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Quem foram Mortimer J. Adler e Charles Van Doren

A sistematização do método de leitura ativa pode ser conferida na obra Como Ler Livros,[1] de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren. As primeiras edições, de 1940 e 1967, escritas somente por Adler, foram sucesso de vendas e traduzidas para diversos idiomas. A edição de 1972, disponibilizada pela É Realizações em 2011, foi escrita com a parceria de Van Doren.

Mas quem foram Adler e Van Doren?

Mortimer Adler
Mortimer J. Adler
Charles Van Doren
Charles Van Doren

Mortimer Jerome Adler nasceu em Nova York, em 28 de dezembro de 1902, e faleceu em San Mateo, Califórnia, em 28 de junho de 2001. Filósofo, educador, escritor e editor, Adler foi um entusiasta da educação e incentivador da leitura e estudo das obras dos pensadores que, segundo ele, contribuíram para a fundação e consolidação da cultura ocidental.[2] Sua trajetória acadêmica é digna de nota:

Ainda na escola pública, Adler foi contratado como contínuo pelo New York Sun, onde permaneceu por dois anos fazendo uma variedade de trabalhos editoriais em tempo integral. Ele então frequentou a Universidade de Columbia, completou seu curso de bacharelado, mas não recebeu um diploma porque recusou a educação física (natação). Ele permaneceu em Columbia para ensinar e obter seu Ph.D. (1928) e depois se tornou professor de Filosofia do Direito na Universidade de Chicago. Lá, com Robert M. Hutchins, ele se tornou um proponente da Educação Liberal através de discussões regulares baseadas na leitura de grandes livros. Ele havia estudado com John Erskine em um curso especial em Columbia, no qual os best-sellers da Antiguidade eram lidos como uma “base cultural para a compreensão e a comunicação humanas”.[3]

Adler batalhou, com sucesso relativo, por mudanças na educação norte-americana que privilegiassem um currículo ancorado na educação clássica, que é baseada nas artes liberais gregas,[4] que abrangem o trivium (lógica, gramática e retórica)[5] e o quadrivium (aritmética, música, geometria e cosmologia).[6] Nasser nos informa que:

Adler dedicou seu quase século de vida à restauração, por meio da leitura dos clássicos, da cultura do Ocidente tentando salvá-la dele mesmo. Além de ter escrito uma pletora de livros e ter convencido Robert Hutchins, reitor de Universidade de Chicago, a reformar o currículo universitário para bases aristotélicas e tomistas (o que Hutchins tentou fazer três vezes, sem sucesso), influenciou a irmã Miriam Joseph a ressuscitar a metodologia do trivium como premissa de toda a vida universitária e foi o organizador da coleção Great Books of the Western World, editada pela Encyclopædia Britannica, reunindo em sessenta volumes as obras imprescindíveis para entender a civilização ocidental, independentemente do mérito em si, considerando apenas a influência relativa na formação intelectual do homem do Ocidente.[7]

Adler tornou-se amigo de Mark Van Doren, poeta ganhador do Prêmio Pulitzer e professor da Universidade de Columbia. Em fins da década de 1960, convidou o filho de Mark, Charles Van Doren, para ajudá-lo na revisão de uma nova edição de Como Ler Livros.

Van Doren nasceu em 1926 e se graduou em artes liberais pelo St. John’s College, obteve grau de Mestre em Astrofísica e Doutor em Língua Inglesa pela Columbia University. Tornou-se uma celebridade ao participar do programa de perguntas e respostas Twenty-One (NBC, 1956–58), mas provocou decepção depois de um escândalo, em 1959, em que confessou receber as respostas antecipadamente dos organizadores.[8] A história foi contada em Quiz Show, um filme premiado dirigido por Robert Redford.[9] Apesar de carregar a pecha de “o homem que traiu Twenty-One”, Van Doren retomou uma carreira discreta, mas intelectualmente sólida, como editor da Encyclopædia Britannica e professor adjunto da Universidade de Connecticut. Além de Como Ler Livros, publicou com Adler um diálogo sobre os clássicos intitulado A Arte da Leitura (2017). No funeral de Adler, Van Doren falou sobre “a época em que caí, de bruços na lama, e [Adler] me escolheu, me escovou e me deu um emprego”.[10]


Notas

[1] ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros: O Guia Clássico da Leitura Inteligente. São Paulo: Realizações Editora Ltda., 2011, p. 25. (Coleção Educação Clássica).

[2] ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Mortimer J. Adler: American Philosopher and Educator. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Mortimer-J-Adler>. Acesso em: 02 jun. 2018.

[3] ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA, op. cit., loc. cit.

[4] Interessados pela educação clássica podem conferir MARROU, 2017: “Não se deve dizer, como o fazem frequentemente seus detratores, que a cultura clássica ‘nasceu com a cabeça virada para trás’, olhando para o passado: ela não é como um outono, torturado com a lembrança nostálgica da primavera desaparecida. Ela se imagina antes de tudo como firmemente estabelecida num imóvel presente, em plena luz de um quente sol de verão. Ela sabe, ela reusa; os mestres estão ali. Pouco importa que eles hajam aparecido em tal ou qual momento do passado, sob o efeito de tal ou qual força histórica: o importante é que existam, que novamente os descubra, da mesma maneira, cada uma das gerações sucessivas, que sejam reconhecidos, admirados, imitados” (História da Educação na Antiguidade. In: Amazon. Disponível em: <https://www.amazon.com.br/História-Educação-Antiguidade-Henri-Irénée-Marrou/dp/859409003X/ref=pd_sim_14_2?_encoding=UTF8&pd_rd_i=859409003X&pd_rd_r=18f80d54-6803-11e8-8a68-53a9eda2dace&pd_rd_w=vPrfD&pd_rd_wg=rKovd&pf_rd_i=desktop-dp-sims&pf_rd_m=A1ZZFT5FULY4LN&pf_rd_p=2953521189390955189&pf_rd_r=FREEPPRF1A4HK35Y79XQ&pf_rd_s=desktop-dp-sims&pf_rd_t=40701&psc=1&refRID=FREEPPRF1A4HK35Y79XQ>. Acesso em: 04 jun. 2018).

[5] O trivium é estudado por interessados em linguagem; cf. MCLUHAN, Marshall. O Trivium Clássico. São Paulo: É Realizações, 2012; JOSEPH, Miriam. Trivium. São Paulo: É Realizações, 2015.

[6] “O quadrivium compreende as quatro artes liberais da aritmética, da geometria, da música e da cosmologia, estudadas da Antiguidade até a Renascença como uma maneira de vislumbrar a natureza da realidade. Elas sintetizam número, espaço e tempo. A geometria é o número no espaço; a música é o número no tempo; e o cosmos expressa o número no espaço e no tempo” (apresentação do livro Quadrivium, no site da Amazon. Disponível em: <https://www.amazon.com.br/Quadrivium-John-Martineau/dp/8580331625/ref=pd_sim_14_7?_encoding=UTF8&pd_rd_i=8580331625&pd_rd_r=bb5aeac7-67fb-11e8-b9ca-89a5c8e6efba&pd_rd_w=GMIL4&pd_rd_wg=pZbBr&pf_rd_i=desktop-dp-sims&pf_rd_m=A1ZZFT5FULY4LN&pf_rd_p=2953521189390955189&pf_rd_r=GD1F5Y8WNM7JZDD8BYAB&pf_rd_s=desktop-dp-sims&pf_rd_t=40701&psc=1&refRID=GD1F5Y8WNM7JZDD8BYAB>. Acesso em: 04 Jun. 2018; cf. MARTINEAU, John, 2014).

[7] Prefácio do professor José Monir Nasser. In: ADLER, VAN DOREN, op. cit., p. 11.

[8] ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Television in the United States: The Year Of Transition: 1959. Disponível em: <https://www.britannica.com/art/television-in-the-United-States/The-year-of-transition-1959>. Acesso em: 03 jun. 2018.

[9] QUIZ SHOW. Produtores: Robert Redford, Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Nozik. Estados Unidos, 1994.

[10] BEAM, Alex. After 49 years, Charles Van Doren talks. In: The New York Times. 21 de julho de 2008. Disponível em: <https://www.nytimes.com/2008/07/21/opinion/21iht-edbeam.1.14660467.html?_r=0>. Acesso em: 03 jun. 2018.

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