O valor e os limites da ortodoxia

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O coordenador de um curso de Teologia solicitou aos professores que alterassem o modo como eles escreviam os programas de suas disciplinas. A partir daquele momento, ao listar referências bibliográficas, os professores deviam informar aos seus alunos quais livros ou fontes eram “ortodoxas”. Os livros ou fontes que não eram ortodoxas deviam ser listados sob o título Leituras Heterodoxas. Alguns professores protestaram contra a medida. Um deles afirmou que não há como estabelecer o que é “ortodoxo”. Disse ainda, que rotular uma obra ou referência como “heterodoxa” é contra o “livre pensamento” e a “troca criativa de ideias”, próprias das instituições de graduação e pós-graduação em Teologia.

Em pleno início de século 21, qual é o valor e os limites da ortodoxia? Esta questão é importante para aqueles que caminham com o Senhor observando o dito apostólico: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina. Continua nestes deveres; porque, fazendo assim, salvarás tanto a ti mesmo como aos teus ouvintes” (1Tm 4.16).[1]

1. O lugar da ortodoxia

O termo “ortodoxia” é estranho às Escrituras, só encontrado na literatura cristã a partir do segundo século.[2] Isso leva alguns a afirmar que o Cristianismo dos primórdios não considerava importante o alinhamento dos crentes a um padrão de doutrina. “O período em que a igreja mais cresceu”, dizem, “foi quando não haviam definições absolutas de correção doutrinária”. Destarte, o estabelecimento dos dogmas é interpretado como ato correlato à institucionalização da igreja e perda de espontaneidade da fé.[3] A ortodoxia é apenas o ponto de vista dos poderosos, a versão de doutrina defendida pelos que venceram as batalhas nos concílios, manipulando a política secular e eclesiástica.

A nova ortodoxia — o “evangelho” da diversidade — desafia abertamente a asserção de que Jesus e os cristãos primitivos ensinavam uma mensagem unificada que consideravam absolutamente verdadeira, bem como consideravam falsas quaisquer negações dessa mensagem. Assim, defensores da diversidade religiosa, como Walter Bauer e Bart Ehrman, argumentam não apenas que a diversidade contemporânea é boa e que o Cristianismo histórico é excessivamente estreito em sua visão, mas também que o próprio conceito de ortodoxia é uma invenção posterior, que não corresponde às convicções de Jesus nem dos primeiros cristãos.
Bauer, Ehrman e outros adeptos da doutrina da “diversidade” afirmam que não existia no primeiro século algo como “Cristianismo” (no singular), mas apenas cristianismos (no plural), ou seja, versões diversas de crença, todas reivindicando ser cristãs de forma igualmente legítima. A versão tradicional do Cristianismo que se tornou conhecida posteriormente como ortodoxia é somente a forma de Cristianismo adotada pela igreja em Roma, que emergiu como a vencedora eclesiástica da batalha pelo poder que se travou do segundo ao quarto século d.C.[4]

Outros não conseguem desvincular a ideia de ortodoxia de abusos da Inquisição (dos séculos 16 e 17) ou do fundamentalismo.[5] Para estes, ser ortodoxo equivale a ser bitolado e destituído de amor ao próximo. “O importante”, dizem, “é reproduzir o exemplo e o caminho de Jesus e isso não tem nada a ver com quaisquer padrões confessionais. A doutrina divide; o amor une”.[6]

Em 1Timóteo 4.16, Timóteo é exortado a ter cuidado com “o que ensina” (didaskalia). Tal conteúdo é fundamental para a salvação. Em um contexto mais amplo, trata-se das “sagradas letras” (2Tm 3.14-17), e, especificamente, do “evangelho” (Rm 1.16; 1Co 15.1-4 et seq.). Afastar-se de tais verdades equivale a colocar-se sob maldição (Gl 1.8-9). Esta orientação é uma ressonância da palavra de Cristo. Seus seguidores são santificados “na verdade” (Jo 17.17) e precisam estar alertas para não serem enganados por falsos mestres (Mt 24.24). A missão da igreja é ensinar (didaskō) aos discípulos aquilo que Jesus ensinou (Mt 28.20).

Quem leva isso ao ponto máximo é João, o apóstolo do “amor”. Aquele que “transgride o ensino de Cristo e não permanece nele não tem Deus. Quem permanece no ensino de Cristo tem tanto o Pai quanto o Filho. Se alguém vos procurar, mas não trouxer este ensino [didachē], não o recebais em casa nem o saudeis” (2Jo 9-10).[7]

Independentemente do modo como os termos “doutrina”, “ensino” e “verdade”, contidos nestas passagens, são interpretados, duas coisas podem ser ditas.

Primeira, é plausível afirmar que tanto Jesus quanto os apóstolos e crentes do primeiro século assumiam um conjunto de proposições extraídas da Palavra de Deus. No caso de Jesus, não apenas as palavras do AT, mas seus próprios ditos (cf. Jo 5.24; Hb 1.1-2). Quanto aos apóstolos, a autoridade de sua doutrina é sublinhada desde o Pentecostes (At 2.4; Ef 2.20). Paulo chega ao ponto de dizer que o critério para avaliação do trabalho daqueles que ensinam é a consistência com o “fundamento” lançado por ele (1Co 3.10-15). Ainda que ele esclareça que tal fundamento é Cristo (v. 11), a doutrina de Paulo explica e aplica os fatos sobre a pessoa e a obra de Jesus (Rm 2.16). Estas informações das Escrituras servem para aferir a veracidade de discursos e mestres.

Exatamente por isso, em segundo lugar, Timóteo deveria se alinhar a determinado padrão naquilo que ensinava.

Se isso é assim, a movimentação da igreja a partir do século 2 não foi de estabelecimento de um novo alicerce conceitual — uma ideologia que sustentasse determinadas políticas — e sim um esforço para se manter dentro da trilha demarcada por Cristo e pelos escritores do NT. O fato da igreja ter desenvolvido e utilizado uma nova terminologia não deslegitima sua iniciativa. “Ortodoxia” e “Trindade” são palavras cunhadas nos concílios eclesiásticos, mas a ênfase na correção doutrinária está contida tanto no AT quanto no NT.

2. O que é ortodoxia

De modo geral, ortodoxia é “o equivalente em português da palavra grega orthodoxia (de orthos ‘certo’, e doxa, ‘opinião’), o que significa crença correta”.[8] Uma definição mais detalhada é fornecida por McGrath:

Termo empregado com diversas acepções, dentre as quais as mais importantes são: (a) “doutrina correta”, em oposição a heresia; (b) forma de cristianismo dominante na Rússia e na Grécia; (c) corrente que surgiu no seio do protestantismo, sobretudo no final do século 16 e início do século 17, e que destacava a necessidade da definição doutrinária.[9]

A ortodoxia é responsiva, ou seja, desenvolveu-se como resposta a falsos ensinos, de modo que “é quase impossível apreciar o significado da ortodoxia sem entender as heresias que a forçaram a se definir. […] A fim de compreender corretamente o dogma ortodoxo da Trindade, é necessário entender os ensinos de Ário de Alexandria”.[10] O caráter reativo da ortodoxia explica sua terminologia. Os argumentos dos defensores da fé cristã contêm palavras que, ainda que estranhas ao NT, combinam com a cultura na qual estava inserido cada debate teológico.

Não há qualquer problema nessa faceta reativa da ortodoxia. Desarticulando as falas dos que afirmam que a igreja deve deixar de ser reativa, a Escritura refere-se a “armas de justiça, quer ofensivas, quer defensivas” (2Co 6.7). O trabalho da Teologia não é inútil. O esforço intelectual no gabinete de estudos é obra espiritual e tão necessária quanto as tarefas de visitação e discipulado pessoal. A apologética, que bebe das fontes da Teologia e da Filosofia, serve à pregação e evangelização. É legítima e necessária a reação cristã de defesa da fé e do ministério da igreja. Os pragmáticos que consideram a ortodoxia inútil contribuem para a superficialidade do evangelicalismo contemporâneo. Aqueles que afirmam que no céu não haverá Teologia desconsideram a própria essência da Teologia (conhecer a Deus) e da vida celestial, que será de eterno conhecimento de Deus. A diferença é que na vida glorificada não há doutrina falsa, uma vez que nos tornamos semelhantes a Cristo e conhecemos como também somos conhecidos (1Jo 3.1-2; 1Co 13.12).

3. O que é heresia

Grosso modo, heresia significa o oposto de ortodoxia,[11] ou seja, crença incorreta. O termo evoca as ideias de “erro”, “equívoco”, “falácia”, “falibilidade”, “errância”, “defectibilidade”, “imperfeição”, “inexatidão”, “construção errônea”, “conclusão manca” e exposição viciosa”.[12] A heresia é também chamada de heterodoxia.[13] Para Chesterton, heresia significa “estar errado” e ortodoxia quer dizer “estar certo”.[14] Demarest, nos ajuda a compreender o conceito de heresia no NT e nos primeiros anos do Cristianismo.

Heresia significa um desvio doutrinário, a partir de verdades fundamentais ensinadas pelas Escrituras e pela ortodoxia da igreja cristã, e a propagação ativa de tal desvio. A palavra grega de origem, hairesis, que aparece nove vezes no NT, tinha a acepção inicial de escola de pensamento, ou seita: Assim, a seita dos saduceus (At 5.17), dos fariseus (At 15.5; 26.5) e dos nazarenos, ou seja, dos cristãos (At 24.5; 28.22). Em Atos 24.14, Paulo cita propositalmente o fato de “o caminho” (hodos) ser então chamado de “seita” (hairesis), porque hairesis já tinha, nessa ocasião, uma conotação negativa.
Em sentido secundário, hairesis passou a ter o significado de cisma, ou de facção que se desenvolvia dentro da igreja devido a forte espírito partidário ou falta de amor (1Co 11.19; Gl 5.20). O uso que Paulo faz do adjetivo hairetikos (herético) em Tito 3.10 sugere que o herege é uma pessoa divisora ou facciosa. Reflexo desse significado, e que veio a predominar no uso cristão, é quanto à doutrina teológica falsa. Assim, 2Pedro 2.1 se refere às “heresias destruidoras” de falsos mestres que negavam a pessoa e obra de Cristo.
Escritos de muitos pais da igreja contêm advertências contra o ensino herético. Inácio (m. 98/117) compara a heresia à ação de drogas letais (Trall. 6.1-2) e a ataque de feras ou cachorros raivosos (Eph. 7.1). Irineu escreveu seu tratado Contra Heresias para refutar os vários erros gnósticos no mundo do século 2, instando os cristãos a evitarem toda doutrina herética, ateia e ímpia” (III, 6.4). Clemente de Alexandria insiste em que as heresias fluem de presunção, vaidade e manuseio deliberadamente errado das Escrituras (Strom. VII.15). Tertuliano alega que “os filósofos são os pais dos hereges” (Contra Hermógenes 8), e Cipriano acrescenta: “Satanás inventou heresias e cismas, com os quais arruinou a fé, para corromper a verdade e dividir a unidade (Unidade da Igreja 3).[15]

Sendo assim, o que é um herege? Na citação acima, lemos que “o uso que Paulo faz do adjetivo hairetikos (herético) em Tito 3.10 sugere que o herege é uma pessoa divisora ou facciosa”. O herege é não apenas aquele que abraça a propaga uma doutrina errada, mas especialmente, uma doutrina que a ortodoxia declara oficialmente como errada. Este, no entanto, é o entendimento de “heresia” e “herege” em um enquadramento meramente etimológico e teologicamente confessional e conservador. E este juízo, como veremos, não é isento de dificuldades, como espero poder demonstrar a seguir. Mesmo assim, a meu ver, é o melhor entendimento.

A coisa complicou porque, com o tempo, ser herege passou a significar “ser lúcido e corajoso”.[16] O “herege” passou a ser considerado um “livre pensador”.[17] Um dos resultados disso é a tentativa contemporânea de reabilitar Ário, Serveto e outras figuras, outrora identificadas como hereges, agora consideradas dignas de atenção e aplausos por sua coragem em enfrentar o status quo da ortodoxia opressora. Outro resultado é a relativização da ortodoxia — as doutrinas assumidas e defendidas como verdade incontestável e fundamental passaram a ser vistas apenas como o ponto de vista dos poderosos, como mencionei no início.

4. Herege é o outro e os círculos concêntricos da ortodoxia reformada

Como eu disse na seção anterior, o juízo conservador sobre ortodoxia e heresia não é isento de problemas. A Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) e a Igreja Católica Ortodoxa Grega (ICOG) acusaram-se mutuamente de heresia. Para a ICAR, mesmo depois do Concílio Vaticano 2, os hereges são os protestantes. Estes últimos afirmam que a ICAR é herética. E, dentre os grupos provenientes da Reforma do século 16, calvinistas consideram heréticos os arminianos, e vice-versa. Além disso, cristãos protestantes históricos e conservadores acusam de heresia os protestantes de teologia liberal, e consideram também, como hereges, tanto os grupos historicamente contestados, tais como as testemunhas de Jeová e os adventistas do sétimo dia, quanto algumas novas formulações teológicas e eclesiológicas, tais como o evangelicalismo pragmático, o teísmo aberto, algumas configurações de igrejas emergentes, as novas igrejas ditas “evangélicas” que abraçam o sincretismo, a teologia da prosperidade, a batalha espiritual e o movimento global de neoapostolado.

A definição fornecida por McGrath é útil no sentido de referir-se a diferentes acepções da ortodoxia. Colocando a questão de outra forma, é possível identificar três círculos de ortodoxia, o maior referindo-se à ortodoxia ampla, um segundo apontando para a ortodoxia evangélica[18] e um terceiro dizendo respeito à ortodoxia calvinista e reformada.

4.1. A ortodoxia ampla: A doutrina dos credos ecumênicos

Logo nos primeiros séculos da era cristã, a igreja precisou organizar as informações bíblicas sobre o ser de Deus. Isso deu origem às formalizações e documentação das doutrinas da Trindade e das naturezas humana e divina de Jesus Cristo. Surgiram os documentos oficiais referentes a estes assuntos, denominados símbolos ou credos ecumênicos. Eles são chamados assim porque foram produzidos em concílios que reuniram representantes de toda a igreja da época.

Círculos de ortodoxia

Eles também são chamados de dogmas, ou seja, crenças do coração do Cristianismo.[19] Nesse sentido, um dogma é diferente de uma doutrina denominacional ou de um ensino indiferente. Uma doutrina denominacional é abraçada pelos membros de um grupo cristão em particular e desconsiderados por outros.[20] O ensino indiferente pode ou não ser aceito sem prejuízo à fé cristã ampla.[21] O dogma, porém, é inegociável. Negá-lo significa declarar-se não cristão.

Tabela: As diferenças entre dogma, doutrina denominacional e ensino indiferente
Dogma Doutrina denominacional Ensino Indiferente ou Adiáfora
Uma crença fundamental do cristianismo. Os dogmas foram sistematizados até o século 5º e são aceitos por toda a cristandade. A negação de um dogma implica na negação do cristianismo. Uma crença fundamental de determinada denominação. As doutrinas definem a identidade denominacional e sua negação impede a filiação em um grupo específico de cristãos. Uma formulação, interpretação ou opinião teológica individual ou indiferente. Sua negação implica simplesmente em variedade de pontos de vista.

Os cristãos da ortodoxia ampla (o círculo azul da figura anterior) concordam com as afirmações destes símbolos ou credos — o Credo Apostólico, o Credo Niceno-Constantinopolitano e o Credo Atanasiano. Estes documentos sublinham as crenças fundamentais do Cristianismo e ajudam os crentes na interpretação de verdades bíblicas, possuindo uma autoridade “como a luz da lua comparada à do sol — glória refletida”.[22] Os credos são informação bíblica organizada.

Os símbolos ou credos ecumênicos estabelecem uma primeira demarcação pós-apostólica da ortodoxia. Como afirma Bowman Jr.:

Os credos foram formulados somente depois de certos falsários astutos terem introduzido modos novos de explicar os relacionamentos entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, modos estes que subvertiam a fé bíblica e que impediam as pessoas de realmente conhecerem a Deus. Para deixar claro exatamente como essas negações astutas da doutrina bíblica estavam erradas, era necessário que a igreja definisse de modo formal suas crenças nessas coisas.[23]

Trocando em miúdos, rejeitar os credos ou dogmas da igreja equivale a heresia. Como dissemos, para Chesterton, um escritor situado na esfera azul e mais ampla da ortodoxia, heresia significa simplesmente “estar errado” e ortodoxia quer dizer “estar certo”.[24]

No século 16, Miguel de Serveto rejeitou a ortodoxia ampla. Ele abandonou a teologia trinitária dos credos e disse que era necessária uma purificação de tais “corrupções”.[25] Serveto dizia que a doutrina da Trindade não era útil para o cumprimento da missão da igreja. Com a eliminação deste dogma ocorreria uma “restituição do Cristianismo primitivo, acelerando também a conversão […] de judeus e muçulmanos”.[26] Tanto a Igreja Católica quanto a Igreja Protestante condenaram Serveto como herege (na época, heresia era “crime” que resultava na pena capital), mas ainda assim, seu ensino e influência permanecem em grupos unitaristas.

A partir do século 17, movimentos dissidentes “rejeitaram a subscrição aos credos e confissões, como não escriturísticos”.[27] Os resultados desta atitude, especialmente a partir do século 19, podem ser conferidos, como segue:

Congregações presbiterianas inteiras na Inglaterra e na Irlanda, por sua vez, afastaram-se da ortodoxia de Westminster para um cristianismo menos dogmático e mais simplesmente bíblico. […] Isso abriu a porta para a entrada de novas ideias filosóficas, científicas e religiosas, com a autoridade da razão e da experiência recebendo valor cada vez maior.[28]

Isso favoreceu o unitarismo que, por sua vez, descambou em liberalismo teológico.[29] Mesmo hoje há quem afirme que os credos não dizem nada às necessidades reais da igreja. Um escritor popular declara que não temos nenhum compromisso com tais crenças.

Nosso compromisso não é com os conceitos usados na época dos concílios, mas com o que a Bíblia testemunha: O encontro com o próprio Deus. Não temos de crer na doutrina (nicena) da Trindade; antes, devemos empenhar tudo em encontrar integralmente o Deus que se nos revela de modo tríplice.[30]

Esse tipo de discurso pode parecer inclusive e espiritual, mas não serve ao cristianismo bíblico. Seremos nós orgulhosos ao ponto de desprezar a sabedoria teológica do passado que é fiel às Escrituras? Notemos que ao mencionar “o Deus que se nos revela de modo tríplice”, Schwarz retoma a heresia modalista. Deus revelando-se “de modo tríplice” não é, de fato, “o que a Bíblia testemunha”; Deus não é uma pessoa que se “revela de modo tríplice”, mas uma Trindade na unidade.[31] Sendo assim, deveríamos ser no mínimo precavidos com cristãos assumidamente evangélicos que desprezam os credos e pregam um tipo de retorno a uma doutrina mais “simples” e menos “teológica”.[32] Sempre que a doutrina sadia é minimizada, abrimos caminho para a heterodoxia.

4.1.1. O credo apostólico

O credo mais antigo que conhecemos é o Credo Apostólico:[33]

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso criador do céu e da terra.
Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao céu; está sentado à mão direita de Deus Pai Todo-poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo; na santa igreja universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.[34]

4.1.2. O credo niceno-constantinopolitano

Dúvidas e interpretações subsequentes exigiram novas formulações. Um concílio foi realizado em Niceia (325), encaminhando um novo credo. Alguns anos depois (381), a igreja reuniu-se novamente em Constantinopla, alinhavando detalhes das declarações de Niceia e afirmando o texto conhecido como Credo Niceno-Constantinopolitano:

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas. E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus: e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da virgem Maria, e se fez homem. Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai. E de novo há de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor, que dá a vida, e procede do Pai (e do Filho); e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos Profetas.
Creio na igreja, una, santa, católica e apostólica.
Professo um só batismo para remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir. Amém.[35]

Observe-se que este credo contém declarações esclarecedoras, não explicitadas no Credo Apostólico:

  • Jesus Cristo é o “Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos: Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. Isso foi incluído para combater as falsas afirmações: (1) que Jesus Cristo não é da mesma substância de Deus; (2) que ele é a mais alta criatura de Deus e, (3) que ele teve um início.
  • O Espírito Santo é “Senhor, que dá a vida, e procede do Pai (e do Filho); e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado: ele que falou pelos Profetas”. Isso foi incluído para combater a falsa afirmação de que o Espírito Santo não é Deus.
4.1.3. O credo atanasiano

Ainda que não contenha a expressão “eu creio”, o Credo Atanasiano estabelece um padrão bíblico de crença. Este credo é assim chamado em deferência a Atanásio, bispo de Alexandria (c. 296, † 2 de maio de 373), e refere-se a controvérsias relacionadas à “constituição da pessoa de Cristo”, surgidas depois da época de Atanásio.[36] Apesar da autoria incerta, o documento é uma das obras-primas da teologia dos primeiros séculos, e uma fiel expressão do ensino bíblico sobre a Trindade.

Quem quiser ser salvo, antes de tudo tem de defender a fé católica, a qual, a não ser que alguém preserve íntegra e inviolável, sem dúvida perecerá eternamente.
Mas esta é a fé católica, que adoramos a um só Deus em trindade, e trindade em unidade. Nem confundindo as pessoas nem dividindo a substância. Porque a pessoa do Pai é uma; a do Filho é outra; e a do Espírito Santo, outra. Mas a divindade do Pai e do Filho e do Espírito Santo é uma, igual em glória, igual em majestade.
Assim como é o Pai, assim é o Filho, e assim é o Espírito Santo. O Pai não é criado, o Filho não é criado e o Espírito Santo não é criado. O Pai é infinito, o Filho é infinito e o Espírito Santo é infinito. O Pai é eterno, o Filho é eterno, e o Espírito Santo é eterno. Não há três seres eternos, mas um só Ser eterno. E no entanto, não há três Seres não criado, nem três Seres infinitos, mas um só Ser não criado e infinito. Da mesma forma, o Pai é onipotente, o Filho é onipotente, e o Espírito Santo é onipotente. [Contudo, não há três Seres onipotentes, mas um só Ser onipotente.] Portanto, o Pai é Deus, o Filho é Deus, e o Espírito Santo é Deus. E no entanto, não há três Deuses, mas um só Deus. O Pai é Senhor, o Filho é Senhor, e o Espírito Santo é Senhor. Não obstante, não há três Senhores, mas um só Senhor. Porque, como somos impelidos pela verdade cristã a confessar cada pessoa de maneira distinta como Deus e Senhor, somos proibidos pela religião católica de dizer que há três Deuses, ou três Senhores.
O Pai não é feito por ninguém, nem criado, nem gerado. O Filho é somente do Pai, não foi feito nem criado, mas gerado. O Espírito Santo não é criado pelo Pai e pelo Filho, nem gerado, mas procedente. Por isso há um Pai, não três Pais; um Filho, não três Filhos; um Espírito Santo, não três Espíritos Santos. E nesta Trindade nada é anterior nem posterior; nada maior nem menor, mas todas as três pessoas são coeternas e coiguais a si próprias. De maneira que, em tudo, como já se disse anteriormente, deve-se adorar a unidade na trindade e a trindade na unidade. Todo aquele que quiser ser salvo, que assim pense acerca da Trindade.
Entretanto, é necessário para a salvação eterna crer também fielmente na humanidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta é, portanto, a fé verdadeira: crermos e confessarmos que nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, é Deus e Homem. É Deus da substância do Pai, gerado antes dos tempos, e Homem da substância de sua mãe, nascido no tempo; Deus perfeito e Homem perfeito, subsistindo em alma racional e carne humana.
Igual ao Pai segundo a divindade e menor do que o Pai segundo a sua humanidade. Ainda que é Deus e Homem, nem por isso são dois, mas um único Cristo. Um só, não pela transformação da divindade em humanidade, mas mediante a recepção da humanidade na divindade. É, de fato, um só, não pela fusão das duas substâncias, mas por unidade de pessoa. Pois, assim como corpo e alma racional constituem um único homem, Deus e homem é um único Cristo, o qual padeceu pela nossa salvação, desceu ao inferno, no terceiro dia ressuscitou dos mortos. Subiu ao céu, está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos. E quando vier, todos os homens hão de ressuscitar com os seus corpos e dar contas de seus próprios atos, e aqueles que fizeram o bem irão para a vida eterna, mas aqueles que fizeram o mal, para o fogo eterno.
Esta é a verdadeira fé cristã. Aquele que não crer com firmeza e fidelidade, não poderá ser salvo.[37]

Os credos não substituem nem se sobrepõem à Bíblia, mas são resumos úteis de sua interpretação correta. Independentemente de suas motivações e contextos históricos, eles descrevem adequadamente os ensinos bíblicos sobre o ser de Deus. A ortodoxia ampla abarca as afirmações destes credos, possibilitando delimitar uma “cristandade” a partir da concordância com tais documentos. Um autor cuja obra contrarie qualquer das afirmações dos símbolos ou credos ecumênicos é heterodoxo. Nesse sentido dizemos, e.g., que, quanto ao dogma da Trindade, a Igreja Católica Apostólica Romana é “ortodoxa”, ao passo que as Testemunhas de Jeová são heterodoxas ou heréticas.

4.2. A ortodoxia evangélica e reformada

Respondendo aos avanços do liberalismo teológico, no final do século 19 e início do século 20, algumas denominações evangélicas se uniram em torno de determinados fundamentos, declarando sua crença na doutrina de justificação pela graça mediante a fé, inspiração plenária[38] e suficiência[39] da Bíblia, nos milagres e em outros tópicos atacados pela crítica liberal.[40] Essa vertente conservadora e comprometida com o testemunho do evangelho a todas as ações manifestou significativa força de agregação no Congresso Sobre Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, em 1974. Quanto à Teologia, destacou-se por meio de eruditos do calibre de F. F. Bruce, John Stott, George Ladd e Michael Green.

Apesar do contingente de teólogos e denominações reformadas, essa ortodoxia abarca cristãos arminianos, que, além dos símbolos ou credos ecumênicos assumem os fundamentos evangélicos.[41] Nesse sentido dizemos, e.g., que, quanto ao dogma da justificação pela graça mediante a fé somente, uma igreja batista arminiana é “ortodoxa”, ao passo que a Igreja Católica Apostólica Romana é heterodoxa.

No terceiro círculo da ortodoxia — o círculo verde — temos a ortodoxia calvinista reformada. Para os que desejam uma exposição excelente sobre o que significa ser calvinista e o que é uma igreja reformada, recomendo a leitura do volume 1 da excelente Série Fé Reformada, publicada pela Cultura Cristã.[42] Os interessados em saber o que entendo por ortodoxia calvinista reformada, especialmente no âmbito da Igreja Presbiteriana do Brasil, podem conferir meu post Calvinistas Pontuais ou Consistentes.[43]

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Notas

[1] Grifo nosso. Para a heterodoxia esta passagem não é apostólica. Cf. VOLKMANN, Martin. Teologia Prática e o Ministério da Igreja. In: SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. (Org.). Teologia Prática no Contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal, 1998. Volkmann entende que as epístolas Pastorais (1Timóteo, 2Timóteo e Tito) não foram escritas por Paulo, mas surgiram no contexto de “solidificação” e “estruturação” da igreja, no final do primeiro século (op. cit., p. 85). Esse ponto de vista é compartilhado por outros autores (e.g., BRUNNER, Emil. O Equívoco Sobre a Igreja. São Paulo: Novo Século, 2000, p. 88; CHARPENTIER, Etienne. Para Ler o Novo Testamento. São Paulo: Loyola, 1992, p. 52; GABEL, John B.; WHEELER, Charles B. A Bíblia Como Literatura. São Paulo: Loyola, 1993, p. 191-192; HARRINGTON, Wilfrid J. Chave Para a Bíblia: A Revelação, a Promessa, a Realização. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 554, 556; KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1982, p. 319, 320, 321), cuja análise detalhada das ponderações foge ao escopo do presente texto.

Pode ser afirmado, porém, que há argumentação consistente e suficiente, por parte da erudição contemporânea, para a aceitação da autoria paulina das epístolas Pastorais (e.g., BLOMBERG, Craig L. A Credibilidade Histórica do Novo Testamento. In: CRAIG, William L. (Ed.). A Veracidade da Fé Cristã: Uma Apologética Contemporânea. São Paulo: Vida Nova, 2004, p. 191-235; CARSON, D. A.; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. 1. ed. Reimp. 2002. São Paulo: Vida Nova, 1997, p. 395-411; GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. 2. ed. Reimp. (2003). São Paulo: Vida Nova, 1998 p. 359-363; HALE, Broadus David. Introdução ao Novo Testamento. Ed. Rev. Ampliada. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 321-330; HENDRIKSEN, William. 1Timóteo, 2Timóteo e Tito. São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 10-47. (Comentário do Novo Testamento); KELLY, J. N. D. 1 e 2Timóteo: Introdução e Comentário. Reimp. 2014. São Paulo: Vida Nova, 1983, p. 9-43. (Série Cultura Bíblica); HINSON, E. Glenn. 1 e 2Timóteo e Tito. In: ALLEN, Clifton J. (Ed.). Comentário Bíblico Broadman: Novo Testamento. Rio de Janeiro: Junta de Educação Religiosa e Publicações, 1985, p. 361-365, v. 12; HARRIS, Robert Laird. Inspiração e Canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 33-37, 217-255; RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: A Obra Definitiva Sobre o Pensamento do Apóstolo dos Gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 14-15, 520-522); ELLIS, E. Earle. Cartas Pastorais. In: HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P. (Org.). Dicionário de Paulo e Suas Cartas. São Paulo: Vida Nova, Paulus, Loyola, 2000, p. 181-191; MARSHALL, I. Howard. Teologia do Novo Testamento: Diversos Testemunhos: Um Só Evangelho. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 345-363 e THIELMAN, Frank. Teologia do Novo Testamento: Uma Abordagem Canônica e Sintética. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 261-278, 487-573.

[2] PACKER, J. I. Ortodoxia. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova,1990, p. 70. v. 3 N — Z.

[3] Este é o argumento de BRUNNER, op. cit., passim.

[4] KÖSTENBERGER, Andreas J. A Heresia da Ortodoxia: Como o Fascínio da Cultura Contemporânea Pela Diversidade Está Transformando Nossa Visão do Cristianismo Primitivo. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 18.

[5] O termo “fundamentalismo” é utilizado aqui em sua conotação negativa. Em escritos contemporâneos, o vocábulo é ligado a atitudes como intransigência, orgulho, incapacidade de lidar com o diferente ou plural e uso de violência, desde calúnias, difamações, abuso moral ou perseguições até assassinato. Não há nenhum problema em ser fundamentalista no sentido expresso pelo Dicionário Houaiss: “Qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos”. Cf. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Sales. (Ed.). Fundamentalismo. In: Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. Versão 1.0.5a. Editora Objetivo Ltda., 2002. CD-ROM. O Cristianismo destaca o seguimento estrito de “um conjunto de princípios básicos” que lhe dão distinção, ou seja, identidade.

[6] Um detalhe a considerar é que alguns que advogam tais postulados não estão muito dispostos a amar aqueles a quem consideram “fundamentalistas” ou “ultraconservadores”. A abertura ao pensamento plural só é advogada por estes quando lhes favorece a interpretação.

[7] Cf. GOMES, Paulo Sérgio; OLIVETTI, Odayr. Novo Testamento Interlinear Analítico: Texto Majoritário Com Aparato Crítico: Grego — Português. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 896. Grifos nossos.

[8] PACKER, op. cit., loc. cit.

[9] McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005, p. 656.

[10] OLSON, Roger. História da Teologia Cristã: 2000 Anos de Tradição e Reformas. São Paulo: Vida, 2001, p. 21.

[11] PACKER, op. cit., loc. cit.

[12] AZEVEDO, Francisco Ferreira dos Santos. Dicionário Analógico da Língua Portuguesa: Ideias Afins / Thesaurus. 2. ed. Atualizada e revista. Rio de Janeiro: Lexicon, 2010, #495, p. 209-210.

[13] AZEVEDO, op. cit., #984, p. 482.

[14] CHESTERTON, G. K. Hereges. 3. ed. Campinas: Centro de Desenvolvimento Profissional e Tecnológico Ltda. (CEDET), 2014, p. 37-38.

[15] DEMAREST, B. Heresia. In: FERGUSON, Sinclair B. (Ed.). Novo Dicionário de Teologia. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 488-489.

[16] CHESTERTON, op. cit., p. 38.

[17] AZEVEDO, op. cit., #989, p. 484.

[18] Não me refiro aqui à Ortodoxia Protestante, o movimento de organização sistemática da doutrina reformada, em resposta aos postulados das Teologias Luterana e Católica; cf. McGRATH, Alister E. Teologia Histórica: Uma Introdução à História do Pensamento Cristão. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 187-191. Falo de “ortodoxia evangélica” me referindo ao conjunto de verdades bíblicas assumidas tanto por cristãos evangélicos arminianos, quanto por calvinistas.

[19] Há quem utilize “dogma” com um sentido diferente. O termo é usado por alguns para referir-se aos ensinos da chamada Teologia Sistemática (daí algumas destas teologias serem intituladas “Dogmáticas”). Para outros, “dogma” é sinônimo de qualquer ensinamento religioso.

[20] Pode ser citada como exemplo de doutrina denominacional a proposição do batismo somente por imersão.

[21] Como exemplo de um ensino indiferente pode ser apontado o texto de Marcos 14.51. Quem é o “jovem” que “fugiu desnudo”, mencionado nesta passagem? Cristãos podem levantar hipóteses e sugerir respostas diferentes. Ainda que eu responda a esta questão de modo diferente de outro irmão, isso não inviabiliza nossa comunhão em Cristo. Os ensinos indiferentes são chamados, em Teologia, de adiáfora. Sobre Dogma, Doutrina e Adiáfora, cf. OLSON, op. cit., p. 17-18.

[22] OLSON, Roger. História das Controvérsias na Teologia Cristã: 2000 Anos de Unidade e Diversidade. São Paulo: Vida, 2004, p. 77.

[23] BOWMAN JR., Robert M. Por Que Devo Crer na Trindade: Uma Resposta às Testemunhas de Jeová. São Paulo: Candeia, 1996, p. 17-18.

[24] CHESTERTON, op. cit., p. 37-38.

[25] BREWARD, I. Unitarismo. In: FERGUSON, op. cit., p. 1176.

[26] BREWARD, op. cit., loc. cit.

[27] Ibid., loc. cit.

[28] Ibid., p. 1177.

[29] J. I. Packer nos ajuda a compreender que o liberalismo teológico é caracterizado por sete aspectos: (1) Os dogmas tradicionais são rejeitados e a fé bíblica é adaptada a fim de combinar com as ideias naturalistas e antropocêntricas atuais; (2) o sobrenaturalismo é repelido; (3) a Bíblia é vista apenas como um livro humano e que contém erros; (4) assume-se “uma ideia, de ordem imanentista e subtrinitariana” e concebe-se Jesus “como pioneiro e modelo religioso, homem supremamente cheio de Deus, em vez de o salvador divino”; (5) uma visão otimista da capacidade humana; (6) a negação da doutrina da depravação total. Cf. PACKER, Liberalismo e Conservadorismo em Teologia. In; FERGUSON, op. cit., p. 614-615.

[30] SCHWARZ, Christian A. Nós Diante da Trindade: O Poder Libertador da Fé no Deus Triúno. Curitiba: Editora Evangélica Esperança, 1999, p. 13. Grifo nosso.

[31] O modalismo é a alegação de que há uma só pessoa que aparece a nós de três diferentes modos ou formas. Cf. GRUDEM, Wayne. Manual de Doutrinas Cristãs: Teologia Sistemática ao Alcance de Todos. São Paulo: Editora Vida, 2005, p. 118.

[32] Percebamos que a suposta busca por “simplicidade” ou retorno à Bíblia separada do apego à teologia dos símbolos e credos representou, na verdade, uma guinada da igreja rumo ao erro doutrinário.

[33] GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão: Dos Primórdios ao Concílio de Calcedônia. 2. ed. Revisada. São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 143, argumenta que o Credo foi utilizado “como um modo de garantir a ortodoxia do recém batizado” (op. cit., loc. cit.). McGrath afirma que o Credo Apostólico é “o mais simples e mais antigo credo da igreja. Todas as tradições cristãs reconhecem a importância e a autoridade dele como padrão de doutrina” (cf. MCGRATH, Alister. Creio: Um Estudo Sobre as Verdades Essenciais da Fé Cristã no Credo Apostólico. São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 16).

[34] Credo Apostólico. In: MARRA, Cláudio. (Ed.). Novo Cântico. 16. ed. Reimp. 2015. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 347.

[35] OLSON, 2001, p. 199-200. A expressão “e do Filho” é uma adição encaminhada pelo Sínodo de Toledo, realizado em 589, a partir de uma formulação de Agostinho, do entendimento do Espírito Santo como “fruto do amor mútuo do Pai e do Filho” (cf. Hipólito. Contra Noecio, 10, apud BOWMAN JR., op. cit., p. 32-33; NASCIMENTO, Misael; PORTO, Ivonete. O Deus do Pacto. São José do Rio Preto: Misael Nascimento, 2016. e-Book. (Série O Conhecimento de Deus). A Igreja Grega não aceitou a adição e isso foi uma das causas da divisão entre as Igrejas do Oriente e Ocidente; cf. HODGE, Charles. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001, p. 344.

[36] HODGE, op. cit., loc. cit.

[37] Ibid., p. 344-345; IELB — Igreja Evangélica Luterana no Brasil. O Que Cremos: Os Credos Ecumênicos. Disponível em: <http://www.ielb.org.br/cremos/credos.htm>. Acesso em: 10 jul. 2007. Grifos nossos.

[38] A inspiração plenária implica em origem divina, inerrância e a infalibilidade, bem como composição consistente, coerência e autenticidade do texto bíblico.

[39] Nem todos os evangélicos concordaram quanto à proposição reformada de suficiência das Escrituras. Sobre este assunto, cf. NASCIMENTO, Misael; PORTO, Ivonete. Profetas: Os Pontos e Vista Católico-Romano, Evangélico e Reformado Sobre Revelação. In: Blog Somente Pela Graça. Disponível em: <http://www.misaelbn.com/profetas-os-pontos-de-vista-catolico-romano-evangelico-e-reformado-sobre-revelacao/>. Acesso em: 18 mar. 2017.

[40] Uma resposta aos pontos de vista liberais foi sumarizada em TORREY, R. A. (Ed.). Os Fundamentos: A Famosa Coletânea de Textos das Verdades Bíblicas Fundamentais. São Paulo: Hagnos, 2005, passim. O argumento de que o liberalismo não é cristianismo foi articulado por MACHEN, J. Gresham. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Editora Puritanos, 2001, passim.

[41] Nesse outro contexto, “fundamentalismo” tem um sentido positivo de apego aos alicerces bíblicos.

[42] Cf. LUCAS, Sean Michael et al. Série Fé Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 2015, p. 9-50. v. 1.

[43] Cf. Calvinistas Pontuais ou Consistentes. In: NASCIMENTO, op. cit. Disponível em: <http://www.misaelbn.com/calvinistas-pontuais-ou-consistentes/>. Acesso em: 18 mar. 2017.

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