilho com muitos.
    Que Deus continue abençoando o Sr.

    responder
    • Misael  julho 19, 2016

      Prezado Alfredo; graças a Deus por isso. Grande abraço.

      responder

Comentar