“Pense diferente”: Uma proposta existencial

Ao reassumir a direção da Apple, no final dos anos 90, Steve Jobs surpreendeu o mundo com a campanha “Pense Diferente”. Em vários lugares do globo, viu-se ao lado de imagens de personagens célebres: Pensadores, ativistas políticos e religiosos, inventores, artistas, enfim, gente que contribuiu para a mudança de paradigmas da humanidade.

No Brasil, as repercussões da campanha foram pequenas. Mesmo assim, o slogan “pegou”. Daí o convite a uma breve reflexão sobre o assunto.

O “Pense Diferente” é mais do que um slogan. Para dizer a verdade, trata-se de uma daquelas expressões luminosas que sintetizam não apenas os atributos de um produto, mas afirmam uma forma de ser, uma determinada maneira de encarar a existência, de lidar com a realidade cotidiana. Estamos diante de algo que extrapola o simples chamado à aquisição de máquinas bonitas ou ao uso de um bom sistema operacional. E isso foi estabelecido de modo muito feliz pelos próprios personagens utilizados na campanha da Apple.

Em meio a uma sociedade manipuladora, onde os seres humanos são quase que forçados a decidirem de acordo com a maioria, o “Pense Diferente” convida-nos à liberdade, aos caminhos alternativos, determinados pela individualidade. Tal valorização do indivíduo que pensa é bastante salutar. Ela diz “não” à descerebração imposta pela mass media e desafia-nos à descoberta da existência plena, proposta pelo “cogito” de Descartes: “Penso, logo existo”.

E tal pensamento possui características distintas. Ele é diferente e contracultural. Constrói coisas novas, inusitadas e belas. Ao fazer oposição à cultura vigente, este novo pensamento produz inicialmente escândalos e surpresas. Logo depois, ele gera transformações positivas. Assim é que, aqui e ali, em diversos momentos da história, o mundo é visitado por pessoas que ousam optar pela diferença. Seres humanos iluminados e iluminadores. Pessoas que abrem as portas da humanidade para novas dimensões de realizações e entendimentos sobre a vida.

O diferente não teme ser radical, nem apega-se aos elogios dos outros. Ele simplesmente assume sua condição e empenha-se em sua vocação, certo de estar cumprindo um “propósito divino”— mesmo que tal indivíduo não seja necessariamente um religioso. Ele cria com paixão e luta por ideais estranhos aos massificados e inertes. Ele assume posturas e defende propostas inicialmente incompreensíveis, que tempos depois tornam-se padrões nas culturas civilizadas.

É nesse ponto que vejo o slogan da Apple como muito mais do que um apelo comercial. Na verdade, poderíamos encará-lo como um apelo ao surgimento de novos Einsteins e Picassos. Ele fala de um mundo mais alegre e feliz, mais aberto aos sentimentos e à beleza integral.

O usuário Apple é muito mais do que um cliente-gerador-de-lucros, ou um aficionado por computadores. Ele é alguém que não teme remar contra a maré, que ousa caminhar por trilhas nunca antes percorridas. Ele é um “navegador de mudanças”, um criativo incorrigível, um apaixonado pela vida — e pela vida bonita, com melhores homens e melhores tecnologias.

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