Trabalho e reino de Deus

Deus estabeleceu o trabalho. Precisamos reconhecer a santidade do trabalho, não apenas demonstrar santidade no trabalho, mas perceber que todo trabalho lícito possui seu santo propósito e dignidade. A falta de entendimento dessa questão produz graves consequências.

Uma jovem que conheci, filha de uma cristã dedicada, desde cedo sentiu o desejo de consagrar sua vida a Deus de modo especial. Seu desempenho na obra de Deus e sua resposta a alguns apelos fortaleceram sua convicção de que para servir inteiramente a Deus ela devia dedicar-se à obra missionária transcultural. Ela preparou-se para isso e integrou-se a uma organização que a enviou para a África.

Naquele continente, ela passou por uma experiência dura. Viu alguns dos integrantes de sua equipe adoecerem e morrerem de malária (estes tiveram de ser sepultados pelos próprios colegas de equipe). Voltou ao Brasil desapontada e, na última vez em que ouvi notícias dela, trabalhava como funcionária pública.

Será que tal irmã deve sentir-se culpada por ter “abandonado” o serviço de Deus e abraçado uma atividade “secular” (o serviço público)? Será que o serviço público é, também, serviço de Deus? Como os outros cristãos interpretam a experiência daquela irmã? Alguns podem achar que ela cedeu às pressões do “mundo” e deixou de ser “fiel” ao chamado divino.

Se desejamos andar com Deus, como cristãos autênticos e que experimentam uma revolução espiritual sem precedentes, compreendamos que isso deve acontecer, primeiramente, em nossa família (Cl 3.18-21) e, em seguida, em nosso trabalho (Cl 3.22-4.1). Todo trabalho lícito é uma ordenança divina para anúncio, testemunho e confirmação do reino de Deus. Isso é compreendido a partir de duas percepções.

O reino é o cosmos

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17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. 18 Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, 19 porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude 20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus (Cl 1.17-20).
E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.17).

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A palavra do apóstolo Paulo, registrada em Colossenses 3.22–4.1 é um desdobramento das afirmações anteriores, de 1.19-20; 3.17. A obra de Cristo é de reconciliação cósmica. Na redenção, Jesus coloca o universo sob seu cetro.

Isso significa que Cristo reina sobre tudo (Cl 1.17-20). “Reino de Deus”, compreendido sob essa ótica, é muito mais do que a igreja. A igreja é agente fundamental deste reino, mas a igreja não é a totalidade do reino. O reino compreende o domínio de Deus sobre todas as esferas da criação (numérica, espacial, cinemática, física, biótica, sensitiva, analítica, histórica, linguística, social, econômica, estética, jurídica, ética e credal). Por isso é possível afirmar que o reino é teológico, Teos [Deus] + lógico [estudo, ciência, lógica], ou seja, tudo o que existe, existe para expressar a verdade ou a lógica ou o conhecimento de Deus e para prestar a esse Deus glória e honra e louvor pelos séculos dos séculos. Não há um milímetro do cosmos que esteja fora do âmbito do governo do Senhor Jesus Cristo. Ainda que Satanás administre um reino parasita, de rebeldia, este é forçado a reconhecer, ainda que aos grunhidos, que Cristo é o Rei. Os cristãos, já havendo sido tocados pelo poder do Rei Jesus, empreendem uma missão santa, de marcar todas as esferas da existência com o “nome de Jesus” (Cl 3.17).

Esse são os fatos apresentados pela Escritura. Apesar disso, a igreja, no decorrer de sua história, perdeu essa noção de inteireza, de totalidade da criação sob Deus. A cultura ocidental trocou a visão de cosmos (cosmovisão) bíblica pela percepção de um universo em dois pavimentos sendo que, no pavimento superior ficam os valores e a religião, ou seja, aquelas coisas que não são, necessariamente, a Verdade, mas sim, “verdades” subjetivas – cada um crê no que quiser e cada um assume os valores que considera mais adequados aos seus desejos. Ninguém “discute” valores nem religião. O que importa é que cada ser humano tenha suas convicções sobre essas coisas, mas tudo isso é apenas crença e valor, não se relaciona com a vida pública, o universo dos fatos.

Dois pavimentos

No pavimento de baixo fica a vida pública, os fatos. É o universo do trabalho. Deus está fora desse âmbito. Nesse sentido, os materialistas podem até concordar que o indivíduo tenha suas crenças e valores mas acham um absurdo que alguém queira misturar suas crenças com o “mundo real” do trabalho. Muitos cristãos têm sido contaminados com essa visão da vida em dois pavimentos. Muitos concordam com Colossenses 1.18: “Ele [Cristo] é a cabeça do corpo, a igreja”, mas, ficam constrangidos em afirmar, em seus ambientes de trabalho, Colossenses 1.17: “Nele [Cristo], tudo subsiste”. Nele a Procuradoria Geral da República subsiste. Nele o desenvolvimento de microchipts subsiste. Nele o ofício de construtor subsiste. Nele a matemática subsiste. Nele a Arquitetura subsiste. Nele o Direito subsiste. Nele a Farmácia, a Enfermagem e a Medicina subsistem. Nele a vida militar subsiste. Nele a Política subsiste. Colossenses 1.17 é a base para 1.18. Este que governa a igreja sustenta tudo o mais. A igreja não é a totalidade do reino, a igreja é parte importante do reino, mas o reino é o cosmos — tudo o que existe.

Todo trabalho lícito é no e para o reino

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E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai (Cl 3.17).

22 Servos, obedecei em tudo ao vosso senhor segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-somente agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. 23 Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor e não para homens, 24 cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; 25 pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas.
1 Senhores, tratai os servos com justiça e com equidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu (Cl 3.22-25, 4.1).

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Todo trabalho lícito é teológico, Deus-lógico, ou seja, foi estabelecido para refletir e vindicar uma lógica, uma visão e um conhecimento do Criador.

Assim sendo, toda profissão lícita (ou seja, honesta, cujo exercício não contrarie a lei moral e o ensino do Senhor Jesus Cristo), tem origem em Deus e existe para Deus. Esse é o argumento do apóstolo Paulo: “O que se faz no trabalho, se faz para Deus (Cl 3.23). O que se faz no tempo de expediente tem alcance eterno; a recompensa do trabalho extrapola o salário: é “recompensa de Deus” (Cl 3.24). Isso significa que o que um pastor realiza toca os céus, enquanto abençoa a terra. O que uma diarista realiza toca os céus, enquanto abençoa a terra. O que um professor de ensino fundamental, médio ou superior realiza toca os céus, enquanto abençoa a terra. Ou seja, não há separação entre vocações sagradas e vocações seculares. Todos as profissões lícitas são sagradas.

Nesse caso, há cristãos teólogos profissionais, chamados para o exercício da teologia em tempo integral (os pastores e “doutores” da igreja, segundo João Calvino). Por outro lado, todos os cristãos são teólogos em seus contextos – têm de refletir e implementar a lógica ou conhecimento de Deus em suas respectivas áreas de atuação.

Mais: Para servir a Deus poderosa e obedientemente, não é necessário abandonar sua vocação não-eclesiástica para mergulhar no trabalho eclesiástico. O serviço a Deus não equivale, necessariamente, ao serviço eclesiástico remunerado.

Um rapaz foi conversar com um pastor cujo ministério ele apreciava. Sentou-se em frente ao ministro e pediu ajuda:

— Pastor, sou estudante universitário, cursando o quarto semestre de Administração. De uns tempos pra cá tenho sentido que Deus está me chamando para uma maior consagração de minha vida e dons para o seu serviço. Também tenho tido cada vez mais fome e sede da Escritura e de doutrina. Será que Deus quer que eu abandone o curso de Administração e estude Teologia em um seminário?

O pastor alegrou-se ao constatar sinais da graça de Deus na vida do jovem e em seguida surpreendeu-o com uma orientação inusitada:

— Continue trabalhando com todas as suas forças para o Senhor. Enquanto isso, termine seus estudos, inicie uma carreira em administração e dedique-se a isso por dois anos. Após o término do curso de Administração, matricule-se no seminário e curse as matérias teológicas necessárias para sua graduação. Após o término de seus cursos, tendo servido voluntariamente na igreja e havendo experimentado a carreira de administrador, analise seu coração. Se você perceber que a convicção para a dedicação ao pastorado persiste, abrace-a e utilize no ministério os seus conhecimentos em Administração. Se você notar que a carreira de administrador é o seu lugar, entenda que a administração e não o trabalho pastoral é a sua divina vocação; seja um administrador para a glória de Deus e continue a servir ao Senhor na igreja como cristão voluntário.

O jovem saiu do gabinete pastoral e seguiu aquelas orientações. Hoje é um administrador bem-sucedido e servo consagrado ao Senhor.

Será que a igreja “perdeu” um vocacionado ou o reino ganhou um administrador para a glória de Deus?

O Cristianismo, ao esquecer o ensino apostólico, assumiu uma concepção errada de “chamado”. No lado católico romano, a igreja passou a considerar “vocacionadas” apenas as pessoas dedicadas à vida monástica ou ao sacerdócio. No lado protestante, a igreja considera “chamados” apenas os evangelistas, missionários e pastores.

Lembro-me da visita de um missionário a uma igreja que eu pastoreava, há alguns anos. Aquele obreiro relatou suas muitas e maravilhosas experiências de plantação de igrejas em comunidades ribeirinhas do Alto Amazonas. Ao fim de uma de suas preleções, alguém me cumprimentou e disse: “Esse é mesmo chamado!”. Observe o que está por trás: Ele vai ao interior, viaja a pé por densos matagais, enfrenta a malária e prega aos ribeirinhos. Ele foi chamado, enquanto eu, que vivo em um centro urbano e trabalho 40 horas semanais em um órgão público sou apenas um cristão comum.

Muitos cristãos entendem que, para servir a Deus totalmente, têm de abandonar suas carreiras “mundanas” ou “seculares” – como se estas fossem más ou empecilhos para a realização do propósito de Deus para suas vidas. Toda uma mitologia cristã surgiu a fim de fortalecer estas concepções.

Um dos mitos é que para “servir integralmente a Deus” você precisa abandonar sua carreira, mesmo que esteja indicado, sem sombra de dúvida, que Deus, quando criou você, lhe concedeu talentos para aquela ocupação. Lembre-se de que Deus soberanamente prepara pessoas para as diversas posições a serem ocupadas em seu reino e, tal chamado, normalmente, implica em assumir uma caminhada nova com Deus, diferente do que havíamos planejado anteriormente. O problema ocorre quando, precipitadamente, alguém passa a entender que somente sendo pastor ou missionário ou religioso em tempo integral ele está servindo totalmente a Deus.

Tal mito é ainda reelaborado a fim de enaltecer o serviço eclesiástico como espaço de martírio ou penitência. Quanto mais penitência e sofrimento no exercício do serviço cristão em tempo integral, mais o cristão é considerado fiel, ou espiritual. A história da igreja – tanto católica quanto protestante – é coalhada de relatos de sangue derramado (literal ou simbolicamente) de mártires. Notemos que tal concepção contraria a doutrina basilar da Reforma, da salvação pela graça mediante a fé. Na vida com Deus de acordo com o evangelho não há necessidade de nenhuma penitência ou satisfação de obras para que sejamos aceitos por Deus. Somos chamados a viver pela fé — a crermos em Cristo, descansarmos em suas promessas e nos consagrar a ele como resposta de amor por sua bondade revelada a nós.

Muitos se precipitam ao abraçar a carreira eclesiástica sem terem sido chamados, de fato, para tal. Ao invés de abençoar, prejudicam a igreja. É comum o reino perder brilhantes advogados ou homens de negócio, a fim de contar com obreiros medíocres – pessoas bem-intencionadas que, apesar da sinceridade da dedicação, estão no lugar errado e cujos anos de ministério sem frutos sinaliza a ausência de vocação para o serviço na igreja em tempo integral.

Tal concepção não encontra respaldo na Escritura. Os patriarcas serviram a Deus como criadores de ovelhas, José serviu como administrador, Josué como líder militar e político, Débora como juíza, Davi como rei, Neemias como gerente de empreendimentos, Daniel como consultor real. A Bíblia mostra pessoas servindo a Deus como boiadeiros, carpinteiros, artesãos e construtores de tendas. Sim, é claro que há vários exemplos bíblicos de pessoas que serviram a Deus como profetas, evangelistas e pastores. Mas há abundantes exemplos de gente que serviu a Deus em suas profissões, sem nenhum tipo de constrangimento espiritual, compreendendo corretamente a doutrina da vocação.

Enfim, de acordo com o ensino da Bíblia, o reino é o cosmos, ou seja, abrange tudo. Por causa disso, todo trabalho lícito é no e para o reino.

Conclusão

Olhando para este ensino, concluímos que Cristo dá sentido às pequenas coisas, mesmo as mais rotineiras. Ele transforma aquele expediente maçante, naquela baia de telemarketing, espaço de revelação poderosa do reino, oportunidade de dar a Deus a glória devida a seu nome. Assim sendo, somos chamados a crer em Cristo como nosso Salvador e Senhor. Somente nele encontramos o verdadeiro significado de nossa existência, o poder para santificar e reorientar tudo para um propósito que, ao mesmo tempo que nos inclui individualmente, nos convoca para uma missão que está muito acima de nós. Em Cristo somos arregimentados para marcar todas as coisas com o selo de seu reino.

A falta de compreensão deste ponto produziu dois grandes estragos:

  • Primeiro, transformou a igreja, de comunidade voluntária de fé, em superestrutura eclesiástica. A igreja, inicialmente uma comunhão de culto e serviço voluntário, tornou-se cada vez mais inchada em sua estrutura. Cada vez mais dinheiro foi necessário para sustentar o ministério.
  • Segundo, a falta de compreensão deste ponto, além de afrontar e ridicularizar a doutrina da criação, fez com que os cristãos abandonassem o mundo (a sociedade e a cultura) aos materialistas e orientalistas. O “serviço” cristão foi considerado como serviço da igreja e a atividade profissional dos cristãos foi considerada como um apêndice ou mal necessário até o desfrute das bênçãos maravilhosas do céu. A sociedade – a vida concreta na terra – foi deixada às moscas, minimizada e transtornada, enquanto Satanás ficou à vontade para influenciar a esfera pública.

Tais considerações nos estimulam a reconsiderar nossos trabalhos. O que é o seu trabalho, pra você? Como você o encara? Você consegue enxergar essa dimensão do reino de Deus ali, em seu trabalho? Haveriam formas práticas de você demonstrar, em seu trabalho, o reino de Deus?

Penso que estamos mais prontos agora a responder a essas perguntas.

Referência bibliográfica:

PEARCEY, Nancy. Verdade absoluta: Libertando o Cristianismo de seu cativeiro cultural. Rio de Janeiro: Casa Editora das Assembleias de Deus (CPAD), 2006.

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