O João Calvino dos calvinistas

Caminhamos para finalizar nossa análise do primeiro capítulo do livro Calvinismo Recalcitrante, de João Flávio Martinez. Eu já mencionei que a obra apresenta dificuldades metodológicas para conceituar o Calvinismo. Além disso, critiquei pormenores do retrato “sombrio” de João Calvino apresentado no livro. Alister McGrath sugere que “os grandes estereótipos do passado, retratando Calvino como um ditador sanguinário e o Calvinismo como um rigorismo moral sem sentido, ficaram — apesar de serem ocasionalmente ressuscitados em escritos polêmicos — para trás”.[1] Calvinismo Recalcitrante ressuscita estes estereótipos e os assume como história ou fato.

Pretendo apresentar João Calvino como este é normalmente compreendido e acolhido pelos calvinistas. A ideia inicial era fazer isso em um único post, mas não consegui finalizar nesta semana a última seção, Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Se Deus permitir, farei isso na semana que vem. Ademais, nos próximos dias eu provavelmente atualizarei o presente post, especialmente enriquecendo as referências bibliográficas. Um mal-estar físico prejudicou meu ritmo de leituras e estudos.

O perigo da calvinolatria

Escrevo como cristão bíblico, repudiando toda idolatria em torno da pessoa ou obra de João Calvino. Dito de outro modo, eu não sou calvinólatra. Calvino era cheio de falhas; ele não foi um “super-herói”, mas um pecador salvo pela graça. Louvo a Deus por sua vida, ao mesmo tempo em que enxergo o perigo da calvinolatria, ou da arminiolatria ou de qualquer outra “latria” que porventura ameace a sã doutrina, culto e serviço cristãos. Quando consideramos homens ou instituições infalíveis, o ajuntamento de “crentes” deixa de ser igreja de Cristo.

Digo isso para que se saiba que o presente post é escrito com honestidade e respeito. A imparcialidade é impossível porque escrevo discordando do retrato de João Calvino fornecido por Calvinismo Recalcitrante. O texto é honesto e respeitoso porque não há, de minha parte, qualquer falsidade ou espírito beligerante. Meu intuito não é brigar, mas discordar honesta e humildemente de Martinez, sempre disposto a mudar de posição caso sejam fornecidas fontes bibliográficas confiáveis (explicarei isso na próxima seção).

Opiniões e fontes divididas

A celeuma em torno de Calvino não é recente; o organizador da Reforma em Genebra sempre foi um divisor de opiniões. Como afirma Van Halsema, desde os tempos em que ele era ainda vivo, “as pessoas ou seguiam a sua liderança com entusiasmo ou o odiavam amargamente”.[2] Só pra termos ideia do grau desta resistência:

Na sua cidade Natal de Noyon, os cônegos da catedral organizaram uma procissão pública para celebrar sua morte, quando dela ouviram um rumor falso em 1551. Mais tarde, a residência da família Calvino na praça do mercado foi incendiada pela raiva de seus inimigos. […] Na cidade francesa de Lyons, a notícia da morte de Calvino foi dada “mais de dez vezes”, tão ansiosos estavam os seus opositores de que fosse eliminado. A Igreja de Roma o considerava como seu maior inimigo.[3]

Alguns contemporâneos de Calvino que o odiavam escreveram sobre ele. Sebastião Castellio publicou “um livro denunciando a queima de Servetus”.[4] Foi Calvino quem nomeou o jovem Castellio como diretor do ginásio de Genebra.[5] Tudo ia bem até o momento em que este último escreveu uma tradução popular do Novo Testamento e pediu a Calvino que a recomendasse. Considerando a tradução “tosca e, em alguns pontos, inexata”[6] e sem tempo para discutir com Castellio cada ponto, Calvino recusou recomendá-la. Castellio irritou-se sobremaneira.

Para Gonzalez, Calvino fez Castellio ser expulso de Genebra porque este último interpretou o Cântico dos Cânticos “como um poema de amor”.[7] O problema foi muito mais sério. Castellio assumia uma concepção heterodoxa das Escrituras, afirmando que o Cântico dos Cânticos era apenas um escrito romântico, ou seja, “não era um livro inspirado da Bíblia”.[8] Ademais, Calvino não fez Castellio ser expulso de Genebra, como sugere Gonzalez. A expulsão de Castellio foi iniciativa do Pequeno Conselho.[9]

Além da concepção errada sobre a inspiração de Cântico dos Cânticos, havia outras discordâncias doutrinárias entre Castellio e não apenas Calvino, mas a ortodoxia abraçada por Genebra (como pastor fiel, Calvino era guardião da sã doutrina nas igrejas e cidade sob sua jurisdição). Castellio repudiava parte do Credo dos Apóstolos (“desceu ao Hades”), bem como a doutrina da eleição. Calvino tolerou tais desacordos até o momento em que Castellio pediu ao Pequeno Conselho para ser ordenado ao Sagrado Ministério, alegando “que o salário de diretor era baixo demais”.[10] O Pequeno Conselho aprovou, mas o conselho da igreja, liderado por Calvino, vetou a ordenação, ao mesmo tempo em que solicitou “aos conselhos da cidade que aumentassem o salário do diretor”.[11]

Com raiva pela recusa de sua admissão ao ministério, Castellio demitiu-se da direção do ginásio. Calvino ofereceu-lhe cartas de recomendação a Viret em Lausanne. “Estou verdadeiramente preocupado com ele”, escreveu Calvino. “Ajude-o no que for possível”.[12]

Não obtendo trabalho em Lausanne ou outra cidade, Castellio voltou a Genebra.

Numa tarde de 1544, apareceu num reunião semanal de ministros e leigos […]. […] levantou-se de repente e interrompeu a palestra. Os ministros de Genebra não são como Paulo, disse sarcasticamente. […] Calvino nada respondeu. Controlando-se, fechou a Bíblia e saiu da sala.[13]

Isso provocou uma reação no Pequeno Conselho, que decidiu expulsar Castellio de Genebra. “Saiu com cartas de recomendação de Calvino e dos ministros, os quais estavam prontos a recomendá-lo como professor embora não aprovassem sua admissão ao ministério”.[14] Tempos depois Castellio escreveu condenando Calvino pela queima de Servetus.

Uma busca rápida no Google revela que Castellio é tido atualmente como “reformado liberal”, “humanista” e “erudito”. Na obra A Ficção Cética, Gustavo Bernardo menciona elogiosamente seu legado, como segue:

A intolerância da Reforma se confirma quando Calvino, o sucessor de Lutero [isso não é historicamente exato; o sucessor de Lutero é Felipe Melanchton], ajuda a condenar o trinitário Miguel Servetus à morte na fogueira como herege [Servetus não era trinitário, pelo contrário, ele era antitrinitário]. O único defensor de Servetus entre os protestantes, o erudito Sebastião Castellio de Basileia, argumentou contra a condenação atacando a pretensão à certeza dos calvinistas. Em seu De Haereticis, escrito em 1554, Castellio mantinha, com base na obscuridade das Escrituras e no constante desacordo em torno delas, que ninguém pode estar tão certo da verdade em questões religiosas de modo que se justifique queimar alguém por isso.[15]

Eis Castellio, um ferrenho opositor contemporâneo de Calvino. Qualquer historiador que consultar suas obras obterá um retrato muito negativo do reformador de Genebra.

Um segundo opositor foi Jerome Bolsec, mencionado na longa citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[16] Hunt nos informa que Bolsec “ousou discordar [da] doutrina da predestinação de João Calvino. Ele […] foi preso e banido de Genebra com a advertência [de] que se ele retornasse seria açoitado”.[17] Hunt é mais exato do que Suffert, que sugere o seguinte dado falso: “Bolsec, um ex-carmelita que recusa a doutrina de Calvino sobre a predestinação, é queimado em 1553”.[18]

O ataque da Bolsec à doutrina da predestinação é destituído de qualquer originalidade.

Transformais Deus num tirano. E se Deus decidiu tudo desde o princípio, ele mesmo é responsável pelo pecado. Esse Calvino, que vos ensinais tais coisas, é um impostor. Sois loucos se seguis sua liderança.[19]

Calvino refutou Bolsec e o Pequeno Conselho decidiu expulsá-lo de Genebra. Bolsec assumiu seu lugar na fila dos inimigos mortais de Calvino. Como nos informa Van Halsema:

Na sua velhice, e com o seu ligeiro contato com Calvino, Bolsec produziu um livro sobre a vida do reformador de Genebra. De todos os livros escritos pelos inimigos de Calvino, este é provavelmente o que está mais cheio de mentiras maliciosas, acusações e invencionices.[20]

De acordo com McGrath:

Calvino, de acordo com Bolsec, era irremediavelmente aborrecido, malicioso, violento e frustrado. Ele considerava suas próprias palavras como se fosse palavra de Deus e se permitia ser adorado como Deus. Além de, frequentemente, ser vítima de suas tendência homossexuais, ele tinha o hábito de flertar com qualquer mulher que se aproximasse dele. De acordo com Bolsec, Calvino abriu mão de seus benefícios, em Noyon, em razão de terem vindo a público suas atividades homossexuais. A biografia de Bolsec é uma leitura muito mais interessante do que as de Teodoro de Beza ou de Nicolas Colladon; no entanto, sua obra se baseia, predominantemente, em relatos orais, anônimos e inconsistentes, provenientes de “pessoas dignas de confiança” (personnes digne de foy), que pesquisas mais recentes consideraram de valor questionável. A despeito desse fato, a reconstituição de Calvino, traçada por Bolsec, tem influenciado muitas outras descrições, bastante desfavoráveis, a respeito da vida e das ações do Reformador, que apresentam uma linha divisória, cada vez mais nebulosa, entre fatos e ficção.[21]

McGrath menciona também Stephan Zweig, o escritor austríaco que morreu no Brasil, em 1942, e que descreveu Calvino — provavelmente em Castellio ou Contra Calvino: Uma Consciência Contra a Violência (1936) — como “o grande ditador de Genebra, […] governando aquela cidade desafortunadamente com mãos de ferro”.[22] McGrath entende que a obra de Zweig:

[…] deve ser julgada pela ampla falta de qualquer fundamento histórico substancial como sendo, de modo geral, inconsistente com fortes evidências históricas e baseada em um entendimento inadequado a respeito das estruturas de poder e dos procedimentos de tomada de decisão operantes em Genebra.[23]

Deve ser ressaltado que exatamente Stephan Zweig, desconstruído por McGrath, é usado como fonte de pelo menos parte da citação de Dave Hunt, em Calvinismo Recalcitrante.[24]

Outro livro recente explica a Reforma em Genebra em uma seção intitulada A Reforma Pela Marreta,[25] ou seja, não faltam detratores da pessoa e obra de João Calvino em Genebra. Uma pesquisa nos escritos acerca de Calvino, do 16º século até agora, revelará opiniões e fontes divididas.

Isso significa que o leitor ou pesquisador tem de decidir: Qual fonte é confiável? Qual conjunto de dados ou informações — e qual leitura ou interpretação destes dados — corresponde aos fatos? Os favoráveis a Calvino sublinham que os escritos contrários (contemporâneos de Calvino) foram produzidos por pessoas que discordavam do seu ensino ou gestão em Genebra, especialmente que sentiram-se diminuídas, limitadas ou prejudicadas por ele. De modo geral, os calvinistas assumem como confiáveis os escritos doutrinários, os comentários bíblicos, os registros das atas dos conselhos de Genebra e as correspondências de Calvino. Também é tida como acreditável a biografia de Beza, sucessor de Calvino na liderança da igreja genebrina.

Não gostarão de Calvino aqueles que lerem sobre ele com os óculos do presente século. Especialmente no Brasil dominado pela cultura inclusiva, esquerdista-materialista e afetada pelo conceito “politicamente correto”. As ideias ou possibilidades de exclusão, de aplicação de disciplina social com base em convicções religiosas sobre uma minoria (rotulada pelos “detentores da autoridade religiosa” como “hereges”) são inconcebíveis no ideário compartilhado ocidental deste século. Basta folhear os escritos atuais para constatar que teólogos irenistas, tais como Erasmus de Roterdã — que abraçou o protestantismo, depois retornou à Igreja de Roma e era absolutamente contra qualquer uso de violência — são elogiados e academicamente recomendados.

Também não gostarão de Calvino os articuladores da supremacia da vontade humana, e aqui eu não me refiro estrita e necessariamente aos arminianos, pois conheço arminianos que ressaltam a soberania divina e respeitam João Calvino, considerando-o um homem de Deus, apesar de discordar dele em alguns pontos de doutrina. É o caso de Roger Olson, que apesar de refutar o Calvinismo[26] oferece também uma reconstituição séria e confiável da vida e ideias do reformador de Genebra.[27]

A estrutura de poder em Genebra

Calvino detinha poder absoluto sobre Genebra? Cabe a ele a designação de “déspota” ou “ditador” tanto da igreja quanto da cidade? McGrath nos informa com acerto:

A frase “A Genebra de Calvino” é carregada de implicações potencialmente enganosas, resultando, talvez, em interpretações incorretas acerca do status e do âmbito de liberdade de ação de que Calvino gozava em Genebra”.[28]

A “Genebra de Calvino” era regida por três conselhos. O primeiro, o Pequeno Conselho, era composto por vinte e cinco homens, dentre eles, “quatro síndicos, os mais importantes oficiais da cidade, porquanto eleitos pelo povo”[29] (tabela 01).

Pequeno Conselho
Principal instância de governo | 25 integrantes
4 integrantes eleitos pelo povo — os síndicos — e o tesoureiro da cidade
20 integrantes eleitos pelo Conselho dos Duzentos

Tabela 01. O Pequeno Conselho

O segundo conselho era o Conselho dos Duzentos, eleito pelo Pequeno Conselho (tabela 02).[30]

Conselho dos Duzentos
Segunda instância de governo
Homens eleitos pelo Pequeno Conselho

Tabela 02. O Conselho dos Duzentos

O terceiro conselho “era o Conselho Geral, ao qual pertenciam todos os homens de Genebra. Este era convocado somente para assuntos de suma importância”[31] (tabela 03).

Conselho Geral
Terceira instância de governo
Todos os homens (cidadãos) de Genebra

Tabela 03. O Conselho Geral

Hunt, citado por Martinez, menciona Zweig, sugerindo que quase todo dia, antes de tomar uma decisão, o “Conselho da Cidade” consultava Calvino.[32] Isso é admissível se considerarmos a época de 1556 a 1564, mas em suas primeiras quase duas décadas em Genebra, Calvino sofreu contestação e até humilhação por parte dos Conselhos, nos quais constavam seus grandes opositores, denominados Libertinos.[33] Quando John Knox chegou a Genebra a fase mais difícil havia passado. Sua declaração, de que “existe aqui a mais perfeita escola de Cristo desde os dias dos apóstolos”,[34] só pode ser entendida no contexto de uma Genebra pacificada e reformada.

Mesmo depois de consolidada a Reforma, e por conseguinte, a influência de Calvino, este não agia como um “ditador”. Suas ideias tinham de ser aprovadas primeiramente pelo Conselho de Ministros, depois, pelos outros Conselhos genebrinos. Só pra exemplificar, a Academia de Genebra, “o sonho de Calvino”, só foi estabelecida em junho de 1550, dezoito anos depois do início da segunda fase de seu ministério.[35] O livro de cânticos da igreja, o Saltério de Genebra, só foi publicado em 1562, depois de vinte e um anos de ministério![36] Algumas propostas de Calvino eram acolhidas e acatadas. Outras não. Trocando em miúdos, ele trabalhou sob a autoridade de outros pastores e membros dos Conselhos de Genebra. Destarte, algumas coisas que são atribuídas a Calvino não ocorrem apenas por causa dele, de fato, em determinadas situações, ocorreram a despeito dele.

Outro detalhe a considerar é o ethos que conduz as cidades e reinos a aplicar a pena de morte no 16º século. Suffert explica que “em Genebra, condena-se à morte por motivo religioso[37] — uma declaração anacrônica por desconsiderar o contexto histórico e cultural de Calvino. A pena de morte por questão religiosa era prática comum não apenas em Genebra, mas virtualmente em todas as culturas desde a antiguidade até a aurora renascentista. Politicamente, não havia nítida distinção entre Religião e Estado. A Europa Cristã (incluindo Genebra) abraçava e submetia-se ao “Codex de Justiniano, o livro legal padrão ainda seguido no Santo Império Romano”.[38] Apenas pra exemplificar, de acordo com o Codex, “pelo crime de negar a Trindade […] a penalidade é a morte”.[39]

Quem não reconhece tais coisas extrapola os limites de poder de Calvino em Genebra e atribui a ele uma vileza injustificada. A compreensão adequada do ethos daquela época nos ajuda a compreender melhor muitas coisas, inclusive a execução de Servetus.

O episódio de Miguel Servetus

Olhemos mais de perto para a execução de Miguel Servetus, explicada laconicamente por Suffert, como segue:

Era um médico espanhol que residia em Lyon e negava a Trindade e a divindade de Cristo. Ele é denunciado, por intermédio de Calvino, à Inquisição católica de Lyon. Tratava-se de um sábio — sem dúvida, foi ele quem descobriu a circulação do sangue. Servet — que se correspondia há muitos anos com Calvino — fugiu de Lyon para Genebra. Reconhecido, ele é preso enquanto assiste a um sermão de Calvino. Este organiza o processo de seu amigo, manda condená-lo e queimá-lo em 1553.[40]

Servetus foi queimado na colina Champel com quarenta e dois anos de idade, em 27 de outubro de 1553, acorrentado a uma estaca e com um livro amarrado debaixo do braço.[41] Os calvinistas não celebram sua morte. Como registra Van Halsema:

Hoje existe uma pedra no lugar onde Servetus morreu. […] Há uma inscrição francesa na pedra: “Como filhos reverentes e agradecidos de Calvino, nosso grande Reformador, repudiando seu erro, que foi o erro da sua época, e, de acordo com os verdadeiros princípios da Reforma e do Evangelho, apegando-nos à liberdade de consciência, erigimos este monumento de reconciliação neste 27º dia de outubro de 1903”.
Olhando para trás, […] lamenta-se que Calvino, na maneira de tratar Servetus, tenha agido como outros homens de seu tempo. Lamenta-se, especialmente, porquanto nos seus escritos e nos seus atos Calvino estava muito além da sua época, apontando o caminho para a tolerância e a liberdade, a separação entre a igreja e o estado, ao direito de cada homem crer em Deus conforme a sua consciência.
O milagre consiste em que Deus tenha usado um servo pecador como João Calvino de maneira tão poderosa para edificar sua igreja e influenciar seu mundo.[42]

E como Calvino agiu? Tentarei responder retornando à citação de Suffert que sugere um Calvino maligno, um “amigo” que se corresponde por muitos anos com Servetus e, no fim das contas, o trai e mata.[43]

Não é bem assim.

Desde os dezoito anos de idade, Miguel Servetus declara sua descrença na doutrina da Trindade. Para ele Jesus não é divino e o Espírito Santo não é um ser distinto. Seu primeiro livro com tais ideias é publicado quando ele tem apenas vinte anos de idade e é rejeitado tanto pelos líderes protestantes (os conselhos de Estrasburgo e Basel, bem como Lutero, Melanchton, Bucer, Bullinger e Zwinglio) quanto pelo Supremo Conselho da Inquisição Espanhola.[44]

Servetus altera seu nome para Michel de Villeneuve e dedica-se a muitas coisas. Aos vinte e dois anos de idade, marca um encontro com João Calvino em Paris, mas não comparece.[45] Naquela cidade ele edita “uma geografia do mundo”, estuda medicina (descobrindo como “o sangue circula nos pulmões”) e dá palestras “sobre geografia e astrologia”, aventurando-se “a prognosticar pelas estrelas” o que acontecerá “a homens e nações”. É julgado pelo parlamento francês por insolência a um professor. Consegue escapar e muda-se para Vienne, onde vive doze anos pacíficos, editando livros, praticando medicina, conquistando a amizade do arcebispo e fazendo-se de católico fiel a Roma.[46] Ali ele se dedica a outro livro que intitula As Restitutas, que considera uma “restauração” ou “resgate” do Cristianismo primitivo e puro.[47]

Assim que completa trinta e cinco anos (em 1546 e 1547) Servetus escreve a Calvino, que lhe responde com cortesia e envia-lhe “uma cópia de suas Institutas”. Servetus devolve a cópia “com anotações insultantes” e prossegue remetendo mais cartas longas, tratando Calvino com “condescendência e aspereza”. Considerando perda de tempo debater com ele, Calvino deixa de responder-lhe. Observe-se que Calvino, “apesar de saber a identidade real de Servetus, não tomou nenhuma providência para revelá-la às autoridades católico-romanas em Vienne”.[48]

Seis anos depois, as Restitutas são publicadas. “No lugar de seu nome Servetus usou somente as iniciais M. S. V. (Miguel Servetus Villeneuve) na página titular. Mas incluiu as trinta cartas a Calvino no apêndice do livro”.[49]

Na cidade vizinha, Lyon, cinco pastores protestantes são presos. Depois de um ano, em maio de 1553, eles são “acorrentados em grupo e queimados vivos”.[50] A situação provoca indignação nos protestantes. Entre a prisão e execução destes pastores, um morador de Genebra escreve a um primo que mora em Lyon, criticando-lhes porque estão maltratando verdadeiros servos de Deus, ao mesmo tempo em que suportam, próximo a eles, um “herege […] que blasfema contra a Trindade e que acaba de escrever um novo livro cheio de heresias. […] O herege de quem falo é Servetus, o espanhol, conhecido em Vienne como Miguel de Villeneuve”. Para comprovar, o protestante envia ao primo católico “as quatro primeiras páginas” do livro de Servetus.[51]

O primo católico-romano de Lyon foi logo às autoridades eclesiásticas com a notícia. Convocaram Servetus, o qual jurou por tudo que era somente Miguel de Villeneuve, um fidelíssimo seguidor de Roma. As autoridades precisavam de mais provas. Pediram ao primo católico-romano que escrevesse a Genebra solicitando-as.[52]

Este primo protestante é amigo de Calvino e pede que este lhe forneça algumas cartas de Servetus. Estas são enviadas ao primo católico-romano com uma observação: “Mas preciso dizer-lhe que não foi pouca a dificuldade em receber de Calvino o que lhe estou remetendo”.[53] Como prossegue Van Halsema:

Será que Calvino sabia que as cartas originais de Servetus seriam entregues às autoridades para serem usadas para Servetus? O próprio Calvino negou mais tarde que tivesse participado na entrega de Servetus à Igreja de Roma, e não temos motivo para duvidar da sua palavra. Mas as cartas, afinal de contas, tornaram-se as provas finais contundentes contra Servetus, não importando os motivos por que foram remetidas. Não adiantaram os esforços de Servetus para eximir-se da culpa. As provas estavam ali. Foi colocado na prisão em abril de 1553 para aguardar sentença.[54]

A prisão de Vienne não o segura. Servetus foge. As autoridades, indignadas, queimam solenemente uma efígie cheia de palha, representando-o.[55] Quatro meses depois, ei-lo em Genebra, hospedando-se na Estalagem da Rosa Dourada e encomendando “um barco para atravessar o lago em direção a Zurique”.[56]

No domingo seguinte, 13 de agosto, ele comparece a um culto. Alguém o reconhece e comunica Calvino, que pede aos conselhos que o prendam. Eis o que consta nas atas:

Miguel Servetus foi reconhecido por alguns irmãos, e parecia conveniente fazer dele um prisioneiro para que o mundo não mais fosse infectado pelas suas heresias e blasfêmias, porquanto é conhecido como incorrigível.[57]

Inicia-se um julgamento de dois meses e meio. Calvino escreve um documento com trinta e nove acusações e confronta Servetus face a face. É então que os Libertinos dos Conselhos — incluindo Ami Perrin, presidente do Pequeno Conselho — demonstram apoio a Servetus. Este percebe a oposição crescente a Calvino e o trata com insolência e desprezo,[58] chamando-o de “criminoso, assassino, desgraçado, mentiroso, anão ridículo, […] acha que tem a capacidade de ensurdecer os ouvidos dos juízes com o seu latido de cão?”[59]

Calvino prossegue com sua argumentação — muitas vezes raivosa e áspera — consolidando doutrinariamente suas trinta e nove acusações e finalizando com a exigência de punição de Servetus, nos termos do Codex de Justiniano.[60]

A partir de então, a sentença tem de ser proferida pelo Pequeno Conselho que, como dissemos é presidido por um opositor de Calvino favorável a Servetus. Como afirma Van Halsema, “nunca foi tão pouca a influência de Calvino sobre o Conselho como nos meses em que Servetus esteve na prisão”.[61] De fato, paralelamente ao problema de Servetus ocorre uma celeuma em torno da excomunhão de Berthelier, o líder Libertino. O Pequeno Conselho assume o poder da igreja e, à revelia do Conselho de Ministros e desafio a Calvino, restaura Berthelier e o autoriza a participar da Santa Ceia.[62] O protesto de Calvino é veemente, mas rejeitado pelo presidente do Pequeno Conselho. No sábado anterior à Ceia ele diz aos vinte e cinco homens: “Assevero que prefiro morrer do que ver desonrada a Ceia do Senhor […]. Preferia estar morto cem vezes do que cometer tão terrível escárnio contra Cristo”. No domingo seguinte, orientado pelo Pequeno Conselho, Berthelier não comparece ao culto de Ceia.[63]

Tudo disso deixa Servetus altivo e bem-humorado.

A sua ousadia chegara ao ponto de escrever ao Pequeno Conselho: “Portanto, meus senhores, exijo que o meu falso acusador seja punido, […] que sua propriedade me seja outorgada em recompensa pela minha […] e que seja ele conservado prisioneiro assim como eu até que o julgamento seja decidido pela sua morte ou por qualquer outra punição”. É interessante que mesmo Servetus esperava que o veredito do julgamento fosse a morte, mas não esperava que seria ele quem iria morrer.[64]

Ocorre um fato novo que muda tudo. Ao invés de proferir imediatamente sua sentença, o Pequeno Conselho decide consultar “igrejas e conselhos de representantes de quatro cidades suíças. […] Apoiados por uma provável repetição de respostas moderadas, o Pequeno Conselho poderia então libertar Servetus”.[65]

[…] as respostas de Zurich, Bern, Basel e Schaffhausen foram surpreendentes — um abalo, mesmo, para o Libertinos. […] Cada conselho e cada igreja denunciou Servetus, afirmando que as suas blasfêmias precisavam ser cortadas antes que pudessem prejudicar ainda mais a igreja de Cristo. Em nossa cidade, disse Bern, a penalidade seria a morte pelo fogo.[66]

Ami Perrin tergiversou, protelou a decisão e tentou passá-la ao Conselho dos Duzentos, onde haviam mais opositores de Calvino, mas o Pequeno Conselho entendeu que deveria proferir a sentença, condenando Servetus à morte pela fogueira.

Foi um veredito unânime porquanto até os Libertinos perceberam que não poderiam ignorar as opiniões de quatro influentes cidades. Calvino ouviu a sentença e imediatamente pediu ao Conselho que substituísse a estaca pela espada, porquanto a decapitação era mais misericordiosa do que a queima na estaca. Mas o Pequeno Conselho, rápido para recusá-lo, recusou-lhe esse pedido também.[67]

É interessante um registro deste incidente por Van Halsema:

Calvino foi visitá-lo. Servetus pediu-lhe perdão. Calvino respondeu […]: “Creia-me, jamais tive a intenção de processá-lo por causa de alguma ofensa pessoal contra mim. Há dezenove anos, colocando em perigo a minha vida, quis encontrar-me com você em Paris para ganhá-lo para o nosso Senhor. E depois, quando você vivia como um fugitivo, quis novamente mostrar-lhe o caminho certo pelas minhas cartas até que você começou a odiar-me por causa de minha firmeza […] Mas […] peça perdão ao Deus perene que você blasfemou […]. Seja reconciliado ao Filho de Deus […] ao Salvador”.[68]

Farel também foi a Genebra e visitou Servetus, mas este permaneceu irredutível — apegado às suas crenças até o fim.[69]

Calvino foi responsável pela morte de Servetus? Do ponto de vista jurídico, a execução decorreu de uma deliberação do Pequeno Conselho influenciado pelos conselhos da regiões protestantes da Suíça. Na ocasião, o Pequeno Conselho não estava sob a influência de Calvino, pelo contrário, era-lhe oposto. No entanto, como afirma Van Halsema:

Calvino havia participado da morte de Servetus. Tinha pedido aos Conselhos que prendessem o espanhol. Tinha feito acusações contra ele. Tinha debatido perante o Pequeno Conselho para provar que as heresias deste homem estavam ameaçando a igreja de Cristo. E apesar de Calvino não ter participado na sentença, ele a aprovou, embora não pelo fogo.[70]

A fim de não incorrermos em anacronismo, entendamos que:

Outros líderes protestantes estavam a favor da pena de morte. O brando Melanchton, sempre inclinado à paz e à transigência, escreveu a Calvino: “A igreja de Cristo ficar-lhe-á grata. […] O seu governo, de acordo com todas as leis, providenciou a morte desse blasfemo”. A época era de estacas, […] quando os homens ainda acreditavam ser do seu dever julgar as crenças que outros tinham de Deus.[71]

Isso não confere a Calvino inocência, mas nos ajuda a compreendê-lo em seu contexto. O triste fato é que “a partir de então esse incidente se tornou o símbolo do dogmatismo rígido que reinava na Genebra de Calvino. E não há dúvida de que há muito de verdade nisso”.[72] Gonzalez prossegue afirmando que:

Em todo caso, depois da execução de Servetus, a autoridade de Calvino em Genebra não teve rival, sobretudo porque os teólogos de todas as demais regiões da Suíça protestante lhe tinham dado apoio, ao mesmo tempo em que seus opositores se colocaram na difícil situação de defender um herege condenado tanto pelos católicos como pelos protestantes da Suíça.[73]

O que se enxerga no episódio de Servetus? Os detratores de Calvino encontram um monstro. Os calvinistas encontram um homem que, como Moisés ou Davi, a despeito de seus pecados, não deixa de ser homem de Deus.

Notas biográficas e legado de João Calvino

Não pretendo alongar sobremaneira esta postagem. Eu imagino que somente uma minoria conspícua se dispõe a ler meus posts do início ao fim. Sendo assim, não é meu propósito (muito menos tenho capacidade para) fornecer uma biografia de João Calvino. Martinez já nos brinda com um resumo útil ao citar o texto sobre o reformador publicado no web site do Instituto Presbiteriano Mackenzie.[74] Ademais, os leitores interessados em mais informações serão beneficiados compulsando os livros e links mencionados nas notas deste post.

Cinco fases da vida de Calvino

Basicamente, a vida de Calvino pode ser dividida em cinco fases (tabela 04), sendo a primeira, sua infância e pré-adolescência, de 1509 a 1523, quando obteve status de menino clérigo de Noyon e destacou-se pela inteligência privilegiada, obediência aos pais, hábitos disciplinados e ares de aristocrata (devido ao convívio com amigos nobres).[75]

A fase seguinte é a de João Calvino antes de Genebra, de 1523 a 1536, abarcando sua mudança para Paris, sua iniciativa como escritor humanista, sua conversão, sua fuga de Paris, viagens sob perseguição, publicação da primeira edição das Institutas e primeiras experiências de pregação, ensino e serviço aos cristãos protestantes de fala francesa.[76]

A terceira fase remete ao primeiro tempo de Calvino em Genebra, de 1536 a 1538. Esta fase começa como uma tempestade (com o apelo dramático de Farel para que Calvino permaneça em Genebra) carregada de promessas e termina como um terremoto (a trágica expulsão de Calvino e seus amigos). Calvino é recebido festivamente e a cidade assume compromissos de Reforma, mas não deseja, de fato, implementá-las. No fim, Calvino, Farel e o cego Corault são escoltados para fora de Genebra, em 25 de abril de 1538.[77]

Segue-se a quarta fase da vida de Calvino, seu abençoado exílio em Estrasburgo, de 1538 a 1541. Ali ele amadurece teologicamente e na prática pastoral e se casa com Idelette de Bure. Ele não tem planos de sair da cidade, até ser novamente convocado a Genebra.[78] É quando inicia a quinta e última fase, que corresponde ao seu estabelecimento definitivo em Genebra, de 1541 até sua morte, em 1564. Esta fase pode ser subdividida em duas, um difícil período de consolidação (os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556) e o ponto alto da reforma em Genebra, de 1556 a 1564.[79]

Cinco Fases da Vida de João Calvino
1509 a 1523 1523 a 1536 1536 a 1538 1538 a 1541 1541 a 1564
Infância e pré-adolescência Antes de Genebra Primeiro tempo em Genebra Exílio abençoado em Estrasburgo Estabelecimento definitivo em Genebra
Nascimento, convívio familiar, amizades e estudos, tonsura e nomeação de Calvino como noviço e capelão em Noyon Mudança para Paris, iniciativa como escritor humanista, conversão, fuga de Paris, viagens sob perseguição, primeira edição das Institutas e experiências iniciais de pregação, ensino e serviço Início promissor e fim trágico. Calvino é recebido festivamente. A cidade assume compromissos de Reforma, mas não deseja implementá-las. No fim, Calvino, Farel e o cego Corault são expulsos de Genebra. Amadurecimento teológico e pastoral. Casamento com Idelette de Bure. Sem planos de sair da cidade, até ser novamente convocado a Genebra.

1541 a 1556. Consolidação sob forte oposição

1556 a 1564. Ponto alto da reforma em Genebra

Tabela 04. Cinco fases da vida de João Calvino

Prosseguiremos no próximo post, quando aprenderemos sobre Um João Calvino Que Nem Todos Conhecem. Até lá. Fiquem na paz do Senhor.

Notas

[1] MCGRATH, Alister. A Vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 13.

[2] VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Vida Evangélica, 1968, p. 148. Enquanto eu preparava este post, descobri com alegria que há uma nova edição em português. Os dados atualizados são VAN HALSEMA, Thea B. João Calvino Era Assim. São Paulo: Editora Os Puritanos, [201-?]. Disponível em: <http://loja.livrariareformada.com.br/puritanos/joao-calvino-era-assim.html>. Acesso em: 25 Set. 2014. As citações deste post correspondem à edição de 1968.

[3] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit. Grifo nosso.

[4] Ibid., p. 165.

[5] Ibid., p. 163.

[6] Ibid., p. 164.

[7] GONZALEZ, Justo L. E Até Os Confins da Terra: Uma História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 116. v. 6.

[8] VAN HALSEMA, op. cit., loc. cit.

[9] Ibid., p. 165.

[10] Ibid., p. 164. Grifo nosso.

[11] Ibid., loc. cit.

[12] Ibid., loc. cit.

[13] Ibid., p. 164-165.

[14] Ibid., p. 165.

[15] GUSTAVO, Bernardo. A Ficção Cética. São Paulo: Editora Annablume, 2004, p. 146. Grifos nossos.

[16] HUNT, Dave. O Lado B do Calvinismo em Genebra. In: Instituto Teológico Gamaliel: Onde Cada Aluno é um Discípulo e Cada Discípulo é um Irmão. Disponível em: <http://www.institutogamaliel.com/portaldateologia/o-lado-b-do-calvinismo-em-genebra/teologia>. Acesso em: 18 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 23-28. Endereçamento de fonte corrigido.

[17] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 26.

[18] SUFFERT, Georges. Tu És Pedro: Santos, Papas, Profetas, Mártires, Guerreiros, Bandidos: A História dos Primeiros 20 Séculos da Igreja Fundada Por Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 268.

[19] VAN HALSEMA, op. cit., p. 173.

[20] Ibid., p. 174. O título do livro é Histoire de La Vie, des Moeurs … De Jean Calvin, publicado em Lyon e Paris em 1577. A obra teve edições em Latim (1580) e alemão (1581).

[21] MCGRATH, op. cit., p. 33-34.

[22] Ibid., p. 13.

[23] Ibid., p. 13-14. Grifos nossos.

[24] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.

[25] FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe; WILSON, Derek. Reforma: O Cristianismo e o Mundo 1500-2000. Rio de Janeiro: Record, 1997, p. 144-147.

[26] OLSON, Roger. Contra o Calvinismo. São Paulo: Editora Reflexão, 2013; OLSON, Roger. Teologia Arminiana: Mitos e Realidades. São Paulo: Editora Reflexão, 2013.

[27] OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 407-423.

[28] MCGRATH, op. cit., p. 13.

[29] VAN HALSEMA, op. cit., p. 79.

[30] Ibid., loc. cit.

[31] Ibid., loc. cit.

[32] HUNT, apud MARTINEZ, op. cit., p. 25.

[33] VAN HALSEMA, op. cit., p. 163-190.

[34] Ibid., p. 191.

[35] Ibid., p. 193-197.

[36] Ibid., p. 193.

[37] SUFFERT, op. cit., loc. cit.

[38] VAN HALSEMA, op. cit., p. 183.

[39] Ibid., loc. cit.

[40] SUFFERT, op. cit., loc. cit.

[41] VAN HALSEMA, op. cit., p. 188.

[42] Ibid., p. 189.

[43] SUFFERT, op. cit., loc. cit.

[44] VAN HALSEMA, op. cit., p. 176-177.

[45] Ibid., p. 177.

[46] Ibid., loc. cit.

[47] Ibid., p. 177-178.

[48] Ibid., p. 178.

[49] Ibid., loc. cit.

[50] Ibid., p. 178-179.

[51] Ibid., p. 179.

[52] Ibid., loc. cit.

[53] Ibid., p. 180.

[54] Ibid., loc. cit.

[55] Ibid., p. 180-181.

[56] Ibid., p. 181.

[57] Ibid., loc. cit.

[58] Ibid., p. 182.

[59] Ibid., p. 183.

[60] Ibid., loc. cit.

[61] Ibidem.

[62] Ibidem.

[63] Ibid., p. 185.

[64] Ibid., p. 186.

[65] Ibid., p. 187.

[66] Ibid., loc. cit.

[67] Ibidem. Os mesmos fatos são mencionados, com menos detalhes, por GONZALEZ, op. cit., p. 116.

[68] Ibid., p. 188.

[69] Ibid., loc. cit.

[70] Ibidem.

[71] Ibid., p. 189.

[72] GONZALEZ, op. cit., loc. cit.

[73] Ibid., p. 117.

[74] MATOS, Alderi Souza de. João Calvino: Síntese Biográfica. Disponível em: <http://www.mackenzie.com.br/7034.html>. Acesso em: 25 Set. 2014, apud MARTINEZ, op. cit., p. 20. Endereçamento de fonte corrigido.

[75] Os detalhes desta fase podem ser obtidos em VAN HASELMA, op. cit., p. 10-14.

[76] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 14-70: Formação em Paris, Orleans (conversão?) e Bourges. Novas amizades. Publicação de comentário sobre Sêneca. Fuga de Paris. Noyon, Angoulême e Nérac. Retorno a Noyon; em 21 de maio de 1534, abriu mão de seu benefício clerical. Reuniões secretas em Paris, visita à região dos urzais, próxima a Poitiers. Fuga para Angoulême e Orleans, viagem sob perseguição até a fronteira germânica. Desejo de ir até Estrasburgo. Estabelecimento em Basel. Primeira edição das Institutas com carta a Francisco I e viagem frustrante à Itália. Retorno a Paris nos seis meses de isenção aos protestantes, em 1536. Decisão para ir a Estrasburgo. Retorno passando por Genebra.

[77] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 70-93: Apelo de Farel. Aulas em Saint Pierre. Versão francesa das Institutas. Debate em Lausanne. Confissão de Fé. Pedido de quatro reformas ao Pequeno Conselho: (a) Celebração contínua da Ceia do Senhor e liberdade para a igreja aplicar a excomunhão (não é bem recebida pelo Conselho); (b) Estudo e atualização das leis matrimoniais de acordo com a Palavra de Deus; (c) Instrução das crianças utilizando-se um catecismo; (d) Que os Salmos sejam cantados na igreja. Debate com os anabatistas (Caroli). Imposição dos ritos de Bern, eliminados antes por Farel. O Pequeno Conselho e a população fazem oposição a Calvino, Farel e ao cego Corault. Estes se recusam a celebrar a Ceia do Senhor no culto de Páscoa. Na Igreja de Rive, homens desembainham espadas durante a pregação de Calvino. Os síndicos reúnem-se após o culto da noite e o Conselho dos Duzentos na manhã de segunda-feira. Decisão: Calvino, Farel e Corault devem ser imediatamente expulsos de Genebra.

[78] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 94-125: Calvino, Farel e Corault são ouvidos no sínodo em Zurich. Aceitam os ritos de Bern, mas sugerem uma separação da igreja (questões litúrgicas e poder de excomunhão pertencem à primeira e não ao segundo). Genebra insiste em não recebê-los de volta. Viagem até Basel. Farel vai pastorear em Neuchâtel. Calvino segue até Estrasburgo, retorna para Basel e daí, novamente para Estrasburgo. Em 8 de setembro de 1538, prega como pastor dos refugiados franceses. Torna-se amigo e é mentoreado por Martin Bucer. Amadurece teologicamente e na prática pastoral. Casa-se com Idelette de Bure. Firma amizade com Melanchton e escreve a Lutero. Publica o Pequeno Tratado Sobre a Santa Ceia do Nosso Senhor. Participa das dietas de Worms e, ali, recebe carta dos síndicos e conselhos de Genebra, convidando-o a retornar. Toma conhecimento de que Estrasburgo é tomada pela peste. Reluta em aceitar o pedido de Genebra. Viaja a Ratisbon, para nova dieta, que abandona ao perceber que não produzirá resultados. Mais uma vez admoestado por Farel, aceita o convite de Genebra, chegando à cidade em 13 de setembro de 1541.

[79] Rápidos detalhes extraídos de ibid., p. 127-206: Período de consolidação; os primeiros quinze anos, de 1541 a 1556. Bem-recebido em Genebra. Presenteado com um toga de veludo preto. Instalado na casa na Rua do Canhão, perto da Catedral. Novo púlpito em Saint Pierre. Uma carruagem vai buscar Madame Calvino em Estrasburgo. Registra-se na ata do Pequeno Conselho: “Resolve-se conservar Calvino aqui para sempre”. Proposta de planos. Auxiliado por Viret. Escrita, aprovação e execução das Ordens Eclesiásticas da Igreja de Genebra — estabelecimento de quatro funções na igreja (ministro, professor, presbítero e diácono) e organização das atividades eclesiásticas (cultos, sermões, batismos, casamentos, Ceia do Senhor e visitações). As Ordens foram aprovadas em dois meses e demorou catorze difíceis anos para colocá-las em prática. Compilação das leis da cidade. Em 1542, o primeiro filho de Calvino, Jacques, morre duas semanas após o nascimento. Três anos depois nasce e falece uma filha. Dois anos adiante, espera-se uma terceira criança que morre ao nascer. Idellete adoece e morre em 29 de março de 1549. Embates com os Conselhos de Genebra, além de Sebastião Castellio, Pierre Ameaux, a família Favré, Philibert Berthelier, Pierre Vandel, Jacques Guet (Gruet), Bolsec, Zeraphin Trolliet e Miguel Servetus. Última tentativa de oposição dos Libertinos em 1555.

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Comentários

  1. Alison Bueno  Abril 29, 2015

    Olá Rev. Misael!

    Estou acompanhando a sua análise ao livro Calvinismo Recalcitrante, desde já parabenizo pelo excelente trabalho.

    Gostaria de saber quando se dará a continuação da análise.

    Muito obrigado, Deus o abençoe!

    responder
    • Misael  Abril 29, 2015

      Oi Alison;

      Sim, pretendo finalizar. Não o fiz ainda por absoluta falta de tempo (preciso completar algumas leituras recomendadas pelo Pr. João Flávio antes de retomar a escrita). Conto com suas orações, para que abra-se uma brecha para eu retomar estas postagens.

      responder
  2. João  dezembro 18, 2014

    Dos que condenam à fogueira
    “Matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem.” Sébastien de Castellion, “Contra Libellum Calvini”, 1554
    Há muitos livros que eu gostaria de ter escrito, e poucos mais do que “Uma Consciência contra a Violência: Castellion contra Calvino”, de Stefan Sweig.
    Partindo do ignominioso julgamento e do martírio na fogueira do espanhol Miguel Serveto (1511-1553), condenado por João Calvino (1509-1564) por heresia contra a Trindade, Sweig contrapõe o reformador Calvino ao acadêmico Sébastien Castellion (1515-1563), erigindo uma vigorosa defesa da liberdade de pensamento e uma pungente crítica ao fanatismo religioso.
    A leitura do livro foi também a ocasião para reler o texto “Calvino e Serveto”, de autoria do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, proeminente nome da Igreja Presbiteriana do Brasil, instituição religiosa que, nos dias atuais, é a que porta no Brasil a teologia calvinista na sua forma mais depurada.
    O texto do Rev. Augustus, eivado de clamorosos erros históricos, há tempos me chamava à atenção, clamando-me uma réplica.
    Ei-la: longa, longuíssima até.
    As referências usadas na elaboração do texto estão ao final – o livro de Zweig foi a principal e encorajo todos a lê-lo. Há também links ao longo do texto que podem interessar ao leitor.
    Pela honestidade do debate, é de bom alvitre que, antes de se prosseguir na leitura deste, que se remeta ao artigo do Rev. Augustus.
    Um dos aspectos mais eloquentes no texto do Rev. Augustus é a sua ambivalência. De um lado, quando aborda o julgamento e a decisão de punir Serveto com a fogueira, o autor trata de relativizar o poder do líder religioso: “Calvino não tinha qualquer acesso à máquina decisória do Conselho. Ele mesmo não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo. E mesmo quanto aos negócios da Igreja, Calvino quase não tinha qualquer poder decisório”. Quando, porém, se trata de destacar as benfeitorias no período em que Calvino liderou Genebra, o Rev. Augustus não hesita em dizer que tais avanços decorrem diretamente da ação e da influência de Calvino: “Foi ele quem instou o Conselho a afiançar empréstimos a baixos juros para os pobres. Foi ele quem defendeu a educação universal e gratuita para todos os habitantes da cidade.” E por aí vai.
    Ora… Os benefícios são faceiramente atribuídos ao poder e à influência de Calvino, mas não as atrocidades?
    [Argumentações calvinistas frequentemente se defrontam com esses antinômios. Afinal, o calvinismo não é uma doutrina que contem antinômios, mas antinômios que viraram uma doutrina. O que, aliás, é um artifício teológico utilíssimo: como ensinou Orwell, o duplipensar é um poderoso instrumento para cooptação de mentes e corações.]
    Fugindo do recurso da ambivalência que, segundo a moralidade da ação em questão, intercambia o poder político-religioso de Calvino em dois polos, um de muito poder, outro de ínfima influência, encaremos os fatos históricos.
    A verdade é que, em Genebra, Calvino nunca foi além de pastor e de professor de teologia – mas um pastor e um professor de teologia de enorme influência na cidade, principalmente por influenciar o Conselho, instância que regia a vida social e político-administrativa da cidade. Como escreve Sweig: “Nos processos verbais do Conselho, não há um único dia em que não se encontre a seguinte menção: ‘será necessário pedir conselho ao Mestre Calvino’”.
    Esse é o ponto de partida para que se entenda o que foi a Genebra de Calvino e qual o seu legado.
    O poder de Calvino
    Menos revela que esconde a informação do Rev. Augustus, verdadeira em si, de que Calvino “não podia votar e nem concorrer a qualquer cargo político eletivo”, tentando retratar um Calvino destituído de poder decisório – eis aqui um dos aspectos em que a contextualização do Rev. Augustus induz ao erro de entendimento histórico. Na Europa de meados do século XVI, “Estado laico” e “separação entre Igreja e Estado” são princípios tão prevalentes quanto direitos humanos e leis trabalhistas nas senzalas brasileiras do século XVIII. Na Europa pré-iluminista, ter o poder eclesiástico incorria naturalmente em ter o poder político e ter o controle do púlpito era deter uma poderosa ascendência sobre a vida político-administrativa da cidade. Na Genebra de Calvino, a submissão civil ao poder eclesiástico era ainda mais vigorosa, como é epitomado no gesto do 21 de maio de 1536: todos os cidadãos da cidade foram solenemente convocados à praça pública para declararem, mãos erguidas, desejarem viver “segundo o Evangelho e a Palavra de Deus”.
    O amálgama poder político/poder religioso se reforçaria ainda mais nos anos que viriam. Em 1541, Calvino funda o Consistório, um tribunal eclesiástico composto por pastores e anciãos. Segundo Calvino, o Consistório tinha como missão “vigiar a comunidade para que Deus fosse devidamente honrado”, e na prática, existiu como um órgão de coerção da população para obediência às leis religiosas. Também em 1541, Calvino redigiu Les Ordonnances Ecclésiastiques de la Ville (um código religioso para a cidade). Calvino exigiu, e obteve, que os cidadãos da cidade se apresentassem à catedral em grupos de dez para que prestassem “obediência absoluta” ao código eclesiástico.
    Calvino, responsável pelo púlpito da principal catedral de Genebra, e instalado com a missão expressa de aprofundar a Reforma na cidade, tinha, portanto, notável poder.
    E, na sua obra-prima, As Institutas (1536), Calvino revela como percebia o exercício do poder pelos pastores (grifo meu):
    “Eis o supremo poder de que convém sejam investidos os pastores da Igreja, por qualquer nome, afinal, por que sejam chamados, isto é, que a tudo ousem confiantemente pela Palavra de Deus; obriguem todo poder, glória, sabedoria, exaltação do mundo, a sujeitar-se e a obedecer-lhe à majestade; sustidos em seu poder, imperem sobre todos, desde o mais alto até o mais baixo; edifiquem a mansão de Cristo, desmantelem a de Satanás; apascentem as ovelhas, desbaratem os lobos; ensinem e exortem os dóceis; acusem, increpem, submetam os revéis e os contumazes; liguem e desliguem; enfim, se de mister se faz, relampejem e despeçam raios; tudo, porém, na Palavra de Deus.” 1
    Nos anos que se seguiriam à publicação d’As Institutas, já entronizado como máximo líder religioso de Genebra, Calvino colocaria em prática, para o bem e para o mal, a sua concepção de poder 2.
    Teocracia sim, e com todas as letras
    Sob a liderança de Calvino, o ensino se torna obrigatório, cria-se a Academia (“universidade”, em 1559) e reorganiza-se o sistema jurídico, fazendo prevalecer o direito romano, em substituição ao direito baseado nos costumes. Crítico acerbo da autoridade monárquica, Calvino também estimulou a implantação do regime sinodal, mais próximo daquilo que hoje identificamos como um princípio democrático.
    Mas a herança deixada por Calvino não foi apenas de avanços nas áreas sociais e jurídicas. Na verdade, em nada a marca de Calvino se expressou de maneira tão contundente quanto na disciplina que impôs à cidade, configurando uma autêntica teocracia, sem que se cometa qualquer abuso no emprego do termo. O importantíssimo historiador Paul Johnson, autor ligeiramente mais confiável do que este, assim se refere ao calvinismo no seu clássico “A História do Cristianismo”: “Em meados do século XVI, portanto, havia três variedades de religião estatal no Ocidente: o catolicismo papal, estado Cristianismo (Luteranismo) e teocracia calvinista”.
    Os autos do Conselho, os escritos de Calvino e de seus colaboradores, os testemunhos de viajantes da época oferecem prolíficas evidências históricas da tirania que imperava na cidade. Os exemplos são legião: jogos, festividades populares, apresentações teatrais e a dança foram sumariamente proibidos, assim como o uso de joias e de luvas decorativas. Moças com menos de 15 anos não podiam usar vestidos de seda e, após essa idade, não podiam usar vestidos de veludo. Foi proibida a impressão de livros sem prévia autorização. Estabeleceu-se a vigilância estrita das artes em todas as suas modalidades. Nem a gastronomia fugiu ao ímpeto proibitivo, com uma série de vetos, como para as massas e os patês. Compreensivelmente, relatos de viajantes que passaram na cidade durante aqueles anos diziam que os habitantes pareciam enlutados. (3) O cerceamento a manifestações de júbilo irreverente e a noção de que a alegria e a beleza só existem em Deus passaram a integrar a mente calvinista: séculos mais tarde, por ocasião da construção do magnífico Rijksmuseum em Amsterdam, calvinistas protestaram contra uma arquitetura que seria demasiadamente ornamentada…
    Advertências, prisões, torturas, exílios forçados e execuções eram recursos comumente usados pelo Conselho para assegurar a obediência às leis religiosas. Os mais comezinhos aspectos das vidas das pessoas eram vigiados. Nos domingos de manhã, acólitos de Calvino batiam de porta em porta para se certificarem de que ninguém estaria dormindo enquanto Maître Calvin estivesse pregando, e o cidadão que não fosse visto no sermão dominical era convocado pelo Consistório. Inspeções nas residências das pessoas eram comuns, vistoriando-se com especial cuidado os livros das estantes, para verificar se não havia obras com o selo de censura do Consistório. E os exemplos registrados nos autos do Conselho se amontoam: a jovem, apanhada praticando patinação no gelo, que é convocada ao Conselho e punida com advertência e penitência; um homem que é preso por ter recusado a dar a seu filho o nome de Abraão; um outro foi visto cantando de maneira exuberante pelas ruas, sendo por isso expulso da cidade. As punições mais severas eram pelas críticas à doutrina ou ao regime de Calvino: um homem que atacou a teoria da Predestinação foi chicoteado por toda a cidade até ficar em carne viva e, a seguir, foi expulso; outro insultou Calvino e teve a língua perfurada com ferro quente e, depois, foi expulso; por ter insultado Calvino, o Libertino Jacques Gruet foi torturado e decapitado em 26 de Julho de 1547.
    Serveto não foi o único a ser queimado na Genebra de Calvino. A queima de bruxas era aprovada por Calvino, como o próprio escreveu: “O Senhor nos prova de uma maneira surpreendente. Acabamos de descobrir uma conspiração de homens e de mulheres que, durante três anos, se empenharam em propagar a peste por meio de sortilégios cuja natureza eu ignoro. Quinze mulheres já foram queimadas e os homens foram castigados de modo ainda mais rigoroso. Vinte e cinco desses criminosos ainda estão trancafiados nas prisões (…) Até aqui Deus tem preservado nossa casa.”
    Assim, e isso precisa ser enfatizado, o martírio de Serveto não foi a única barbaridade ocorrida na Genebra liderada por Calvino. Não se trata, em absoluto, de “uma mancha na história da distinta carreira de Calvino em Genebra”, como afirma o Rev. Augustus, como se fosse um ato isolado. E Jacques Gruet, também é só uma mancha “lavô-tá-novo”? E todos cujos nomes submergiram na história? A execução de Serveto foi apenas a mais emblemática e famosa de uma longa lista de atrocidades perpetradas pelo calvinismo.
    É, portanto, absolutamente improcedente a alegação do Rev. Augustus de que Genebra não era uma teocracia sob a liderança de Calvino (“É de admirar que, apesar dos testemunhos em contrário, prevaleceu na opinião pública a idéia de que Genebra era uma teocracia e Calvino era seu papa!”). Ocorre justamente o contrário: há caudalosas evidências históricas do caráter teocrático do regime implantado por Calvino em Genebra.
    Refúgio sim, mas para quem?
    Liderada por Calvino, caudatária da fama de uma cidade de exemplar piedade reformada, Genebra se tornou um pólo maiúsculo da Reforma na Europa, atraindo refugiados de todo o continente. Na década de 1550, a população passa de 13000 a mais de 21000 habitantes. Assim, procede a informação do texto do Rev. Augustus, de que Genebra era “o espelho e modelo de verdadeira devoção, um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé”.
    Contudo, isso não pode, de modo algum, ser tomado como evidência de tolerância religiosa da cidade, como sustenta o Rev. Augustus. A tolerância da Genebra de Calvino poderia ser afirmada se os refugiados que ali adentraram tivessem sido católicos em sua esmagadora maioria, e não protestantes. E não foi este, absolutamente, o caso: desde 1535 (antes da chegada de Calvino, diga-se em seu favor), as missas foram proibidas. Sob ordem direta de Calvino, houve um recrudescimento na destruição de imagens e esculturas de santos. Qualquer apoio declarado à autoridade papal era severamente punido. A intolerância de Calvino contra católicos é patente também na sua teologia, como quando se refere à missa n’As Institutas, no seu característico estilo:
    “(…) para que todos compreendam que a missa, [mesmo] tomada em sua pureza mais refinada, e com que se pode maximamente apregoar, sem seus apêndices, desde a raiz até o ápice borbulha de todo gênero de impiedade, de blasfêmia, de idolatria, de sacrilégio.” 4
    Eis o próprio Calvino demonstrando sua intransigência insolente contra um dos principais ritos do catolicismo, a missa – onde estão o respeito e a tolerância religiosa do teólogo Calvino?
    Acerca dos judeus, Calvino também se refere de maneira desrespeitosa, também n’As Institutas (grifo meu):
    “E através de quem Deus nos preservou a doutrina da salvação compreendida na lei e nos profetas, para que, a seu tempo, Cristo se houvesse de manifestar? Através dos mais infensos inimigos do próprio Cristo, os judeus, a quem, por isso, Agostinho merecidamente chama de os bibliotecários da Igreja Cristã, pois que nos subministraram leitura de que ‘eles’ próprios se não servem.” 5
    Eis Calvino reproduzindo e perpetuando uma das mais boçais injúrias anti-semitas propagadas pela Cristandade. O anti-semitismo cristão, nutrido ao longo da história por líderes como Lutero (um anti-semita virulento) arraigou-se profundamente na mentalidade europeia, eclodindo séculos mais tarde no ódio genocida.
    Os judeus foram expulsos de Genebra em 28 de dezembro de 1490 (antes de Calvino, sublinhe-se) e a presença judaica foi ali proibida durante séculos: apenas em 1852 os judeus passaram a ser oficialmente aceitos na cidade. Calvino, portanto, não abriu a cidade a refugiados judeus.
    Por isso tudo, que fique claríssimo: Genebra foi um mesmo “um abrigo para os refugiados perseguidos por sua fé” – mas só era segura para reformados dispostos a seguir a lei calvinista; para todos os outros, por aplicação espartana dos princípios de Calvino, Genebra foi o covil da mais fanática intolerância religiosa.
    Qual o mérito dos protestantes de Genebra em ser socorro para dissidentes protestantes, mas não para perseguidos católicos?
    De certa forma, não era contra esse tipo de favoritismo sectário a que Jesus se referia quando disse “Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mateus 5:.46-47).
    Além de Genebra: sobre a intolerância religiosa de Calvinistas & Puritanos
    Um dos pontos mais vulneráveis do texto do Rev. Augustus é a sua reivindicação em favor da tolerância religiosa não apenas de Genebra, mas também de outras cidades e países de forte presença protestante:
    “Até mesmo os judeus foram convidados pelas cidades-estados reformadas para se abrigarem nelas, fugindo da Inquisição. O puritano Oliver Cromwell, líder do Parlamento inglês por um período, mais tarde tornou a Inglaterra um abrigo seguro para os dissidentes religiosos, e especialmente para os judeus. O mesmo ocorreu nos Países Baixos (atual Holanda).”

    Os exemplos citados pelo Rev. Augustus estão longe de serem exemplos de tolerância religiosa. Se é fato que o líder puritano Oliver Cromwell reintegrou judeus na Inglaterra (mais por razões comerciais do que humanísticas), Cromwell também liderou o New Model Army, que deixou um rastro indelével de destruição na história britânica, com seus soldados fanatizados que entoavam salmos antes das batalhas. Os ataques de Cromwell às cidades de Drogheda e de Wexford figuram entre os pontos mais dramáticos da história da Irlanda, sendo tristemente lembrados pelo assassínio de populações civis, pela tortura e morte de padres e pelo incêndio de igrejas católicas com fiéis no interior. As relações entre ingleses e irlandeses são até hoje contaminadas pela memória de Cromwell e de seu hidrofóbico anti-catolicismo. Cromwell está para a tolerância religiosa como Stálin para a liberdade política.
    A hoje liberalíssima Holanda também carrega na sua história a marca da intransigência calvinista. Na Alteração de 1578, protestantes calvinistas assumem o poder e passam a controlar o país. Templos católicos foram inapelavelmente convertidos em protestantes – foi o caso, por exemplo, da Nieuwe Kerk e da Oude Kerk, duas das mais belas igrejas de Amsterdam. Os cultos católicos foram cerceados, levando fiéis a se reunirem nas hidden churches. Uma delas, magnífica, pode ser visitada em Amsterdam: Ons’ Lieve Heer op Solder (Our Lord in the Attics).
    Anos antes de assumirem o poder político, calvinistas holandeses já manifestavam seu ódio anti-católico. No episódio que passou à história como a “Fúria Iconoclasta” de 1566, igrejas católicas foram tomadas e suas esculturas e pinturas destruídas. O pintor Dirk van Delen retratou o episódio em um quadro hoje exposto no Rijksmuseum, o mais importante museu holandês:
    A intolerância calvinista não se limitou apenas à Holanda ou à Inglaterra de Cromwell, nem se dirigiu apenas contra católicos, mas até mesmo contra outros protestantes: ao viajar pelo sul da Alemanha em 1580, Montaigne descreveu como calvinistas devastaram templos luteranos. Além de católicos e luteranos, o ódio calvinista também se abateria sobre os anabatistas, talvez o grupo religioso mais perseguido daquele século (tiveram a infelicidade de serem caçados tanto por protestantes quanto por católicos). A modalidade preferida para executar anabatistas era o afogamento, já que eram defensores do batismo por imersão, ao contrário de calvinistas, católicos e luteranos, que batizam por aspersão.
    Assim, evocar calvinistas e puritanos como ínclitos exemplos de tolerância religiosa é atropelar desavergonhadamente a constatação histórica de que, quando detiveram o poder político, calvinistas e puritanos emularam os católicos, perpetrando, eles também, intolerância religiosa, especialmente contra católicos e anabatistas.
    Serveto: julgamento e morte
    Foi na Genebra implacável com opositores do calvinismo que foi parar Miguel Serveto, médico espanhol que negava o dogma da Trindade. Após ter fugido da Inquisição Católica Francesa (sua efígie havia sido queimada em Vienne, na França) e de ter mantido uma relação epistolar com Calvino, Serveto vai a Genebra em 1543. Permanecem obscuros e alvo de especulação os motivos pelos quais Serveto decidiu ir a Genebra, mesmo sabendo do perigo de morte que corria por ir à cidade de Calvino, com quem suas ideias se chocavam frontalmente. Já o desfecho da história é bem conhecido: sob instigação direta de Calvino, Serveto é queimado vivo em 27 de outubro de 1543, por heresia contra a Trindade.
    Embora deixe bem claro que não justifica a ação de Calvino (“Preciso dizer desde o início que minha intenção não é justificar a participação de Calvino no incidente. Não posso concordar com a pena de morte como castigo para a heresia, muito menos se o método de execução é queimar vivo o faltoso.”), o texto do Rev. Augustus tenta, de diversas formas, minimizar a implicação de Calvino na morte de Serveto (“Não podemos justificar Calvino por pedir a pena de morte para Serveto, mas podemos entender os motivos que o levaram a isto”), elencando uma série de argumentos. [Impossível não observar que o Rev. Augustus se refere ao martírio de Serveto como “incidente”. Isso mesmo: “incidente”. Um homem é queimado vivo por heresia e isso é referido como um “incidente”. A semântica também é uma trincheira.]
    Segue abaixo uma réplica individualizada aos principais argumentos do Rev. Augustus, deixando de lado o primeiro deles (“A pena de morte por heresia era prática geral da Idade Média”), por ululante que o lamentável martírio não ocorreu na Idade Média, mas em 1553, já no século XVI.
    “(Calvino) não foi o promotor do processo eclesiástico contra Serveto”.
    Calvino era o líder religioso da cidade e detinha enorme influência político-administrativa. Tanto que, tão logo viu Serveto, recém-chegado à cidade e assentado como ouvinte do seu sermão dominical na Catedral, Calvino imediatamente ordenou a prisão de Serveto, que foi preso logo após o serviço religioso. Foi Calvino quem ordenou a prisão de Serveto (“me auctore”, no excelente latim do reformador). Quanto ao processo em si, o Rev. Augustus está certo: Calvino não foi o seu promotor, mas por razões bem diferentes daquelas por ele evocadas.
    A lei de Genebra estabelecia que o acusador deveria permanecer na prisão junto com o acusado até que a culpa dele fosse realmente provada. Calvino, é claro, não iria passar uma temporada na prisão, né? Então, ele determinou que seu secretário, Nicolas de La Fontaine, fosse o acusador, portando as 38 acusações do processo, redigidas por Calvino, de seu próprio punho.
    E assim começou o processo, sem Calvino. Sem a presença física do líder, Serveto rebateu ponto por ponto as acusações que lhe haviam sido feitas. O Conselho caminhava para uma pena que não a capital (provavelmente o banimento). Diante de uma pena que não era a que desejava, Calvino irrompe no Conselho no dia 17 de agosto de 1543 e solicita ao tribunal a autorização para participar no interrogatório, afim de “melhor demonstrar ao réu os seus erros”. O pedido de Calvino foi evidentemente aceito, sendo La Fontaine imediatamente solto, mas não Serveto. Calvino conseguiu o que queria: participar no processo como interrogador, intimidar os juízes e impedir que Serveto saísse com vida de Genebra. No momento em que Calvino se imiscui abertamente no processo, a causa pela vida de Serveto é inapelavelmente perdida.

    Assim, Rev. Augustus, estamos de acordo: não foi Calvino quem abriu o processo contra Serveto – mas não o foi por covardia e vileza; a partir de sua entrada de Calvino no Conselho em 17 de agosto de 1543, Calvino passou a ser, na prática, o promotor do processo que redundaria na morte do espanhol.
    “A execução de Serveto foi aprovada por todas as demais cidades-estados reformadas e por todos os reformadores. Lutero e Zwinglio já haviam morrido, mas certamente haveriam concordado. O próprio Lutero havia consentido na execução de camponeses revoltosos. 6 Os demais, Bullinger, Beza, Bucer, etc., todos deram apoio irrestrito a Calvino.”
    Os opositores de Calvino conseguiram que, antes da condenação final de Serveto, os outros Sínodos reformados da Suíça se pronunciassem acerca do caso, dando uma última esperança para que Serveto fosse salvo (como havia ocorrido, a contragosto de Calvino, no caso de Bolsec). Ardiloso, Calvino escreve aos sínodos de Zurich, Bâle, Berna e Schaffhouse, a fim de influenciar o julgamento. Nenhum dos sínodos deixou de reconhecer a gravidade da heresia doutrinária de Serveto. Embora todos entendessem que Serveto deveria ser punido com severidade, nenhum requis a pena de morte. Zurich escreveu: “No que concerne o castigo a infligir a este homem, nós nos remetemos à Sua Sabedoria”. A resposta de Berna foi ainda mais enfática, ao rogarem a Deus que desse aos habitantes de Genebra “o espírito de força e da sabedoria, afim de que sirvam à Igreja e ao próximo, de modo a se livrarem dessa peste [a heresia] ; contudo, sem que façais [dirige-se a Calvino] nada que possa parecer inconveniente a um magistrado cristão”.
    Onde está o pedido para que se queimasse Serveto?
    Além da pena capital não ter sido recomendada por nenhum dos outros sínodos suíços, ela não foi, de maneira alguma, aprovada de maneira unânime por líderes protestantes. Melanchthon, é verdade, escreveu a Calvino, após o extermínio: “O Estado te agradece e agradecer-te-á ainda mais no futuro. Agistes bem ao condenar à morte este blasfemador”. De Bèze (“Beza”, no texto do Rev. Augustus), também deu apoio irrestrito à condenação. Dotado de uma palavra tão virulenta quanto a de Calvino, De Bèze proclama “Libertas conscientiæ diabolicum dogma” (a liberdade de consciência é uma doutrina diabólica) e escreve: “Melhor um tirano, até bem cruel, do que cada um tenha licença para fazer sua fantasia… Imaginar que não se deva punir os heréticos é como se disséssemos que não devemos punir os assassinos de pai e mãe, visto que os heréticos são infinitamente piores”. Da pesada essa tchurminha do Calvino, né?7
    Fora, porém, do círculo genevois, não houve aprovação entusiasmada ao martírio de Serveto. Baudouin (1520-1573), importante jurista da época, reprovou Calvino: “Eu estimo que Calvino não tinha o direito de introduzir um processo criminal por uma questão de religião”. O chanceler da cidade de Berna, Zurkinden (1506-1588), escreveu a Calvino: “Eu lhe confesso livremente que eu também estou entre os que gostariam de restringir o máximo possível o uso do gládio na repressão aos adversários da fé, mesmo daqueles cujo erro é voluntário. (…) eu preferiria que as autoridades fossem culpadas por um excesso de doçura e indulgência do que por usar o gládio… Eu preferiria verter o meu sangue a ser molhado pelo sangue de um homem que, absolutamente, não tenha merecido o suplício.”
    E, sobretudo, como mostra de maneira sublime o livro de Sweig, o martírio de Serveto desencadeou a reação de Sébastien de Castellion, francês que desafiou o juízo calvinista, ao escrever o Tratado dos heréticos e Contra libellum Calvini, textos que apontam a hediondez que foi o julgamento e a condenação de Serveto.
    “Calvino suplicou ao Conselho que executasse Serveto de uma maneira mais humanitária do que o ritual tradicional de queima de hereges. Mas, claro, o Conselho municipal recusou o argumento de Calvino.”
    Definitivamente, a defesa do calvinismo já teve dias melhores… Onde é que vamos parar se, para sustentar uma suposta consciência humanitária de Calvino se diz que ele se esforçou para mudar o modo de execução? Se esta é a defesa que resta a ser feita, já que é historicamente inegável que Calvino tenha requerido (“me auctore”) nada menos que a pena capital para Serveto, é mister dizer que não há qualquer registro nos processos verbais do Conselho de uma tentativa por parte de Calvino de comutar a pena da fogueira por outra menos horrível.
    Ao contrário, foi apenas no hediondo caminho até onde seria queimado que foi proposta a Serveto a comutação da pena por uma decapitação (nada como o beneplácito do bálsamo calvinista a lhe cortar o pescoço, né?) – mas se, e somente se, Serveto negasse sua doutrina (coisa que Serveto se recusou a fazer). Coube a Farel o execrável papel de açular Serveto no trajeto até o local do martírio, perguntando em alta voz se ele estava pronto a abjurar sua doutrina que negava a existência da Trindade, para, assim, receber a clemência de uma morte menos bárbara. Serveto não cede e Farel grita à multidão: “Vede a força que Satanás tem quando se apodera de alguém! Este homem é muito sábio e acreditava estar certo. Mas agora ele está sob o poder do diabo e isto pode acontecer a qualquer um de vós!” Eis a misericórdia calvinista para com um cristão que morreu clamando “Oh Deus, guarde a minha alma, oh Jesus, filho do Deus Eterno, tenha piedade de mim”.
    “Farel visitou Calvino durante a execução. Calvino estava tão transtornado, como foi mais tarde comunicado, que Farel partiu sem mesmo dizer adeus.”
    Ao contrário dessa assertiva que tenta revelar um Calvino comovido e sensível, a ausência de Calvino – ele ficou em seu gabinete de trabalho naquela manhã de 27 de outubro de 1553 – no momento do martírio de Serveto ressalta ainda mais seu caráter covarde: instigador e participativo durante o processo, Calvino não assiste ao tormento de Serveto, resultado direto de sua instigação furibunda. Como escreve Zweig: “Foi apenas no domingo seguinte que ele [Calvino] sobe ao púlpito para celebrar, diante da comunidade silenciosa, a necessidade, a equidade e a grandeza de um ato que ele não teve coragem de olhar face a face.”
    A tese de um Calvino “comovido” pela execução de Serveto é também inapelavelmente negada pelo o que o próprio Calvino viria a escrever posteriormente. Após o sacrifício de Serveto, Calvino escreve uma apologia intitulada “Déclaration pour maintenir la vraie foi que tiennent tous les chrétiens de la Trinité des personnes en un seul Dieu. Contre les erreurs détestables de l’Espagnol Michel Servet”. Nela, Calvino assume sua decisão de condenar Serveto, afirmando que não é possível dar “a cada um a liberdade para dizer o que pensa”. Ou: “Assim como um homem comum seria culpado se ele não tomasse o gládio quando sua casa é tomada pelo culto aos ídolos, ou quando um dos seus se indispõe contra Deus, ainda mais um príncipe se ele fechasse os olhos diante das violações da religião.” E mais: “Não rendemos a Deus a honra que Lhe devemos se não preferirmos Seu serviço a todo olhar humano, se não poupamos nem parentesco, nem sangue, nem a vida que seja, se não deixamos de lado toda a humanidade quando é questão de combater pela Sua Glória”. A lei e a prática da doutrina colocadas acima do humano – todas as tiranias assassinas remontam a isso.
    E, para não entrar em contradição consigo mesmo, Calvino recorre a um ardil que mostra o quão desonestamente ele poderia agir. É Castellion quem aponta, em seu “Contra libellum Calvini”, que Calvino retirou da segunda edição das suas Institutas a seguinte profissão de fé, que figura na primeira edição: “é criminoso matar os hereges; fazê-los perecer pelo ferro e pelo fogo é renegar todo princípio de humanidade”; “perseguir pelo ferro e pelo fogo os rejeitados pela Igreja e lhes negar os direitos de humanidade não é agir de maneira cristã”.
    Se, por um lado, Calvino tratou de justificar o abominável ato, mantendo a posição de que hereges merecem a morte, por outro, ele tratou de silenciar as vozes que se dispuseram a criticar a execução. Uma mulher declarou que Serveto foi um “mártir de Jesus”, um homem declarou que “Serveto era um homem de bem e os magistrados que o determinaram sua morte o fizeram para saciar o apetite de um homem”: ambos foram lançados à prisão. Notáveis sábios estrangeiros que moravam em Genebra decidiram deixar a cidade, por medo da repressão.
    E, como a história a seguir o demonstrou, o afã persecutório de Calvino não se encerrou no caso de Serveto. Após Castellion ter levantado sua voz contra a intolerância religiosa, acusando Calvino da morte de Serveto, o líder reformado novamente coloca seu aparato político-religioso para silenciar uma voz dissonante. Não fosse o fato de estar refugiado em Bâle e a morte prematura por causas naturais, Castellion poderia ter sido igualmente morto pelo fanatismo calvinista.
    Enfim: o coração de Calvino manteve-se duro e, nos anos seguintes, ele só fez demonstrar que achou legítima a condenação de Serveto e de todos os que contradissessem sua doutrina e sua autoridade.
    “Porém, o Conselho municipal da cidade, conduzido pela facção dos Libertinos, totalmente contrários a Calvino, estava determinado a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos.”
    Aqui o malabarismo histórico atinge seu paroxismo. O revisionismo que tenta minimizar o papel de Calvino e inculpar os Libertinos pela execução de Serveto parte da negação da própria essência do que foram os Libertinos. Os Libertinos eram um grupo que tinham uma percepção pra lá de libertina (!!!) do que seria a “comunhão dos santos”. Para eles, a “comunhão dos santos” abrangia relações sexuais livres, que, segundo eles, poderiam acontecer fora dos laços matrimoniais: enfim, defendiam o adultério em todas as suas formas, a fornicação, as orgias, a suruba, o troca-troca, as… (melhor parar por aqui). É claro, isso se chocava frontalmente com os ensinos de Calvino e do próprio cristianismo (na medida em que pregavam que adultério não é pecado). Por isso, com todo o respeito, é hilário o argumento de que a facção dos Libertinos estava determinada “a mostrar que Genebra era uma cidade reformada e comprometida com os credos”. É como defender que o partido republicano de Nixon estava profundamente engajado com a implantação do comunismo.
    Além do mais, a única real oposição enfrentada por Calvino foi no primeiro período em que esteve na cidade (1536-1538), quando, juntamente com Farel, foi expulso da cidade na primeira tentativa de impor seu rígido código moral. No segundo período em que esteve na cidade (de 1541 até sua morte, em 1564), Calvino foi um líder soberano. Como assinala Paul Johnson em A História do Cristianismo, Calvino anulou a facção dos Libertinos, recorrendo, inclusive, à pena capital, como no caso do Libertino Jacques Gruet. Os Libertinos não tiveram a mais ínfima participação no julgamento e na condenação de Serveto (nem mesmo para tentar livrá-lo, diga-se).
    A liderança de Calvino era tão soberana que ele não teve dificuldade alguma em fazer seu sucessor. Foi De Bèze, um mais destacados seguidores de Calvino, quem o sucedeu – se os Libertinos fossem assim tão fortes como supõe o texto do Rev. Augustus, De Bèze seria provavelmente a última pessoa a liderar a Genebra pós-Calvino.
    Genebra teria que esperar muito para ver um “Libertino” ter ali alguma influência: mais precisamente, teria que esperar por Jean-Jacques Rousseau, cerca de 200 anos depois da morte de Calvino.
    “Penning escreve que, no fim da vida de Calvino, ao ser visto nas ruas da cidade, os moradores diziam: “Lá vai o nosso mestre Calvino”.
    Ora, não sejamos modestos no panegírico encomiástico a Calvino… Não foi apenas no final da vida que Calvino era chamado de Mestre por onde passava, mas durante todo o tempo em que esteve em Genebra. Que satisfação no coração deveria ter Calvino ao receber tão espontânea demonstração de afeto dos habitantes de Genebra!… Especialmente quando se lê nos registros do Conselho que ao menos um cidadão foi condenado à prisão por chamar Calvino de “Monsieur”, e não “Maître”… Por isso, vale a máxima: em uma sociedade em que a crítica é censurada e punida, deve-se sempre desconfiar dos elogios. Se não houvesse paredón, poderíamos levar a sério os elogios que Castro ouve em Cuba…
    Afinal, um dos ensinamentos universais acerca das relações entre ditadores e a sociedade é que, qualquer que tenha sido o tempo e o lugar em que tenha imperado o regime de exceção, sempre há parcelas da sociedade dispostas a defender e a justificar o tirano diante de toda e qualquer acusação, evocando realizações positivas em áreas sociais como réplica aos crimes da ditadura. Como se o avanço social fosse uma autorização moral para se caçar dissidentes… Assim como hoje assistimos a empedernidos castristas ágeis em rebaterem acusações de execuções de dissidentes com argumentos da eficiência dos sistemas de saúde e de educação cubanos, o texto do Rev. Augustus escorrega nessa lúgubre evocação das benfeitorias de Calvino.
    “O que muitos ignoram é que Calvino era um pastor atencioso, que visitava pacientes terminais de doenças contagiosas no hospital que ele mesmo havia estabelecido, embora fosse advertido dos perigos de contágio.”
    Entre 1542 e 1545, Genebra foi assolada por uma terrível epidemia de peste. Liderados por Calvino, os pastores da cidade tiveram um comportamento nada menos que covarde e desumano, abandonando os doentes à própria sorte logo após as primeiras vítimas terem sucumbido – não despiciendo notar que tal atitude chocava-se frontalmente com a própria prescrição do Consistório, que determinava que todo doente clamasse por um pastor no máximo três dias após ter adoecido. Diante do clamor popular, o Conselho de Genebra suplica ao Consistório que ao menos um pastor fosse designado para confortar as vítimas da epidemia. O único que se dispõe a fazê-lo é Castellion, então diretor do Colégio. Contudo, por não ser pastor, a missão não pode lhe ser confiada. A dureza de Calvino ainda se mostraria no lamentável episódio narrado por Sweig: “Melhor ainda, em 05 de janeiro de 1543, Genebra assiste perplexa a essa cena surpreendente: todos os pastores da cidade, capitaneados por Calvino, comparecem à assembleia do Conselho para confessarem publicamente que nenhum deles tem “perseverança” para ir ao hospital dos pestilentos, ainda que eles saibam que seria seu dever servir a Deus e à sua santa Igreja, tanto nos bons quanto nos maus dias.”
    A peste revelaria ainda mais o quão obtuso era o caráter de Calvino. Em um subterfúgio para tentar acalmar a população em um dos momentos mais agudos da epidemia, o Conselho da cidade captura uns miseráveis e, sob as mais atrozes torturas, os faz confessarem que eram eles os responsáveis por terem trazido a peste à cidade: eles teriam contaminado os batentes das portas das casas com um unguento feito com o excremento do diabo. Os infelizes foram executados. Calvino, longe de refutar tal procedimento e de rechaçar o obscurantismo supersticioso, o subscreve: do púlpito diz que os “semeadores da peste” tiveram o tratamento merecido.
    O episódio de 1543 mostra que Calvino podia até ser um pastor atencioso, mas desde que as vítimas não fossem pestilentas…
    Os nomes cujas memórias merecem ser honradas
    Em seu arrazoado, o Rev. Augustus afirma mui corretamente que “episódios do passado devem ser entendidos à luz dos conceitos e valores da época em que ocorreram.” Ele está certo. Não podemos reprovar Pedro Álvares Cabral por não ter criado a FUNAI ao chegar ao Brasil. Não podemos recriminar Cabral por não ter tido “consciência ecológica” e por ter dado início à devastação da Mata Atlântica – mas dizer que ele tenha sido um líder ecologista é incorrer na mentira. A concepção tirânica do poder político de Calvino era similar à de outros líderes da época – isso deve ser considerado no nosso julgamento, mas é mentiroso dizer que Calvino tenha sido um exemplar líder humanista, respeitoso das liberdades individuais e da tolerância religiosa.
    Calvino cometeu erros que certamente foram também cometidos por líderes não protestantes; tiranias religiosas não são, nem nunca foram, exclusividade calvinista. Contudo, observemos: o manto “era a noção prevalente na época” é um argumento que pode ser usado para absolver as práticas criminosas mais infames da história de humanidade.

    Na verdade, é porque existiram aqueles que, no seu próprio tempo, combateram os erros do seu século, é que estamos moralmente impedidos de sermos lenientes com tais crimes.
    Esta minha condenação a Calvino, fácil e óbvia, vinda do século XXI, nunca terá o impacto e a força moral daquela que veio do seu próprio tempo, vinda de homens como Castellion, Baudouin e Zurkinden. Nossas referências éticas não devem ser os homens e mulheres que incorreram nos mesmos erros do seu tempo, mas sim aqueles que, com coragem e extraordinária lucidez de consciência, desafiaram o status quo prevalente e os erros de sua própria geração, fazendo avançar o humanismo. Por isso, na França dos anos 1940, nossa referência não é Klaus Barbie, mas Jean Moulin, assim como honramos o nome do teólogo Dietrich Bonhoeffer e não do Pastor Ludwig Müller. E, na Europa do século XVI, nossa referência deve ser Castellion e não Calvino. A homens como Schindler, Moulin, Bonhoeffer e Castellion devemos honra – não a Calvino e congêneres.
    Assim, retomo as palavras que foram escritas contra Calvino em seu próprio século para replicar a afirmação (“Estes são alguns fatos que devemos lembrar antes de chamarmos Calvino de “assassino”) feita pelo Rev. Augustus após sua “contextualização” da participação de Calvino na execução de Serveto. Repercutindo a imortal acusação de Castellion a Calvino, “matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem”, e para sempre aturdido que alguém informado e em sã consciência se atribua o epíteto de “calvinista”, não tenho pudor algum em chamar Calvino daquilo que ele foi: um facínora despótico, um assassino travestido de teólogo.
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    Hoje é 27 de outubro de 2012: há exatos 459 anos, Servet era assassinado pela fúria de Calvino e seus asseclas.
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    Pode não parecer, mas este texto me consumiu um considerável tempo de leituras e de redação. Deu muito trabalho. Podem xingar o texto, contestá-lo, elogiá-lo, discuti-lo, discordar e tripudiar dele, mas, por favor, respeitem a autoria. Plágio é crime e, se você copiar este texto sem citar a autoria lelequiana, tio Calvino vai sair lá do inferno e puxará seu pé à noite.
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    Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume IV, Cap VIII, item 9, página 140.
    Essa concepção de poder ainda se faz presente nas diversas denominações evangélicas e protestantes de inspiração calvinista, como as explícitas tentativas de impor a toda a sociedade um código moral que diz respeito a apenas um grupo religioso – o texto do André Egg é importante nessa discussão.
    As estritas regras comportamentais (por exemplo, em relação à sexualidade) pregadas por denominações protestantes e evangélicas de inspiração calvinista estão profundamente ancoradas no puritanismo e nos estritos códigos morais e comportamentais de Calvino – uma experiência inesquecível para qualquer jovem que tenha sido educado e que tenha vivido sob tais códigos (convido à leitura de mais um texto do André).
    Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume IV, Cap XVIII, item 18, página 416.
    Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, 1989. São Paulo. Volume I, Cap VIII, item 10, página 104.
    O texto do Rev. Augustus não remete à distinção feita por Lutero entre hæreticis e seditiosis, entre os que manifestavam divergências de opinião com a Igreja Reformada e os sediciosos, que, além da ordem religiosa, desejavam também mudar a ordem social. Acerca dos primeiros, Lutero não recomendava a punição capital, como é claro na sua declaração: “Os hereges não podem ser reprimidos nem impedidos por nenhuma força exterior. Por causa disso, é necessário agir e combatê-los por outros meios que não o gládio: tem-se que proceder pela Palavra de Deus. A heresia é uma questão espiritual, que não pode ser extirpada por nenhum fogo, nem por nenhuma água da Terra”. Em relação aos sediciosos, Lutero era menos clemente, como ficou demonstrado nas revoltas camponesas alemãs, em que conclamou soldados para que reprimissem os revoltosos: “matem-nos como cães raivosos!”, a frase que entrou para a história e que desencadeou a morte de milhares de camponeses pobres.
    A propósito, ainda hoje vemos ferrenhas defesas da pena capital entre calvinistas (para um exemplo tupiniquim, eis um texto do Prof. Solano Portela).
    Referências bibliográficas (As citações extraídas das referências em inglês e em francês foram traduzidas por mim; peço desculpas de antemão por eventuais imprecisões nas traduções.)
    Barnavi, Elie & Rowley, Anthony. Tuez-les tous! : La guerre de religion à travers l’histoire VIIe-XXIe siècle. Éditions Perrin, Paris, 2006.
    Calvino, João. As Institutas ou Tratado da Religião Cristã. Casa Editora Presbiteriana, 1a edição, São Paulo, 1989.
    Christin, Olivier. L’Europe déchirée. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 54-57.
    Cornette, Joël. La greffe française. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 58-63
    Cottret, Bernard. Les secrets de Calvin. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 45-51.
    de Oliveira, André Tadeu. Nazismo e religião – entre a aliança e o conflito. Editora Reflexão, São Paulo, 2011.
    Engammare, Max. Genève, la cité des saints. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 52-53.
    Fath, Sébastien. Tout autour du monde. L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pags 64-67.
    Johnson, Paul. A History of Christianity. Atheneum Books, New York, 1979.

    Haught, James. Perseguições Religiosas – Uma História do Fanatismo e Dos Crimes Religiosos. Ediouro, Rio de Janeiro, 2003.
    Roegholt, Richter. A short history of Amsterdam. Bekking & Blitz Publishers b.v., Amersfoort, 2010.
    Slive, Seymour. Dutch Painting 1600-1800. Yale University Press Pelican History of Art, 1995.
    Sweig, Stefan. Conscience contre violence. Le Castor Astral, Paris, 2004.
    Theis, Laurent. Le mal-aimé. In: L’Histoire, numéro 340, mars 2009, pgs 42-44.
    Artigo extraído do site http://aterceiramargemdosena.opsblog.org/ em 14/12/2014

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  3. José Rubens Medeiros  dezembro 7, 2014

    Tentando ser objetivo: O que você diz ou ilustra a respeito do francês Calvino e do espanhol Serveto, tentando amenizar a participação de Calvino no inominável “assamento” vivo desse último amarrado a uma estaca, colide desastrosamente com o que o próprio gaulês tristemente escreve em sua tese doutrinária conhecida como “Institutas”, em cujas páginas se encontram xingamentos após xingamentos, ridículos xingamentos proferidos pelo citado autor (Jean Cauvin) contra Miguel Serveto, rotulando-o de “biltre”, “cão imundo”, “cão que ladra”, “monstro”, entre outros vocábulos de origem evidentemente não-espiritual.

    responder
    • Misael  dezembro 12, 2014

      Por favor, você pode mencionar os lugares exatos onde Calvino utiliza estas designações (e.g., Institutas, Livro …, Capítulo …, Parágrafo …)? Estou sem tempo para fazer a pesquisa diretamente e você me ajudaria muito.

      Ademais, o uso de tais títulos não é, como você diz, “não-espiritual”. Jesus usou as palavras “cães” e “porcos” (Pedro usou também a palavra “cão”) para referir-se aos que desvalorizam o evangelho (Mt 7.6; 2Pe 2.22). O termo “biltre” significa “homem vil” ou “infame” e, de fato, Servetus era “infame” (uma pessoa de má fama; basta ler a História Eclesiástica). Ao dizer que ele é “cão que ladra”, Calvino refere-se à ferocidade de Servetus, um difamador de Cristo e dos servos de Cristo. Ao denominá-lo “monstro”, afirma-se o que ele de fato era; um difamador do Ser Divino, alguém que vilipendiava a Trindade. Não se trata de xingamentos ou linguagem “não-espiritual” e sim, de linguagem clara, evangélica, cristã, corajosa e que, infelizmente falta nos dias de hoje.

      responder
      • José Rubens Medeiros  dezembro 12, 2014

        Bem, eu não mencionei as páginas onde ocorrem essas lamentáveis extravasões de João Calvino por dois motivos: primeiro, porque são muito numerosos os impropérios e insultos que esse francês “dedica” não apenas ao cidadão Miguel Serveto, mas a quaisquer pessoas que se “atrevam”(sic) a manifestar uma qualquer discordância em relação às teses contidas no apanhado literário conhecido pretensiosamente como ‘Institutas’. O segundo motivo jaz em que eu, JUSTIFICADAMENTE, supus que você, como declarado partidário dos escritos de João Calvino e dedicado estudioso dos ensaios literários desse gaulês, já conhecesse fartamente o estilo calvinista de se exprimir por palavras e já houvesse se debruçado por pelo menos um par de vezes em TODAS AS PÁGINAS DO TEORIA LANÇADA NAS ‘INSTITUTAS’.
        A propósito, João Calvino, nesse citado livro, demonstra duas predileções: 1. Exaltar e exponenciar supostas qualidades espirituais de um padre conhecido como Agostinho, chamando-o incessantemente de “Santo”, “Santo Homem” etc., chegando ao impensável de mencionar o nome do romanista Agostinho mais de quatrocentas vezes. Enquanto que o honrado cidadão Miguel Serveto teve seu nome mencionado cerca de cinqüenta vezes por João Calvino, sempre de forma menoscabante, difamante, deselegante.
        Se me permite, entendo ser completamente despropositado e sem sentido o “paralelo”(sic) que você tenta fazer entre palavras ditas pelo Senhor Jesus e palavras ditas por um meríssimo homem como João Calvino, o que, obviamente, dispensa argumentações. Ademais, o contexto em que o Senhor Jesus eventualmente de modo similar se haja manifestado é MUITO, MAS MUITO, MAS MUITO, DIFERENTE DO “CONTEXTINHO” REPRESENTADO PELA FEITURA DE UM AMBICIOSO LIVRO. E se o Senhor Jesus eventualmente se referiu a alguém como “cão” ou “porco”, tenha a certeza de que tais palavras (quer representem enérgica reprimenda, quer carreguem o sentido literal) não podem ser objeto de “avaliação com ares de censura ou moderação” nem por mim, nem por você, nem por ninguém. E uma coisa é ABSOLUTAMENTE CERTA: Jesus jamais (JAMAIS!) chamaria qualquer pessoa de “panaca”, de “suíno”, de “abestalhado” ou outra qualquer expressão em si mesma de perceptível vileza. “Biltre” é sinônimo de “canalha”, “vil”, “infame” etc. “Infame” é sinônimo de “desprezível”, “baixo”, “sem honra” etc.
        Com relação a Miguel Serveto, penso que o perfil que dele você extraiu não corresponde à realidade. Trata-se de um homem estudioso, médico, teólogo, filósofo etc., COM O QUAL O JOÃO CALVINO TROCAVA FREQÜENTES CORRESPONDÊNCIAS e submetia seu projeto de livro (‘Institutas’) à relevante apreciação de Miguel Serveto. Por que, então, cargas-d’água, Miguel Serveto fora despojado de sua dignidade que até então era objeto de admiração por parte de Calvino? Apenas porque Miguel Serveto, com a liberdade de que todos nós somos dotados, exprimiu pensamento destoante no que diz respeito à doutrina da Trindade? Aliás, a doutrina da Trindade (entre numerosos outros enfoques bíblicos) é motivo de debate e controvérsia ATÉ OS DIAS DE HOJE, inclusive nos meios ditos evangélicos, entre as incontáveis (INCONTÁVEIS) bandeiras denominacionais! E nem por isso se ouvem trocas de xingamentos como “biltre”, “suínos”, “cães imundos” “monstros”. E nem por isso se ouve que alguém de uma denominação haja queimado vivo um “irmão” porque este discordara de seu ponto de vista doutrinário.
        A Estátua erguida na França em homenagem a Miguel Serveto, com inscrições denunciando a atrocidade homicida de João Calvino seria por você considerada uma mentira, uma farsa, uma “blasfêmia” ou uma difamação contra Calvino?
        Para deixar de ser “cão imundo”, “biltre”, “infame”, “suíno”, “monstro” bastaria que Miguel Serveto dissesse a Calvino que suas teorias doutrinárias eram todas “perfeitas”, exatamente como DE SI MESMO ASSEVERA TRISTEMENTE O FRANCÊS JOÃO CALVINO, como se pode ler no(s) prefácio(s) do manual chamado ‘Institutas’??!!

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        • José Rubens Medeiros  dezembro 12, 2014

          Eu solicitaria sua gentileza no sentido de deletar a primeira resposta (réplica desta), inserida em local indevido.
          Grato.

          responder
        • Misael  dezembro 12, 2014

          Prezado José Rúbens;

          Resumindo você posiciona-se ao lado dos que absolvem Servetus e condenam Calvino. Anotado. Fique na paz do Senhor. Desejo-lhe um feliz Natal.

          responder
          • José Rubens Medeiros  dezembro 12, 2014

            Caro Misael,
            Dois lembretes, se me permite: 1. Meu nome é José Rubens (em vez de José Roberto). 2. Eu não me posiciono ao lado de ninguém, nem dos que condenam, nem dos que absolvem, nem do lado de Serveto, nem do lado de Calvino. Eu (como incontáveis outras pessoas no planeta) tão-somente discordo de PLÚRIMAS variantes das teses escritas por João Calvino no por ele chamado manual ‘Institutas’, em virtude de nelas não detectar harmonia com a MISTERIOSA SIMPLICIDADE CONTIDA NA PALAVRA DE DEUS. O episódio da barbarização de Serveto nem consta nas ‘Institutas’, como você sabe. O fato de eu ter me referido a ele deveu-se a um trecho de seu texto, onde você, dentro de seu respeitável posicionamento, optou por não imputar a João Calvino nenhum tipo de deslize muito menos delito no que diz respeito a Miguel Serveto.
            Gostaria de ressalvar que respeito todo e qualquer ponto de vista (sem favor algum a ninguém), mas não me furto a externar o meu próprio. Espero que você não se ofenda e também nenhum de seus leitores que se declarem calvinistas, mas o “approach” de João Calvino no que concerne à Bíblia, como Palavra de Deus, Viva e Eficaz, Mais Penetrante do Que Espada Alguma de Dois Gumes, Que Penetra até a Divisão da Alma e do Espírito, é Apta para discernir os pensamentos etc., representa, em numerosos aspectos, clara e infeliz metáfrase. Fico com a mensagem real: “Porque Deus amou O MUNDO (NÃO, ALGUNS ELEITOS) de tal maneira que deu Seu filho unigênito para que TODO AQUELE (NÃO, UNS POUCOS PROJETADOS) que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. Fico com aquela passagem do evangelho: “Senhores, que é necessário para que eu me salve? Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa”. Fico com Davi, quando ele diz em determinado Salmo: “Senhor Deus, clamei a ti, e tu me curaste”. Prefiro não me reputar a mim mesmo como CAVALO que possa ser montado por Deus ou pelo diabo, nas lamentáveis palavras de João Calvino (que ele, sem nenhuma originalidade, copiou do padre Agostinho). Prefiro continuar pensando que a Bíblia se interpreta ou se discerne espiritualmente, por ser essencialmente espiritual, ao invés de um “discernimento” calvinista. Prefiro pensar com lucidez que as ‘Institutas” JAMAIS (jamais) substituiriam a leitura submissa da Palavra de Deus, conforme desditosamente apregoado pelo francês Calvino no prefácio.
            Obrigado pela interação.
            Feliz Natal.

          • Misael  dezembro 12, 2014

            Meu caro, nossa interação mostra-se contraproducente. Como eu disse antes, você assume sua posição e eu a minha. Você é não apenas arminiano, mas pró-Servetus e anticalvino (mesmo que não queira que se use estas designações; eu não tenho problema em admitir que sou contrário a Servetus, ainda que entenda que Calvino não agiu com perfeição). Pra vc a leitura simples da “mensagem real” é oposta à doutrina da predestinação e eleição. Pra mim ocorre o contrário. Simples assim. Pra vc Calvino define uma tese, pra mim, a sã doutrina. Ambos assumimos postulados diferentes. Encerramos por aqui. Fique na paz do Senhor.

  4. João  outubro 11, 2014

    Calvino e Servetus

    NOTA DO MODERADOR: [Solicitei ao autor deste comentário que ele o resumisse e enviasse o resumo até 24/10. Como ele não atendeu ao prazo e termos da solicitação, apaguei o comentário.]

    responder
    • Misael  outubro 20, 2014

      Prezado João;
      Você publicou um artigo inteiro em um espaço destinado a respostas rápidas. Peço-lhe a gentileza de postar este conteúdo em outro espaço. Daí responder ao meu post informando um link para o seu texto. Pode fazer isso até a próxima sexta-feira, dia 24/10? Muito grato.

      responder
  5. Ricardo Santana  setembro 27, 2014

    Misael,

    Parabéns pelo post.
    Muito bem colocado. Concordo contigo quando afirma que não somos Calvinolatras. De fato, cremos que ele foi um homem de Deus, mas não temos nenhuma pretensão de imputar-lhe perfeição.
    A vida e obras de Calvino muito tem contribuído à igreja de Cristo desde a sua publicação.

    No Redentor,

    Ricardo

    responder

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